1) O governo Temer, do ponto de vista formal, está absolutamente desmoralizado pela sucessão de erros, idas e vindas, pela insensibilidade, pela contradição (austeridade ao lado de concessões perdulárias aos apaniguados), pela desmontagem da estrutura de proteção social. A mentira desastrosa da última pesquisa publicada pela Folha e as definições do MPF e tribunais internacionais sobre a falta de fundamento jurídico para o impeachment de Dilma Rousseff alimentam a convicção de que se trata de uma articulação política de cúpula, sem legitimidade para governar o país;

2) Contudo, o campo institucional vive um mundo paralelo e prossegue em sua trajetória, não dando ouvidos a qualquer sinal de desmoralização em curso. Mesmo os partidos políticos, até mesmo os de esquerda, jogam suas fichas neste campo institucional esquizofrênico e comprometido com interesses privados até o pescoço. O que gera um silêncio na sociedade civil de dar medo em roteirista de filme de zumbis;

3) Um terceiro sinal não-convergente é a crise que já começa a se abater sobre a população trabalhadora e mais pobres. O custo da cesta básica e o desemprego já começam a gerar reações em filas de posto de saúde e de transporte público. Nada organizado e que se direcione a protestos mais enérgicos. Mas as reações de insatisfação – como se toda elite política fizesse o mesmo, ao final – já são bem visíveis;

4) Já no campo dos movimentos sociais e organizações populares, as articulações e novidades são intensas. Nós acabamos de divulgar a entrevista que fizemos com Francislei Henrique, presidente nacional da CUFA, que cita a proposta mais espetacular e inovadora do momento: a criação de um partido dos moradores de favelas por gente experimentada e que vive nas favelas do país (vale a pena ouvir a entrevista de Francis);

5) Assim, tudo parece conspirar para estarmos vivendo um momento de freio de arrumação. Os enfrentamentos ocorrerão em médio e longo prazos. Para o curto prazo, arriscaria dizer que os embates serão de demonstração ou acúmulo de forças, mas sem uma expectativa real de mudança no momento. O que prejudica o retorno de Dilma Rousseff, mas pode gerar obstáculos imensos para o bloco Temer/PSDB para o próximo período.

E tenho dito.