De todos os temas polêmicos da nossa época, nenhum me parece mais difícil, intrincado e encardido que o do aborto. Quase dá vontade de decidir a questão jogando uma moedinha para o alto: se der cara, a favor; se der coroa, contra… Isso não me impede, no entanto, de ter algumas certezas sobre o assunto.

Certeza 1: Na discussão sobre o aborto, não faz a menor diferença saber se a mulher foi ou não foi estuprada. É irrelevante para a questão, uma vez que o modo como se dá a concepção de um novo ser não altera seu estatuto ontológico. Uma criança gerada via estupro não é mais nem menos humana que uma criança gerada por sexo consensual. Isso obriga o pró-vida a ser contra o aborto em todas as circunstâncias, exceto numa: quando houver risco de morte para a mãe, pois nesse caso troca-se uma vida por outra.

Certeza 2: Aborto, transplante de órgãos de quem teve morte cerebral, reprodução assistida e pesquisa com células-troco embrionárias são temas não só dependentes, mas casados, o que quer dizer o seguinte: quem é contra um, deve ser contra todos. A Igreja Católica não é contra todas essas práticas por acaso…

1º) Reprodução assistida: sabe-se como isto funciona. Promove-se artificialmente (fora do corpo da mulher) a união do espermatozoide com o óvulo. Depois que vários óvulos são fecundados dessa forma, alguns são implantados no útero da mulher, enquanto outros são congelados em soluções de nitrogênio líquido. Daí em diante, esse material excedente pode ter destinos diversos, a variar conforme a legislação de cada país. O descarte puro e simples desse zigoto não é tão freqüente quanto a sua destinação a pesquisas com células-tronco embrionárias. De todo modo, isso não faz muita diferença, pois tanto num caso como no outro ocorre a sua destruição. Bem, se você acha que o zigoto já é um ser humano e deve ter as mesmas garantias jurídicas de um, não tem como defender um procedimento que vai acarretar a sua morte, menos ainda se beneficiar dele. Às mulheres estéreis que querem ter filhos mas são contra o aborto, só resta uma opção: adotar. Se não o quiserem, devem renunciar ao sonho da maternidade.

2º) Pesquisas com células-tronco embrionárias: essas pesquisas costumam ser feitas com as sobras da reprodução assistida, ou seja, com aqueles óvulos excedentes que foram congelados. Só que tem o problema já mencionado: a manipulação desse material acarreta a sua destruição… Portanto, se um dia essas pesquisas trouxerem a cura para alguma doença degenerativa, os pró-vidas têm o dever moral de renunciar a esse benefício.

3º) Transplante de órgãos de quem teve morte cerebral. Esse procedimento se baseia na premissa de que, na ausência de atividade cerebral, o indivíduo deve ser considerado morto, ainda que os outros órgãos do seu corpo estejam funcionando. Isto poderia ser resumido assim: “sem cérebro, sem vida”. Ora, no terceiro mês de gestação, o feto ainda não possui um sistema nervoso formado… Logo… Você poderia argumentar que o feto está no caminho ascendente para a vida, enquanto o paciente com morte cerebral está no caminho descendente para a morte. É verdade, mas e daí? Digamos que um paciente com morte cerebral tenha somente mais 30 minutos de vida. Que direito tenho eu de abreviar a sua existência para retirar os órgãos do seu corpo? Abreviar a existência de alguém já não é a própria definição de assassinato? Se você ainda não entendeu, considere a questão por este ângulo. Não existe diferença significativa entre ter uma televisão em casa que não funciona e não ter uma televisão em casa. Nesse caso, qual a diferença entre não ter um cérebro (caso do feto) e ter um cérebro que não funcionará nunca mais (caso de quem teve morte cerebral)? Se podemos apressar a morte desse segundo, por que não podemos atentar contra a vida do primeiro? Certa vez, numa entrevista, o pastor Silas Malafaia resmungou que, na hora de aborto, vai-se cortando o feto em pedacinhos; primeiro, cortam-se as pernas, depois os braços e assim por diante. Mas, se você acha errado picotar um ser que nem cérebro tem, como você pode achar certo que um médico abra o corpo de um paciente que tem um cérebro, ainda que não funcione, que retire os órgãos do corpo dele e os transfira para o seu próprio corpo?

Certeza 3: Pró-vidas não acreditam realmente no que dizem. Não há um único deles que de fato acredite que o zigoto, o embrião ou mesmo o feto tenham o mesmo status que um ser humano já formado. Há três bons indícios disso:

1º) Pró-vidas fazem aborto. Costuma ser assim: quem quer abortar, aborta, independente de ser contra ou a favor. É por isso que o filósofo Luis Felipe Pondé, ao participar de um Roda Viva, declarou-se contrário ao aborto, mas logo em seguida ressalvou: “Eu não estou dizendo que jamais faria”… Lembro, a propósito, de uma namorada que tive há muito tempo. Quando a conheci, ela já tinha uma filha, fruto de um relacionamento anterior. Relacionamento não; na verdade, uma trepada furtiva, solitária, só não esquecível pelo que dela resultou… Ela era evangélica, a família inteira idem. Pra dar uma ideia do grau de comprometimento deles com a fé, basta dizer o seguinte: havia domingos em que eles – o pai, a mãe e as duas filhas – pegavam um avião aqui em Goiânia e iam para São Paulo assistir aos cultos do pastor Valdemiro Santiago. E, quando eu ia para a casa dela nos finais de semana, a TV ficava o tempo todo sintonizada no canal que transmitia os cultos deste filhote do Edir. Pois bem. A avó dessa minha ex, ao saber que a neta estava grávida de sete meses, perguntou: “por que você não me avisou antes? A gente teria dado um jeito…”

2º) Pró-vidas não conseguem tratar a mulher que faz aborto com a mesma severidade com a qual tratam um assassino. Alexandre Nardoni matou a filha e se tornou o inimigo público número um do Brasil. Hebe Camargo fez um aborto na juventude e era conhecida pela alcunha de “a rainha da TV brasileira”… O padre Marcelo Rossi não saía do programa dela. Eram amicíssimos. Quando ela morreu, foi ele quem se encarregou de oficiar as cerimônias fúnebres. Se perguntarmos ao padre Marcelo Rossi se ele vê alguma diferença ontológica entre um feto e uma criança, ele irá dizer que não, que ambos são seres humanos e que, portanto, devem ter a mesma proteção jurídica. Mas ele, que fez amizade com a Hebe Camargo, jamais aceitaria fazer amizade com o Nardoni ou qualquer assassino de crianças ou adultos. Então, sim, ele vê a diferença… Não só ele, claro. Todos na verdade veem a diferença. É por isso que o Guilherme de Pádua, que matou uma mulher adulta, é um assassino, mas a Marília Gabriela, que extirpou um feto do útero, é uma grande jornalista… Um pró-vida sente repugnância pelo que fez o primeiro, mas, se encontrasse na rua a segunda, pediria, entusiasmado, para tirar uma foto com ela.

3º) Pró-vidas não ousam levar suas premissas até as últimas consequências. Se você diz que o zigoto já é um ser humano e deve ser tratado como tal, deve-se concluir que a mulher que faz aborto é uma assassina. Sendo assassina, deve ser punida com prisão, certo? Bem, é isso o que a lógica exige. Mas aqui o pró-vida manda a lógica para as cucuias. Lembro de um documentário em que um repórter pergunta a pessoas que encontra na rua: “Você é contra ou a favor do aborto?” O interrogado responde: “Sou radicalmente contra”. O repórter insiste: “Você conhece alguém que já fez aborto?” Resposta: “Conheço várias”. Fatality: “E você acha que essas mulheres têm que ir pra cadeia?” Algumas das respostas: “Olha, tem que ver”, “Bem, eu não sei, é um caso a se pensar”, “Complicado, né”… Ora, caralho, tem que pensar o quê, tem que ver o quê? Se aborto é assassinato, a mulher que o pratica tem que ir para a cadeia e o homem que o favorece também. Acusação: cumplicidade com o “pior dos crimes”.

Certeza 4: Os argumentos dos defensores do aborto são todos muito frágeis. Menciono alguns:

1º) “Meu corpo, minhas regras.” O corpo que cresce dentro da mulher não é uma extensão do corpo dela. É uma vida, ainda que não independente nem autônoma, separada, individualizada, discernível. Você pode ter o direito de cortar fora sua orelha. Ninguém vai questioná-lo por isso (exceto talvez sua mãe). Mas daí para extirpar o zigoto, o feto ou o embrião vai uma distância enorme.

2º) “Aborto já é legal para as mulheres ricas, que podem pagar pra fazer um procedimento seguro. Já as mulheres pobres se submetem a procedimentos arriscados em clínicas de fundo de quintal.” A isso só podemos lembrar aquele ditado: “Você tem razão, mas é pouca, e a pouca que tem não vale nada”. Ora, na discussão sobre o aborto, só há uma coisa que é preciso saber: “o zigoto já é um ser humano ou não?” É a resposta para essa pergunta que deve nortear a decisão de conceder ou não ao zigoto os mesmo direitos de um ser humano já formado. A discussão sobre os privilégios de classe das mulheres ricas nem chega perto de tocar neste ponto.

3º) “Até o terceiro mês de gestação, o feto não tem um sistema nervoso formado. Logo não possui o que distingue os seres humanos dos outros animais, ou seja, a capacidade de produzir pensamentos.” Isso também pode ser verdade, mas de novo é uma verdade que não vale muita coisa. Se podemos matar um feto porque ele ainda não é um ser humano, por que não podemos matar um animal que nem sequer tem potencial para ser tornar humano? Se defendo o aborto, que autoridade tenho para condenar quem mata um desses cachorros fofinhos que vemos nos filmes? Alguém poderia argumentar que o feto, por não ter um sistema nervoso formado, não é capaz de sentir dor. Mas, se o problema todo é esse, eu poderia levar um cachorro saudável para ser eutanasiado sem dor num veterinário…

Certeza 5: Diante de tudo o que expus, só consigo tirar uma conclusão. A discussão sobre o aborto é apenas isto: uma disputa de quem não tem razão contra quem não tem caráter. Estultice contra hipocrisia. Tolice contra má-fé.