A implacável educação para o mercado permeia nossas vidas. Desgostosos, zumbis, reféns, prisioneiros arrotando liberdade; a maioria sequer questiona seu papel. Ser consumidor crítico ou meramente consciente ainda é questão de pertencimento a tribos; pelo menos, enquanto nossas escolhas parecerem tolices voluntárias e as responsabilidades pelo caos socioambiental não forem apontadas diretamente. A falsa liberdade que reza “cada qual no seu tempo” trata urgência prática coletiva como reles entendimento teórico e opção individual. Obriga os que despertaram – comumente tratados por “radicais” a esperarem pelos que, talvez, jamais despertem… Fato é que, diante de prioridades convenientes, ganhos, vantagens, mesmo os de entendimento mais lentos entendem tudo rapidinho… Qual o ganho imediato de preservarmos para o futuro, não é?

O diálogo do homem com a natureza reproduz com poucas alterações sua relação com o meio urbano. O bicho gerador de passivos é passivo. Alheio aos rumos coletivos, alheio ao próprio poder, alheio à gestão política, alheio ao futuro; o cidadão – reduzido a estatística, consumidor do que produz e mantenedor dos caixas públicos  é um ente tão vulnerável e manipulável quanto a fauna, a flora, lá longe, na floresta. Não por acaso, o alheamento quanto ao ambiente natural ou urbano é justificado em nome de uma mesma urbanidade: sinônimo do padrão de desenvolvimento burguês carimbado em todo o planeta e verdadeiro responsável pelo atual quadro socioambiental.

Os donos da economia são os principais beneficiários dessa tragédia – não a sociedade. O controle da economia conduz à privatização do que resta de natureza preservada e dos recursos inerentes, mas socializa a quebra global da qualidade de vida e as conseqüências do crescimento infinito desta economia… Donos da bola e corporações não agem sozinhos. Alguém tem que endossar a barbárie em nome da sociedade, legalizá-la. Daí, nenhum Estado, seja de centro, direita, esquerda, de cima, baixo ou além, perde com a espiral consumista… É sabido que processos de consciência prejudicam as vendas. Então, o que sustenta a ambos, mercado e Estados, senão a indiferença bovina dos consumidores?

Pessoas ocupadas com a normalidade, diluídas em rotinas, às quais a alienação é imposta por entretenimento, raramente sabem que fazem parte de um modelo político; menos ainda, que são peças-chave do modelo econômico, como trabalhadores e consumidores. Sequer imaginam que são quem gira a roda. Cidadãos mesmo, só quando consomem, pagam impostos ou são chamados a endossar a farsa, democraticamente… Contanto que devolvam seus ganhos às corporações através do que consomem; de preferência, sem questionarem nada além de crédito; esses que jamais são instrumentalizados para raciocinar a partir de sua importância para a economia, de seu pertencimento à sociedade e ao meio ambiente; são considerados “pessoas de bem”. São obedientes, servis, pacatos. Esta é a massa excluída da compreensão de causas e interdependências, conformada e até entusiasmada com o “progresso”. Não é à toa que a imensa população global de reféns do mercado segue alheia, ao mesmo tempo, ao sistema políticoeconômico massacrante em que vive e ao monstro do momento: o “problema” ambiental generalizado.

Aprendemos a justificar a negação da natureza no meio urbano alegando noções e convenções de conforto, segurança, privilégios, saberes, razões. Principalmente, por uma visão de liberdade de mercado desconectada do equilíbrio natural e da produção autônoma de gêneros essenciais a partir de prioridades, acreditamos ser um privilégio fazer parte do sistema assim, como ele é… A lógica da escassez do mercado toma posse da natureza como se fosse garantida eterna fartura, e o urbanoide, alheio à natureza, reproduz os desperdícios na mesma tônica.

Antes da disseminação da cultura ecológica, a urbanidade, este imenso artifício, dispensava critérios de preservação. Ao contrário, a natureza era o problema, um estorvo mesmo, e estava disponível para domesticação, criação de alegorias simétricas e utilitárias, como se não prestasse serviço algum enquanto intacta. No passado, trabalhar e consumir o que bem entendêssemos significava liberdade. Destruir a natureza em nome do progresso era heroico, justo, nobre… Hoje, caminhamos para transformações cada vez menos voluntárias em nossos hábitos de vida e consumo. A adesão tardia do mundo institucional à luta para mitigar as Mudanças Climáticas deve trazer questionamentos importantes às nossas falsas liberdades, ao senso superlativo dos senhores do mercado quanto ao direito de produzir, vender e lucrar com o que bem entendem.

Apesar da urgência da mudança de paradigma, a consciência quanto às implicações ambientais do consumismo é mantida incipiente pelo próprio mercado. Enquanto a massa consome o que pode, e luta para consumir cada vez mais, e sonha com a falácia de “ser alguém” através do poder de compra, o mundo caminha a passos largos para a privatização na gestão de recursos naturais e o sucateamento dos mecanismos públicos de preservação. Não é infantil considerar isto um acaso, quando paira sobre a civilização a mensagem urgente de “salvar” a natureza?

Amamos a natureza, óbvio, mas perdemos a noção do que é natural. Amamos, mas não sabemos. Amamos, mas não sentimos. Perdemos, inclusive, a clareza do valor da natureza para a humanidade como um todo. Não é a natureza que precisamos salvar, mas a nós do capEtalismo… É da naturalização dos mais precários artifícios que precisamos salvar o mundo… Mesclamos à vida urbana nossos apegos selvagens, nossos vazios infantis e inseguranças, e acreditamos profundamente que é possível manter a imensa lista de privilégios, mimos, hábitos, manias, tradições como objetivo para toda a humanidade… O mercado jamais dirá que não cabem todos nesse sonho. E com a fadiga das grandes cidades empurrará, como privilégio e oportunidade, uma fuga para novos núcleos, ainda próximos à natureza. Próximos, mas só até que os mimos urbanos constituam novos balcões de negócios e o carimbo possa ser batido novamente com as mesmas tintas.

O sistema nos educa para entendermos que o meio ambiente é lá longe. É um não-lugar onde tudo é muito, muito agreste. Aprendemos desde bebês os porquês de preservarmos com empenho de alma toda a parafernália da urbanidade maçônica que nos protege do que dizem ser o maior dos males – o risco de sermos pobres subsistentes, de parecermos comuns e percebermos que, independente da urbanidade, somos vulneráveis, simples e óbvios. Aprendemos o medo de não sermos civilizados segundo o crivo de normalidade do mercado urbano… Eis o ponto em que é preciso deixar de lado o mimimi corporativo e falar em sustentabilidade de fato. Em algum ponto da história, civilização e consumo trançaram as pernas e engravidaram métodos de vida insustentáveis. Se hoje estamos de olho no termômetro global é porque negligenciamos os serviços prestados pela natureza e, apesar de todos os jogos patrimoniais, heranças, perpetuação de privilégios de classe e tantas coisas passadas de geração em geração, nunca pensamos verdadeiramente que nossas taras civilizatórias estariam roubando o futuro de nossos descendentes.

Sustentabilidade de fato é um questionamento crítico de hábitos. É uma questão urbana, antes de tudo, ainda que seja vendida ao senso comum como algo que se passa bem longe da rua de casa… É sobre nossos hábitos mais ínfimos, não sobre grandes obras. Sustentabilidade de fato é um papo afeito ao ralo das nossas pias, coletivamente. Não é, não pode ser apenas responsabilidade corporativa ou de poderes e governos dependentes do mesmo consumismo que nos trouxe até aqui. Não é causa privada. É a maior causa coletiva de nossa história!

Adequados, confortáveis, educados para irrealidades, desconectados de nossas próprias naturezas e prioridades; somos tratados como incapazes de entender o que está em jogo da sustentabilidade. Claro que não podemos ligar os pontos, por isso, os bem aparelhados e estabelecidos são incansáveis em dizer que é melhor deixar o assunto para quem entende. Porque somente raposas entendem de galinheiro, certo?

O que seria do mercado se compreendêssemos que é este modo de vida idealizado pelos estabelecidos que produz o desastre gasoso que assola o planeta e que afeta nossa qualidade de vida e a de nossos descendentes? Tomaríamos decisões radicais de não-consumo? Precisaríamos romper com as instituições, desvelar o óbvio e assassinar a normalidade materialista? Seríamos simples como gostaríamos de coração?

Como é difícil desacreditar do poder destrutivo do consumo e aceitar que cada compra sonhada, cada despesa suada, cada injeção de grana no sistema é um endosso à destruição da natureza e um incentivo à continuidade da produção capEtalista nos exatos modos que supomos combater em discurso…

Simples assim, para negar o óbvio, basta educar as pessoas para que entendam tudo separadamente. Consumo cá, devastação lá. E ninguém entre eles… Sinteticamente, é “ensinar” o povo a ver tudo como a água que vem pela torneira e vai pelo ralo. Nada antes, nada depois, só rotina.

Amamos a natureza. Mas não amamos a água em que defecamos? É isso? Amamos a natureza ou os falsos confortos urbanos? Que merda! Teremos mesmo que escolher? Teremos que mudar nossos planos abrindo mão do sonho conservador que herdamos?

Como admitir que o caos socioambiental é fruto deste modo de vida, de nosso alheamento e do meio ambiente urbano movido a normalidades impossíveis e para o lucro de tão poucos?

A cidade, assim como a conhecemos… O ambiente em que a maioria de nós vive o cotidiano, o ambiente próximo que cria todas as demandas cabíveis na tragédia ambiental global, é a menina dos olhos dos apegados, razão de ser de políticos, Estados, empreendedores e corporações…

A cidade como é e está  é indústria de produzir problemas socioambientais e vender soluções paliativas… Qual não será nossa revolta quando assimilarmos que o “problema” ambiental não está na floresta ou nos rios e oceanos?

As árvores que vemos derrubadas na televisão, os rios entubados para privatização, as terras erodidas para extração de minério, enfim, cada dano ambiental é praticado por encomenda. Os responsáveis pelo sucesso das grandes empresas sabem muito bem dos sonhos, confortos, mimos, manias e psicoses de privilégios dos urbanoides… Os ladrões de futuro sabem das indústrias e lojas que abastecerão, e sabem que alguém comprará o produto dos vegetais assassinados, da fauna exterminada e de tudo mais que estiver no solo e nas águas.

E que os marqueteiros não venham dissimular que é o consumidor passivo que compra o que é anunciado quem exige tudo isso!

O que chamamos de “problema” ambiental está no senso de prioridades difusas estabelecido pela elite do mercado, repisado e legalizado pelo Estado e sobre o qual a sociedade é privada de informações. Entre elas, informações objetivas que a conectem à origem do que se consume, à pegada, aos passivos sociais, às conseqüências socioeconômicas, biológicas e ambientais envolvidas…

Este a quem tratam por radical – gratíssimo pelo elogio! – disse no artigo anterior que voltaríamos a pé para as florestas se, por acaso, soubéssemos na íntegra dos ciclos de vida de cada produto que consumimos.

Não partimos ainda porque sabemos muito pouco a respeito. Mas radical sou eu. Radical é quem quer saber, não quem omite a informação, entende? Não existe capEtalismo sem negação do óbvio. Mas não basta…

É preciso tutelar cada etapa da educação para o mercado e criar uma realidade confiável; produtos e hábitos adesivos ao imaginário do trabalhador. Criar um punhado de informações confortáveis que perturbem o questionamento e a compreensão. Criar uma verdade de espuma para embriagar a psique do povo com falsos confortos e alegrias. Educar para o consumo e alienar pelo entretenimento. Reunir informações espaçosas e aparentemente importantes em rótulos, peças publicitárias ou mesmo nas abordagens de vendas diretas, sem jamais dar ao consumidor os elementos mínimos para que ele saiba o que está financiando de fato com sua compra… Sim, meus amigxs, comprar é dar dinheiro em troca de algo que tornamos nosso, mesmo que não aceitemos que somos responsáveis pelo que compramos. Esta é a lógica. Consumir aleatoriamente significa pagar para consumir o mundo aleatoriamente. Assim, usamos nosso dinheiro impresso com ícones da natureza para promover nossa própria extinção. Este é o jogo do mercado: lucrar com a natureza que é de todos e socializar o roubo do futuro! Sacou?

A informação sem critério, sempre ela, busca sócios inconscientes que paguem por todo o processo. Quem sabe, os mesmos que elegem os “muppets” da política. Os mesmos impotentes diante das notícias. Os sócios da pasmaceira urbana. Aqueles que nada sabem sobre a floresta distante, mas choram por ela sem atribuir a destruição às cidades. Aqueles que deliram com o entretenimento a que o mercado chama de cultura… Sócios ideais com o senso embotado do que não interessa, para pavimentar os caminhos do que, ao poder econômico, muito interessa!

Nas últimas décadas vimos crescer o falacioso capEtalismo verde. Algo que incautos acreditam ser uma correção de rumos do mercado e outros já entenderam a que vem… A tal “consciência ecológica” burguesa, excludente e privatista por definição, entupiu a internet e a mídia de uma forma muito superficial de ecologia. A ecologia comercial… Ao invés de propor mudanças de fato, a tal “consciência ecológica” cacarejada por cientistas em jalecos de corporações, por ambientalistas pintados da mais caricata cosmética rebelde, ativistas venais, ongueiros piratas e até gangsteres imobiliários, todos de estatísticas em punho, propõe apenas uma mudança de produtos… O mercado verde cresceu e permanece como uma verdade maior que a ecologia de fato, verdade insustentável focada, não na “salvação” do planeta ou na mudança nos modos de produção e consumo, mas na apropriação da pauta ambiental pelo próprio mercado.

Não por acaso, corporações, marqueteiros, publicitários e a politicalha também adotam a verborreia verde há décadas, e hoje até camelôs e catadores de resíduos já foram fagocitados pela agradável ideia de ganhar dinheiro com a tragédia planetária… Empreendedores – tenho os dois pés atrás com a palavra – de todo tipo, incluindo os preocupados em justificar lucros com boas intenções, vêm criando suas nano, mini, midi e maxi corporações enxergando oportunidades nas palavras de ordem dos movimentos sociais e ambientalistas… Como é fácil vender para reféns adestrados, para gente sempre pronta a uma carochinha, sempre pronta a passear de mãos dadas com conveniências narcísicas…

Ecologia virou um tremendo gancho de vendas. Salvar o mundo vendendo de tudo, mas sem jamais perguntar: Salvar de quem?

Poderia passar horas questionando o mercado verde e até essas criaturas de egos bizarros, os empreendedores. Mas vou poupar-nos da dose de Plasil e voltar aos reféns do entretenimento; àquela parte do debate em que, invez de sofrermos passivamente com a tragédia da natureza, deveríamos entender em definitivo que há uma farsa como interface das tragédias; e sua essência é lucrar com urbanoides alienados gerando passivos e pautando a “nova” economia pela queima menos visível de combustíveis fósseis – até mesmo trocando o modal energético dos motores – sem pretensão alguma de abrir espaço para o novo de fato. Muda o motor, o carro é o mesmo. O novo, o sustentável de fato, a experiência de mundo novo, a mudança a partir do consumo, as alternativas não-institucionais são tidos como papos de radicais, lembre-se.

Entre ciência, politicalha, mídia e mercado estamos soterrados por mentiras ecológicas vindas de toda parte. Informação sem critério, dispersão, dissimulação virando conteúdo de entretenimento, signo de normalidade, sonegando causas reais…

As atuais fórmulas de educação ambiental para o mercado, as “consciências ecológicas” midiotizadas, tratadas como parte da alienação de massas, dirigidas ao consumo verde, distanciam ainda mais as pessoas da questão crucial… Pela televisão e pela internet, milhares de receitas “naturais” baseadas em produtos industriais e outras bizarrices aparentemente desintoxicadas estão sendo esparramadas por aí pelas próprias indústrias… A credibilidade de pesquisas científicas é golpeada diariamente por pesquisas dos próprios interessados no mercado… A pretensão de educação ambiental também foi incorporada pela publicidade; os marqueteiros sabem da força deste apelo e tomam posse das mentes dispersando possibilidades de questionamento… A mídia investe pesado em reportagens sobre a natureza remanescente, culpabiliza a sociedade pelo caos urbano, induz a mais consumo verde, pauta cotidianos, dietas, novas modas e manias… No cinema, nas animações, nos games, nos vídeos, enfim, não faltam produções onde tudo aponta a sensibilização à degradação ambiental. Mas por que tão poucos gênios dessas artes mostram o consumismo inconseqüente como causa da degradação?

Os presidiários da normalidade são diuturnamente bitolados no combate a qualquer alternativa de mudança prática. Basta saber que há um problema, que é um problema distante, que “é o progresso”, que “é assim mesmo” e que somos muito pequenos para deter o processo! Dizem que não adianta… Além do mais, quanta gente depende da indústria do desenvolvimento insustentável para viver? É preciso jogar pelas regras do jogo, dizem os obedientesE vale aqui respirar fundo e dizer com os olhos fixos nos olhos dos palanqueiros: quem melhor tem personificado a retórica da impotência diante do desenvolvimentismo, na mais genuína hipocrisia, são nossos políticos com seus discursos de geração de riqueza, oportunidades de mercado e outras quimeras que só fazem repetir experiências com prazo de validade vencido do velho paradigma, ora meritocrático, ora assistencialista, ora ambos… Quando começa o papinho de que é o consumismo que gera empregos na boca de gente que fala em “nova política” e groselhas assim, a gente já sabe: alguém quer manter a ilusão de que o sistema promove justiça social e preservação ambiental inferindo possibilidades de ascensão social farta e alguma doçura possível nas relações entre classes. Podemos rir, não?

Pregar o combate ao consumismo é tido como subversão. Ser simples é subversão. Não desejar, não precisar, não comprar, questionar a banalização do sexo e a obsolência da reprodução por atacado e o próprio conceito tradicional de família são pecados mortais para a economia vigente. Também por isso é preciso combater os radicais e livres pensadores. É preciso calar ativistas independentes, corromper credibilidades, estigmatizar alternativos… É preciso fomentar um ativismo de escoteiros mansos, crentes nas instituições, gnomos sorridentes e bem educados, entusiastas do mercado verde, dóceis à normalidade, solícitos ao olhar conservador. Que ótimo negócio apontar a natureza como vítima, mas não ser envolvido como parte do problema ou da solução!

Não bastasse a educação para o mercado em todas as entrelinhas, cabe destacar que, apesar da corrida pelas especialidades do novo mercado – “viva as sustentabilidades!” –, quem lida com educação socioambiental sabe que não faltam iludidos mergulhando raso, muito raso. Especialistas em licenciamentos, especialistas em consultoria para burla de leis ambientais, aprovadores de projetos, especialistas em pintar muros de verde, especialistas em mascarar produtos nocivos em embalagens naturebas, e por aí vai… Entre idealistas infantilizados, românticos em busca do enquadramento perfeito, não faltam os propositalmente alheios à produção industrial de desnaturezas. Não faltam os que supõem educar para a sustentabilidade distraindo a audiência em nome do amor ao planeta, sem jamais falar em consumo, sistema, capEtalismo ou mercado… E que NÃO me desculpem os bem intencionados, mas propor educação ambiental a partir da clássica germinação de feijões em potes de iogurte, performances com fantasias de bichinhos feitas de espuma e isopor e alegorias de resíduos pintados com pigmentos tóxicos do mercado sem abordar a tamanha encrenca em que estamos metidos no âmbito das mudanças climáticas ; é praticamente lutar pela alienação!

Na esteira das boas intenções paliativas, a ênfase na outrora panaceia da reciclagem ou a apropriação da gestão de resíduos pelo mercado – não o consumo crítico ou o não-consumo; não o óbvio “repensar, recusar, reduzir, reutilizar” – é, hoje, a prova de que processos de conscientização que contestem os aspectos ideológicos da educação ambiental tradicional não são bem-vindos!

A reciclagem é, infelizmente, dependente do consumo, pois não?

[Por favor, ponderemos que não está em questão se reciclar é obviamente bom. O que está posto é que muito pode ser feito e não é antes de torrarmos cérebro, energia e recursos remendando a inconseqüência das indústrias e apoiando a conivência do Estado, este fantoche incapaz de colocar em prática políticas públicas focadas em logística reversa pra valer, responsabilizando as corporações, rótulo por rótulo, logomarca por logomarca, pelos resíduos produzidos!]

Radical pensar assim? É mesmo?… Só quem sabe que conforto interno é algo mais que um bonito estofado na sala pode compreender como vale a pena levar questionamentos além quando a pauta é o enfrentamento com ladrões de futuro.

Infelizmente, a informação de fato está restrita a poucos, e os que ejaculam a verdade na cara do mercado são apontados como radicais!

Propor acrescimento, redução de consumo é papo de radicais? Tentar viver sem produzir resíduos parece radical? Mudar sua alimentação ou negar-se a comprar produtos embalados é radical? Não ser consumista, desapegar-se ou abandonar a normalidade é radicalismo? Questionar sua própria pegada é radical?

E o que a ciência diz sobre as Mudanças Climáticas, não pede atitudes menos mornas, mais radicais?

A fissura de lucro dos “empreendedores” escondidos atrás dos sofismas do próprio marqueting, nada tem de radical? A competição doentia não é radical? Corporações que omitem, dolosa e deliberadamente, informações sobre seus produtos, não são radicais? A publicidade, a mídia, as máfias institucionais tão ativas na imposição de métodos de vida, padrões e níveis de consumo, e todo o pacote da normalidade não são radicais? E a mídia venal que imbeciliza a sociedade, não é radical? Fazer reféns de hábitos de consumo – incluindo medicalização, por exemplo, e chamar a isso de cidadania, não é radical?

Sério que você acha radical pensar numa ruptura cultural, moral, estética diante da gravidade do quadro global e não acha radical, por exemplo, que a gestão pública venal esteja sempre de quatro para a construção civil, especulando em nome da sociedade, repetindo o carimbo civilizatório insustentável, licenciando desmatamentos por atacado, gerando ruído, trânsito, resíduos, reféns, misérias de toda sorte?

Enquanto a realidade climática estoura no quintal e os bem educados pelo mercado combatem os radicais livres e demais alternativos com mesmice, sorrisos comerciais, neoliberalismo, industrialismo de esquerda e de direita e cosmética ambiental; que tal cada um pensar por si mesmo, questionar o seu papel e, principalmente, o seu investimento em tempo de vida, energia, trabalho, grana em um sistema econômico com nome e endereço, que mostra a natureza como vítima e culpa genericamente o “ser humano” pelos desastres a partir do qual lucra?

Em tempo: Pelas frestas deste cárcere consumista, para além de tudo o que está posto, divido com você uma pergunta que me aflige:

O que pode ser da tal civilização e da natureza a que tanto amamos com o crescimento irrestrito e eterno da economia atrelado ao olhar teocrático sobre a prosperidade individual e a gestão de um questionável deus – ou seu pretenso gerente no planeta sobre as Mudanças Climáticas?