A incidência de automutilação é maior na época do Natal, fim de ano e aniversários, quando há exigências de alegria e convívio social. Diante da obrigatoriedade de paz, os autoagressores agem silenciosamente. A dor de um objeto cortando a própria carne ou os dentes rasgando partes do corpo dói menos do que a angústia.

O Ministério da Saúde apontou que em 2013 a automutilação ocupava a 20ª posição de causa de morte no Brasil. De lá pra cá a quantidade de autolesivos aumentou ou ficou evidenciada. Em 2016, consideram que 20% dos adolescentes no país e no mundo convivem com essa doença, interligada à internet, nessa faixa etária.

São crimes contra a ecologia interna e a certeza de que, não se pretendendo um suicídio, o corpo jovem vai aguentar mutilações por muito tempo. Porém, não há área física que resista a tantos poderes bélicos contra si mesmo.

Simbolicamente, Gilberto Gil (via I Ching) traduziu essa luta interna na canção Você e Você:

“Você num canto
Apanha tanto
Enquanto o outro você
Bate demais
Deus do céu
Quanto sangue pelo chão
Seu irmão
Pede o seu perdão”

Em adultos e idosos é uma dor com outras intensidades e motivos. A sociedade é imperativa e determina a busca de muitos plurais para ser feliz ou simplesmente se manter saudável. Dessa cobrança vem aquela coisa que não chora e não ri, mas a bomba explode. O corpo ferido sai da guerra com camisas e calças compridas para esconder as mutilações.

A autogressão masculina é geralmente originária das causas sociais. Se os saltos na vida não aconteceram ou prevaleceram as quedas, o corpo paga por isso. O Brasil de hoje cortou novamente raízes profundas de esperança. Emoções devastadas que levarão décadas para reflorestar. O corpo penitente, repleto de rugas nos sentimentos, não tem paciência de esperar. Perdem-se até desejos instintivos e culturais, já que o pau-brasil já foi castrado demais e o prazer se tornou uma espécie em extinção.

Em qualquer idade e no mundo todo, estatísticas revelam que as mulheres se automutilam mais, talvez por não extravasarem a dor em brigas interpessoais e em acidentes de trânsito. As raízes femininas são mais afetivas. A vida pouco a pouco despoeta o amor. O mundo tanto e tanto desfolha belezas e um vendaval insiste levar o que havia de flor. E assim, respira-se menos o amor, aspira-se menos o amor. Por tantas desconfluências na vida, os rios secam por excesso de lágrimas.

Independente da quantidade de Deus, essa doença atinge pessoas verdes, maduras ou podres de valores espirituais. Os voluntários de crimes ambientais internos recorrem também a agressões subjetivas: mágoas, raivas e outras úlceras do dia a dia. Na busca por ajuda, encontram pessoas indicam razões. Uns dão conselho, outros mostram o espelho quebrado do mutilado.

Sozinhos e sós num mundo à parte, eles mesmos se acusam e se defendem: “Que Deus e outros fiscais da natureza me poupem julgamentos e multas emocionais. Quanto mais me devasto, mais me refloresto. Quanto mais destruo, mais sou um antidestruidor.”