No artigo anterior desta série, destaquei a emergência do pensamento conservador no Brasil e iniciei a análise de alguns princípios do pensamento conservador clássico para traçar uma aproximação entre teoria e prática tupiniquim.

O ideário conservador brasileiro é, assim como quase todo ideário nacional, eclético. Assim como apontava os estudos do historiador Carlo Ginzburg sobre o sincretismo popular italiano (se o leitor desconhece, vale a pena ler um dos seus livros, “O Queijo e os Vermes”, que remete ao século XVI e nos remonta à história de Domenico Scandella, um moleiro que teve sua voz abafada e suas ideias reprimidas pela Igreja Católica Romana), no Brasil, o pensamento popular é um mosaico de princípios, frases, excertos de teorias e parábolas, criando uma bricolagem sem fim, uma rabiola de teses e crenças que se encadeiam de maneira pouco lógica e quase absoluta.

Neste segundo artigo da série, começarei tratando de uma segunda tese do pensamento clássico conservador: a rejeição ao reacionarismo. Se o conservador é radicalmente contrário ao pensamento revolucionário, também refuta com todas as forças o reacionarismo.

Esta tese é particularmente importante para nós porque cria um paralelo com a crença popular de que a ordem é sempre mais vantajosa que a reação enérgica ou mudança radical (tanto à esquerda, quanto à direita). O que faz do discurso radical à esquerda ou das ações de paneleiros ou patinhos amarelos, à direita, um vaticínio ao isolamento.

Vejamos de perto esta segunda tese do pensamento conservador.

  1. O Conservadorismo não é Reacionário

Lembremos que os conservadores partem do princípio da imperfeição humana. Portanto, toda pressa é inimiga da realidade. A pressa em atingir o absoluto e a perfeição é enganosa para esta linha de pensamento.

O autor João Pereira Coutinho sugere que o fato de o conservadorismo, pela sua natureza reativa e posicional (mais adiante, explicarei o que ele quer dizer com esta frase), não ser uma ideologia ideacional não significa que ele não seja também uma ideologia. O conservadorismo poderá ser assim apresentado como uma “ideologia de emergência”, porque emerge em face de uma ameaça específica de caráter radical. “Ameaça de caráter radical”… anote, leitor.

Coutinho vai além. A reação conservadora, longe de ser apenas uma expressão primitiva de medo e repúdio em face da inovação revolucionária (ou reacionária), será informada por certos princípios gerais que determinam o tipo de reação conservadora. Sendo reativo aos radicalismos, o conservadorismo reage com maior ou menor intensidade diante da ameaça à ordem.

A crítica conservadora, sustentam os cânones deste pensamento político, se opõe ao racionalismo, não à razão, entendido como uma subversão da razão. Em outras palavras, rejeita a “ambição desmedida de atribuir à razão a tarefa hercúlea de construir e reconstruir a sociedade humana de forma radical e perfeita” (COUTINHO, 2014, P. 35).

Resumidamente, o que os conservadores recriminam no pensamento moderno é o que denominam de arrogância do seu racionalismo, que procura determinar a condução de todos os assuntos humanos. Um declarado ceticismo em relação à possibilidade da perfeição ou acerto humanos.

Daí a desconfiança em relação ao Estado Moderno, que racionaliza a vida social, e ao processo de industrialização. A “desordem industrial” (tal como Nisbet a denomina) e a “fé na mecânica”, escreve Thomas Carlyle (historiador inglês do século XIX, condenou o liberalismo econômico e defendeu a volta ao passado medieval) “e na excessiva importância das coisas físicas é em todas as épocas o refúgio habitual da Fraqueza e do Descontentamento cego”. Em seu livro “Past and Present” (1843), Carlyle contrapõe a ordem medieval à “alastrante desorganização” provocada pela modernidade.

Pois, então, os conservadores defendem a paralisação do tempo?

João Pereira Coutinho ironiza tal possibilidade. Para este autor é risível a ideia de que os conservadores vivem agarrados às suas tradições. Segundo suas palavras:

“[O] conservador tem uma sensibilidade apurada (…) para situações de mudança repentina, em que a possiblidade de perda é maior. (…) só aqueles que nada estimam podem abraçar entusiasticamente a mudança. (…), mas será apenas por isso, por esse temor de perda, que os conservadores valorizam as tradições que sobreviveram aos diferentes testes do tempo? A resposta está contida na própria pergunta: sobreviveram aos testes do tempo. ” (COUTINHO, 2014, P. 57)

Os princípios que orientam o conservador seriam, então, antiguidade e duração. Não qualquer antiguidade, mas as tradições que resultaram de um ato consciente da criação humana, naturalmente. Aqui, vale destacar mais este conceito central nesta tradição política: a lógica da natureza como definidora da estabilidade e da provação, que seria garantia de uma vida melhor. Segundo Coutinho, “as tradições mais profundas foram emergindo naturalmente (…), foram sobrevivendo naturalmente porque sucessivas gerações encontraram nelas vantagens. (COUTINHO, P. 59).

A “vida melhor” – este juízo de valor vago e arbitrariamente definido pelos conservadores –  estaria plasmada nas tradições testadas pelo tempo.

Já prevendo a crítica à possível frieza em relação à desigualdade social, os conservadores fazem certo malabarismo discursivo. Sugerem quem não são insensíveis à “pobreza e exclusão que impedem muitos seres humanos de se beneficiar do patrimônio moral e institucional da sociedade”, porém, justamente por este motivo, rejeitam a destruição de tal patrimônio. Preservá-lo significaria, neste contorcionismo lógico, garantir às gerações vindouras partilharem uma casa, não uma ruína.

Na verdade, como veremos mais à frente, a defesa do neoliberalismo (no caso inglês, plasmado no governo Thatcher) causa certa celeuma entre conservadores.  Grande parte dos conservadores europeus não é contrária às reformas, desde que pontuais e corretivas da ordem. Assim, todas as mudanças ou reformas necessitam de tempo, algo que lembra as preocupações de Comte quando se descabelava com a instabilidade de sua França após a Revolução Francesa (aliás, a Revolução Francesa é um ícone negativo para os conservadores europeus). Embora afirmem que não possuem um programa propositivo, e afirmem que se trata de uma ideologia reativa, o que os distingue dos reacionários porque não querem mudanças bruscas.

Mais, os conservadores se assustam – ao contrário dos reacionários – com as multidões e sua tendência à horizontalidade. A rejeição se relaciona com certo elitismo implícito em seus princípios, mas não só. Se relaciona com a unificação pela massa, o pensamento monolítico indivisível, a ausência de individualidade. E, principalmente, com a lógica agressiva alimentada pelo ressentimento contra autoridades, sucessos pessoais e lógicas competitivas.

Aqui vale o destaque para compreendermos a distinção deste pensamento e ideário em relação aos fascismos. Peter Sloterdijk, em seu livro “O desprezo das massas”, chega a sugerir um binômio para desabonar as multidões: massa-ajuntamento. Segundo este autor, “conduzida por correntes de imitação e excitações epidêmicas (…) milhões (…) vivenciam a si mesmos como uma grandeza apta à reunião, na medida em que vão confluir num local que a todos acolhe, e nessa reunião maciça ganham uma enorme autoexperiência como coletivo requerente, exigente, usuário da palavra e que emana violência” (SLOTERDIJK, 2002, P. 19).

Num evidente arroubo antiautonomista (anti-Negri, portanto), Sloterdijk sustenta que estamos diante de um forte ressentimento do “individualismo de massas”, encontrado nas redes sociais dos dias atuais. Segundo o filósofo alemão, ícone do pensamento conservador europeu:

“A massa pós-moderna é massa sem potencial, uma soma de microanarquias e solidões que mal lembra o tempo em que – incitada e conscientizada pelos seus porta-vozes e secretários-gerais – deveria e queria fazer história como coletivo prenhe de expressão. (…) A massa vivencia a si própria somente em suas partículas, os indivíduos, que como partículas elementares de uma vilania invisível se entregam exatamente aos programas (…) as massas da mídia, sob a influência das mídias de massa, tornaram-se massas coloridas ou moleculares. ”  (SLOTERDIJK, 2002, P. 22 e 23)

O que sustenta é que as multidões contemporâneas, espraiadas pelas redes sociais, alimentam a autoadoração e tentam redimir a sua mediocridade.  Cita Thomas Mann, que, em setembro de 1939, diagnosticava os alemães como um povo que tinha passado a “venerar a ignorância e a rudeza”, como autorreconhecimento, numa espécie de “superego dos súditos” (P. 44).

Trata-se, segundo este autor, de um páthos autobiográfico: eles desenvolvem, também sem exceção, um afeto filantrópico, mais exatamente autofilantrópico. (P. 41).

Enfim, para o pensamento conservador, ao contrário dos fascismos e reacionarismos, a horizontalidade (ou rejeição à verticalização da vida social e política) é condenável. Mais: os tempos modernos – a modernidade sempre atacada como fonte de todos os males – desencadeariam uma sequência de revoltas de grupos, antes aparentemente desinteressados, contra o desprezo ou a não atenção. Os conservadores percebem nos movimentos das multidões uma tentativa desesperada e irracional de diferenciação, um movimento narcisista e egocêntrico em que a única diferenciação válida é a que tem origem na própria massa, que por sua vez é indiferenciada em suas “partículas homogêneas”.

Não há, de fato, correspondência com o mobilismo permanente dos fascismos, apoiados no ardor das massas contra o que consideram seu algoz.

O conservadorismo é elitista, fundado na tradição “testada pelo tempo”, na preservação da ordem (ou sua reforma parcial, para garantia da ordem), na hierarquia social (compreendida como parte da seleção e evolução natural da espécie) e na ácida crítica da modernidade.

No próximo e último artigo desta série, destacarei a lógica de mercado como base do conservadorismo (uma lógica natural da humanidade, segundo esta utopia) e retomarei os princípios clássicos desta linha de pensamento com o conservadorismo popular brasileiro que tomou forma em nosso país na última década.