1. A maioria dos brasileiros possui valores conservadores, mas não é de direita

Recentemente, o Datafolha iniciou uma série histórica sobre valores e ideário político dos brasileiros. Se em 2014 os valores conservadores perpassavam a maioria da população brasileira (45% apresentando valores à direita), em 2017 os valores de esquerda abrangeram a maioria da população (10% de direita, 30% de centro-direita, 10% de esquerda, 31% de centro-esquerda e 20% de centro, ver http://datafolha.folha.uol.com.br/opiniaopublica/2017/07/1898056-ideias-afinadas-com-esquerda-voltam-a-empatar-com-pensamento-de-direita.shtml ).

A pesquisa Datafolha incorre em vários erros (em especial, definindo um espectro ideológico no que tange à economia absolutamente viciada e orientada para vincular a esquerda a toda e qualquer sugestão de ação estatal, distributiva ou que propõe justiça equitativa, algo que definiria a ONU e parte do Banco Mundial como organizações de esquerda), mas, sendo uma série histórica, revela a oscilação recente dos valores políticos dos brasileiros. Trata-se de uma nítida falta de convicção, tão instável como nossa economia e a permanência de nossos líderes políticos como legítimos representantes.

A despeito desta insustentável leveza do ser tupiniquim, o hiperindividualismo parece ter se espraiado por amplos segmentos populares, e os valores conservadores o acompanharam. Uma pesquisa realizada pelo IBOPE como fundamento de um ensaio elaborado por Amaury Souza e Bolívar Lamounier (ver “A Classe Média Brasileira”, Rio de Janeiro: Elsevier; Brasília: CNI; 2010) já indicava a emergência de certo egocentrismo da maioria dos brasileiros: a grande maioria afirmava só confiar na sua família, seguida por um índice baixíssimo dos que confiavam em seus amigos ou vizinhos. E nada mais. O consumismo, naquela quadra da vida brasileira aumentando a cada dia, estimulava a busca de sucesso individual. Mas, o mais importante, o brasileiro se revelava conservador, rejeitando mudanças bruscas, ações mais incisivas (como greves) e enaltecendo a ordem, a família e os hábitos mais tradicionais da vida nacional, como que fugindo de um cotidiano violento, cruel e excludente.

Outras pesquisas se seguiram, como a do Latinobarômetro (destaco a do ano passado) em que apenas 3% dos brasileiros afirmavam confiar nos próprios brasileiros (o pior índice de autoconfiança de toda América Latina), e a do Data Popular (analisada no livro “Um País Chamado Favela”, de 2014, escrito por Renato Meirelles e Celso Athayde), em que a população brasileira residente em favelas acreditava que a melhora de condições de vida ocorrida na década anterior teve como principais fatores o esforço pessoal, o apoio familiar e a ajuda divina (somando mais de 80% das respostas), escanteando qualquer fator coletiva ou de ação governamental.

O conservadorismo se alastrou com a inclusão pelo consumo, como valor comportamental. Na recente pesquisa Datafolha, 43% dos brasileiros se posicionaram pró-armamento e 58% sugeriram que “os sindicatos servem mais para fazer política do que defender os trabalhadores”, para citar duas opiniões importantes para a valorização de ideários mais coletivos e humanistas.

A série que inicio hoje procurará analisar os valores conservadores tal como sustentados por seus principais ideólogos, tendo como marco as proposições de Edmundo Burke. Minha intenção é sugerir uma análise mais apurada entre nós, distinguindo o que é pensamento conservador de pensamento reacionário. Tal confusão parece ter povoado as redes sociais. Valores comportamentais conservadores foram confundidos com valores políticos conservadores, e estes confundidos com valores reacionários, de direita ou fascistas.

  1. Conservadorismo emergiu contra a Revolução Francesa

Edmundo Burke é para os conservadores o que Marx é para a esquerda.

Burke foi filósofo e político, membro do parlamento londrino pelo Partido Whig. Defendeu a restrição dos poderes reais, introduziu novos conceitos constitucionais referentes aos partidos e seus respectivos membros, sugeriu legislações mais brandas em relação à América e foi crítico da administração inglesa na Índia e radical crítico da Revolução Francesa.

Burke tinha da Revolução Francesa – como Comte – a convicção de que ela simplesmente desejava demolir todas as instituições para erigir a perfeição humana.  No seu livro “O Conservadorismo”, Robert Nisbet destaca que o autor inglês sugeria que “a Revolução Francesa é o acontecimento mais espantoso que sucedeu no mundo até a data”. Aliás, Burke e Tocqueville distinguiam o idealismo da Revolução Francesa do pragmatismo da revolução norte-americana, criticando o papel dos intelectuais na condução do processo político (“homens de letras”, sem ligação com a sociedade).

Aqui reside um segundo elemento da teoria conservadora: a distinção entre idealismo (considerado negativo) com pensamento prático ou pragmático (considerado positivo).

Assim, o conhecimento prático é compreendido como aquele vivido, já o conhecimento teórico é considerado generalista, utopista e imaginativo (P. 61, no livro de Nisbet). O racionalismo se arroga a capacidade de dirigir diretamente o povo, afirmam os conservadores.

A Revolução Francesa dava o pano de fundo para colorir esta distinção. Segundo Nisbet, “Burke (também aqui secundado por Tocqueville) via a Revolução Francesa muito mais como uma luta pelo poder absoluto do que pela liberdade, principalmente obra de intelectuais políticos que não tinham, como tinham os dirigentes revolucionários americanos, ligação à sociedade, e eram, na verdade, inimigos da sociedade.” A liberdade que teria sentido seria aquela “ligada à ordem; que não só coexiste com a ordem e a virtude, mas também não pode existir sem elas. E, fazendo coro às teses de Hobbes: «o primeiro requisito de uma sociedade é que existam meios para reprimir as paixões dos homens. (…) É importante que «as tendências dos homens possam ser frequentemente contrariadas, a sua vontade controlada e as suas paixões subjugadas».

Daí nasce a crença na autoridade e tradições “testadas no tempo”. A autoridade da família seria sacrossanta, oriunda da vontade divina (a fonte da única soberania para os conservadores). Nem Estado, nem igreja têm o direito de transgredir as prerrogativas ligadas ao parentesco, segundo a teoria conservadora. E mais: o aumento do Estado – e de sua burocracia – implicaria na racionalização da vida social, debelaria as convicções e tradições da vida real.

Não lhe parece, leitor, um arrazoado muito próximo do que ouvimos nas ruas do Brasil? Algo que parece ecoar como o desprezo pelo rigor teórico e conceitual (quantos de nós já ouvimos, desde criança, que quem estuda muito tende a enlouquecer?) e enaltecimento da “escola da vida”, cantada em verso e prosa pelos empresários de plantão?

Esta é a “primeira tese” conservadora: o pensamento e a política válida são fundados no pensamento prático, testado pelos tempos.

Em seu livro “As ideias conservadoras”, João Pereira Coutinho sugere que o problema epistemológico central do racionalismo moderno é a defesa apaixonada de que o único tipo de conhecimento válido é o conhecimento técnico, ou o conhecimento de uma técnica, capaz de oferecer aos homens um grau de certeza (e de pureza) que o conhecimento prático (ou tradicional) não comporta.

A crítica, no caso, se dá pela subordinação da observação, da prudência e da experiência pelo jugo e diapasão do racionalismo do mundo moderno.

Afirma Coutinho que o ceticismo conservador não é uma forma de fatalismo – nem, a rigor, de pessimismo. Ao alertar para a imperfeição intelectual humana, a posição conservadora deve ser entendida como um apelo de quem relembra a segunda formulação de [filósofo John] Kekes: há consequências imprevistas (e imprevisíveis) que podem ser indesejadas (ou indesejáveis). (P. 39 do livro “As ideias conservadoras”).

Humildade e consciência da própria fraqueza. Esta é a tônica da crítica ao mundo moderno, totalizante, generalista e arrogante, para o pensamento conservador.

Aqui, um novo destaque: não há algo em comum com a crítica pós-moderna e dos identitários quando afirmam que as “grandes narrativas” seriam por demais arrogantes e autossuficientes? O conhecimento pragmático não teria correspondência com a valorização contemporânea das “pequenas narrativas” e o olhar antropológico como eixo da ação política?

No próximo artigo desta série, comentarei a “segunda tese” do pensamento conservador: a distinção do quem pregam do reacionarismo.