– E se for um do tipo psicológico? Duas ou três personagens, uma morte e o assassino debatendo consigo os motivos que o levaram ao crime.

– Trivial, muito trivial, folha. Você já deve ter recebido inúmeras histórias desse gênero. Digo…. Você, literalmente, não, porque, se assim fosse, não seria mais papel em branco. Mas como representante da espécie…

– Quando você se presta a explicar algo, parece o planeta Terra: fica girando, girando, sem sair do lugar. Seja mais objetivo, velho. Mais sucinto. Faça jus a essas barbas grisalhas

– Sim, claro! Meu bom senso grita pra que eu leve em consideração os conselhos de uma ex-árvore.

– O que você deve levar em consideração, nobre escritor, é uma equação muito simples: história que muita gente quer ler, sinônimo de visibilidade e fama. Pra que muita gente leia, você não pode mergulhar em assuntos complexos. Navegue à superfície, vai aonde o vento te levar.

– Obscenidade! Não há outra palavra que defina um autor que subestime a inteligência do leitor escrevendo o que este espera ler.

– Obsceno é pensar que você tenha apenas um livro publicado, com uma tiragem que beira o risível.

– Qualidade literária não se mede por exemplares vendidos, caríssima.

– Aposto que seu estômago vazio não compartilha desta convicção.

– Que conhecimento tem você pra falar de estômagos e afins? Limite-se ao seu papel!

– Escritores e suas frases de efeito! O que sei, companheiro letrado, é que estou nesta gaveta há muito tempo esperando pra ser preenchida. Agora que chegou a minha vez, deixe de lado esse idealismo de botequim e escreva uma história que valha a pena. Ah! Será que daqui a alguns séculos eu, o manuscrito original, serei venerado em museus parisienses ou londrinos?

– E um escritor faminto te proporcionará isso?

– Desde que siga minhas recomendações, evidentemente. Antes de chegar à sua escrivaninha, estive com grandes originais. “O alquimista” é um deles. Só de pensar que eu fecharia o romance me deixa amarelada, note! Paulo escreveu a última linha toda apertadinha, na folha que estava acima de mim.

– Sair da mesa do escritor mais vendido do Brasil e parar aqui?

– Coisas do destino, amigo erudito. Coisas do destino!

– Como isso aconteceu?

– Anos atrás, Paulo se mudou pra Suíça. Quando foram limpar o apartamento, jogaram o pacote no qual eu estava ao lado da lixeira. Foi onde você me encontrou.

– O trágico destino de uma folha de papel! Isso sim daria uma grande história.

– Com ironias deste tipo você não vai muito longe, contista. E se você não for, eu também não vou. Quero ser uma estória que entre pra história.

– Com trocadilhos fonéticos deste nível, você serviria muito bem ao ramo publicitário!

– Não temos tempo pra orientações vocacionais. Diga-me, no que você pensava antes que eu te interrompesse?

– Uma história de época. Itália, baixa Idade Média. Imagina que, num mosteiro beneditino, estranhas mortes começam a ocorrer e as vítimas aparecem com marcas pelo corpo. A resposta a estes crimes está na biblioteca que guarda grandes obras da humanidade, sacras e profanas. Eu poderia explorar a dicotomia ciência-religião; a santa inquisição; as transformações econômicas e políticas na transição da medievalidade para a modernidade…

– Ai, ai, ai! Quem, além de você, compraria um livro assim?

– Quem gosta de uma história consistente; quem gosta de enredos excitantes; quem gosta de personagens bem construídas.

– Você deveria dar uma olhada na lista dos mais vendidos. Pense em algo como “um mago que aconselha as pessoas a não desistirem dos seus sonhos” ou “um vampiro que se apaixona por uma mulher e o amor deles, durante toda a trama, é dificultado por inúmeros problemas, até que, na última página, eles se encontram, se beijam loucamente e juram amor eterno”.

– Não sou adepto dos contos fantásticos!

– Que tal, então, um factual que gire em torno de coisas do cotidiano humilde? Acompanhe: o pai de uma criança pequena é abandonado pela mulher, que o enxerga como fracassado. Ele, então, depois de muita luta, consegue um ótimo emprego e mostra que valeu a pena o sofrimento à procura da felicidade. Você pode explorar cada obstáculo superado; cada adversidade vencida pelo homem. Isso fisga o leitor pelo coração!

– As pessoas estão cansadas de ver histórias com este apelo no cinema e nos programas religiosos na madrugada da TV.

– Cansadas não estão, senão autores e produtores não insistiriam nesse nicho. E uma história de suspense, o que me diz? Uma menina de aproximadamente oito anos se perde na mata fechada. De repente, depara-se com u27ma cabana velha, abandonada. Curiosa, ela entra e…

– E encontra objetos que lhe parecem familiares? Já escreveram algo parecido, querida folha.

– Faz o seguinte, então: vai prestar um concurso público. Você daria um ótimo bancário; um assistente administrativo brilhante!

– Quero escrever algo grandioso. Não pros outros, mas pra mim.

– De qualquer forma, sua autobiografia está descartada.

– Ah…. Não necessariamente. Levando parte do seu sarcasmo a sério, imagine a história de um escritor e suas divagações perante a temível folha em branco; os subterfúgios que este homem usa pra chegar à grande ideia…

– Até que enfim, velhote.

– É sério que vocês vão se conformar com esse enredo Déjà Vu?

– Não escute esta caneta, escritor. Deita tinta!