Antes de tudo, não pretendo tratar aqui sobre conceitos de ideologias políticas de esquerda, poderei fazer isto em artigos futuros, mas sim desvelar o processo histórico de construção da demonização do socialismo, comunismo e anarquismo no país.

 

Em 1845, o parlamento britânico aprovou a lei Bill Aberdeen, que concedia ao almirantado inglês a prerrogativa de atacar e aprisionar navios que fizessem o transporte de escravizados do continente africano para as Américas.  Assim, o acirramento do cerco ao tráfico negreiro, bem como a pressão da coroa inglesa para a supressão da escravização – não por questões humanitárias, mas por necessidade de abertura de mercados ao capital britânico -, fez com que o império brasileiro buscasse alternativas de substituição da mão de obra do escravizado.

 

Na segunda metade do século XIX, o ocidente enfrentou a primeira depressão do capitalismo, que gerou falências, desemprego e pressão social na Europa. A saída para alguns países foi estimular a emigração.

 

Destarte, por interesses convergentes, teve início o processo de imigração em larga escala para o Brasil. A partir de 1872, chegaram os primeiros grupos de italianos, seguidos por alemães, espanhóis, portugueses e outras dezenas de nacionalidades que para cá vieram. Gradualmente, o imigrante substituiu o negro na produção do café.

 

Mais tarde, na virada do século XIX para o XX, quando a economia cafeeira deparou com sua primeira crise, muitas famílias de imigrantes deixaram as fazendas e se fixaram em áreas urbanas.  Muitos cafeicultores – aqueles com conhecimento maior sobre conjunturas econômicas -, preocupados com o futuro do mercado do café, decidiram diversificar investindo parte de seu capital em pequenas fábricas. Desta forma, despontou tardiamente o processo de industrialização no país.

 

São Paulo, província que mais prosperou no ciclo do café, reunia condições adequadas ao desenvolvimento industrial: excedentes econômicos; mão de obra abundante – com a constante chegada de imigrantes de diversas partes -; estabelecimento de casas bancárias; bem como a instalação da malha de transporte ferroviário, que facilitou a chegada da matéria-prima e o escoamento do produto final para as indústrias. Portanto, foi em São Paulo que o desenvolvimento industrial se consolidou.

 

Desde a abolição da escravidão, o negro passou a ser preterido como mão de obra. As mentalidades empreendedoras da época pregavam que, fosse para pagar, que se pagasse por mão de obra branca, melhor qualificada e de origem europeia. Conforme defendeu o historiador Petrônio Domingues, em Uma História Não Contada – negro, racismo e branqueamento em São Paulo no pós-abolição, a imigração de europeus para (a) província foi permeada pelo ideal de “branqueamento” da mão de obra. Sendo assim, trouxeram para São Paulo mão de obra imigrante, branca, em quantidade maior do que a demanda.

 

Em 1900, a capital paulista tinha uma população que girava em torno de 260 mil habitantes e neste mesmo ano chegaram pelo porto de Santos 75 mil italianos, outros milhares de espanhóis e portugueses e de outras nacionalidades, segundo Trento. Estes imigrantes traziam consigo ideias e ideais que se disseminavam entre as classes trabalhadoras europeias – baseados principalmente no pensamento de Marx, Bakunin e Proudhon, e na ação de ativistas como o francês Fernand Pelloutier, um dos maiores expoentes do movimento anarco-sindicalista. Foi esta a mão de obra absorvida pela florescente indústria. Se por um lado eram mais qualificados que o trabalhador nacional, pois já conheciam os ofícios da fábrica, por outro sabiam que tinham de lutar por seus direitos.

 

Com o início da I Guerra Mundial, a produção industrial europeia sofreu uma brutal queda e o Brasil ocupou um papel importante na exportação de gêneros alimentícios, o que causou a redução de oferta interna e a alta de preços. Longas jornadas de trabalho – chegavam a até 16 horas -, trabalho infantil generalizado,  alto custo de moradia e alimentos – entre 1914 e 1923, o salário havia subido 71% enquanto o custo de vida havia aumentado 189%; isso representava uma queda de dois terços no poder de compra do trabalhador – geraram grande pressão social.

 

Em 1917, foi deflagrada em São Paulo uma das mais abrangentes e longas greves da história brasileira. Em poucos dias, paralisou em torno de 50 mil operários em todo o país. Os industriais consideraram a greve não como uma questão social e política, mas como caso de polícia. E a partir de então intensificaram as críticas e a criminalização, bem como passaram a forjar narrativas falaciosas sobre as ideias e ideais anarquistas e comunistas. Para isso, tiveram total apoio da imprensa hegemônica, que, além de pertencer à classe do patronato, também era afetada pelas reivindicações de seus operários. Entre 1917 e 1920, ocorreram muitas greves organizadas e a grande imprensa tratava os movimentos como sendo anarquistas, atribuindo a eles o significado de desordem e caos, afinal as paralisações causavam desabastecimento e convulsão social.

 

O Partido Comunista Brasileiro, ou Partidão, fundado em Niterói em 1922, sofreu forte repressão desde sua instituição. Durante o Estado Novo, teve suas lideranças presas e foi colocado na ilegalidade. Para justificar as ações despóticas e a repressão violenta contra os movimentos sociais e partidos organizados para (a) luta pelos direitos dos trabalhadores – fossem de orientação comunista ou anarquista -, foi preciso engendrar narrativas que os desabonassem, que vilipendiassem suas imagens.

 

A influência dos EUA, com o projeto de americanização do Brasil – que usou como ferramenta a indústria cultural, especialmente a cinematográfica -, também contribuiu enormemente para a perversão do conceito do que são as esquerdas.

 

A imprensa escrita, a rádio e mais tarde a televisão passaram a demonizar as ideologias de esquerda em defesa de interesses próprios, isto é,das elites temerosas pela perda de seus preciosos privilégios. Este processo, fruto da desonestidade intelectual de alguns poucos que sempre dominaram a produção e distribuição da informação no país, gerou distorções e aberrações interpretativas sobre o que é socialismo, comunismo e anarquismo.

 

Dentre as disformidades que produzem o profundo vazio conceitual em que muitos – inclusive os que se entendem como bem-informados – estão mergulhados, está a ideia de que num “governo” comunista – leia-se socialista e anarquista também, pois todas as ideologias são dispostas no mesmo balaio tecido pela ignorância, como se não houvesse relevantes diferenças entre elas – tudo seria dividido entre todos.
Ora, esta ideia produz terror nas classes médias, pois, de modo geral, negam-se a dividir o “pouco” que têm com os miseráveis, o que de certa forma é compreensível, pois também são oprimidos, ainda que gozem de alguns pequenos privilégios. Cresci ouvindo de reacionários que, se o comunismo se instalasse no país, teríamos de dividir a casa e todos os bens com outras famílias.
Contudo, nem Flora Tristan, nem Marx, nem Engels, nem outro pensador socialista ou comunista tratou sobre “dividir o pão” com os mais pobres. Marx tratou sobre a revolução do proletariado, por intermédio da qual os trabalhadores tomariam o poder e instaurariam o socialismo, que pretende a sociabilização dos meios de produção e não a divisão dos bens individuais. Quem ensinou sobre a divisão dos bens individuais, isto é, a dividir o pão, foi um cara chamado Jesus Cristo, e não Tristan, Marx, Engels, Gramsci ou qualquer outro.

 

Um conceito que deveria ser caro ao cristão é o de charitas, ou amor fraterno, que deu origem ao termo caridade. Segundo Santo Agostinho, “das coisas temporais devemos fazer uso, não gozar, para merecermos gozar das eternas. Não como os perversos, que querem gozar do dinheiro e usar de Deus, porque não gastam o dinheiro por amor a Deus, mas prestam culto a Deus por causa do dinheiro (De civ. Dei, XI, 25).” Agostinho pregava que caridade não significa dar o que te sobra – que é como se entende e pratica o conceito nos dias atuais – mas dividir o que se tem. Assim, repito e reforço: “dividir o pão” é um ensinamento cristão e não de ideologias políticas e sociais.

 

Um outro equívoco, que desvela ignorância abissal sobre o tema, é caracterizar um governo como sendo comunista. O comunismo, como pensou Marx, é um estágio de organização social tão avançado – o estágio final do socialismo –, que não haveria a necessidade de governo para mediar as relações sociais, portanto, governo comunista é uma contradição, nunca houve nem nunca haverá. Pessoalmente, entendo o comunismo – assim como o anarquismo – como ideais utópicos para se alcançar sociedades integralmente justas, equilibradas e harmônicas. E, apesar de considerar como utopias, devemos tê-los como norteadores, a cada passo que damos em sua direção avançamos no caminho da paz social.

 

Há os que reproduzem a falácia, oriunda da mais intensa desonestidade intelectual, que é a de ligar as ideologias de esquerda aos ideais fascistas que se desenvolveram na Europa na primeira metade do século XX. Usam como argumento único o nome do partido liderado por Hitler – Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (NAZISTA) –, ignorando que comunistas e anarquistas foram veementemente perseguidos pelo nazismo alemão e o fascismo italiano. Ora, os que acreditam e reproduzem estas ideias forjadas nas obscuridades das redes sociais selariam e montariam um hippocampus, afinal, a espécie de peixe é conhecida popularmente como cavalo marinho.

 

A ditadura Vargas bem como a civil-militar instalada após o golpe de 64 perseguiram, prenderam, torturaram e mataram “comunistas”. E “comunistas” para eles eram todos aqueles que pensavam diferente deles e que questionavam suas ações, independente das ideologias que seguiam. Muitos foram “acusados” de comunistas sem serem de fato, foi o caso do presidente João Goulart.

No início do século XX, esta falaciosa retórica começou a ser forjada no país e, cem anos depois, em pleno século XXI, ainda há os que a reproduzem sem nenhum constrangimento. Demonizam Marx e suas ideias sem nunca terem lido seus argumentos. Apoiam-se em figuras intelectualmente desonestas, que se valem da trapaça, do logro, para construir carreiras e preservar privilégios, como Luiz Felipe Pondé, Marco Antonio Villa, Reinaldo Azevedo e outros, que não obteriam fama nem teriam espaço nas mídias hegemônicas se não corroborassem os sofismas que reforçam os apanágios das elites.

 

Atualmente, a estultice sobre o tema é tamanha que todas as pautas humanitárias, como a luta contra o racismo, homofobia, misoginia, xenofobia, etc. passam a ser vistas como sendo exclusivas às esquerdas e não são. Chegam a nomear o governo do PT como comunista, o que faz historiadores e cientistas sociais entrarem em convulsão profunda, mas isto é assunto para outro artigo. Usam o termo “comunista” como fora um xingamento. Ora, para quem congrega do ideal comunista, isto é uma lisonja.

 

É importante que as pessoas se instruam, se instrumentalizem para discutir com argumentos sobre ideologias políticas e sociais, e não com aversão e ódios. Só assim entenderiam que os ideais de esquerda trouxeram conquistas das quais a grande maioria desfruta, ainda que os caminhos a serem percorridos por quem luta por justiça social sejam longos e pedregosos. Mas é preciso conhecer que foram as lutas operárias e os movimentos sociais organizados que geraram pressão social e fizeram empresários e governo cederem aos poucos direitos que os trabalhadores gozam na atualidade. A conquista da CLT é produto de muita luta social.

 

Seria muito importante que as pessoas estivessem propensas a se educar. Isto demanda uma relação dialética, no entanto, muito preferem buscar apenas argumentos que reforçam suas ideias e posturas, ainda que sejam distorcidos e insustentáveis. Sempre digo que vivemos em tempos de profundo vazio conceitual. Por muito tempo, haverá uma horda de pessoas completamente ignorantes sobre ideologias políticas e sociais, que são alienadas e conduzidas pelos meios de comunicação hegemônicos e grupelhos obscurantistas das redes sociais (MBL, OCC, RoL etc.), e que não se furtam em ostentar a própria ignorância.  Chamo a isto de ignorância ostentação, pois não basta ser ignorante, há de se ostentar.

 

Para saber mais:

 

BAKUNIN Mikhail.O Sistema Capitalista. São Paulo: Faísca, 2007.

 

GOHN, Maria da Glória. Movimentos sociais e lutas sociais na História do Brasil. São Paulo: Loyola, 2001.

 

TRENTO Angelo. Do outro lado do Atlântico: um século de imigração italiana no Brasil. Studio Nobel, 1989.

 

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. O manifesto Comunista: http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/manifestocomunista.pdf

 

MARX, Karl. O 18 brumário: http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/manifestocomunista.pdf