Ao taxista pouco-falante que costuma me conduzir, em idas apressadas, à cidade (moro em Lauzane Paulista, zona norte de São Paulo), costumo mostrar extratos da rala sabedoria que juntei nesses mais de cinquenta anos de convívio com os homens, mulheres, crianças e bichos, sobretudo os cachorros, que, para nossa sorte, existem também para nos aplacar a tendência em desistir de ser feliz.

– Isso mesmo, ser feliz é o que importa, mas com os meios corretos, que não estreitem a felicidade dos demais..

Ah, os cachorros, perros, dogs, estão sempre atentos, para ensinar aos homens, com notável paciência, como se administra uma boa vida, sem muito esforço nem prejuízo alheio.

Conheço, porém, alguns cachorros que foram muito infelizes, souberam do frio, da fome,  viram-se solitários ante o desamparo, a indiferença pela sua canina sorte e encararam as ruas como túneis abarrotados de sofrimento que deviam atravessar até outro lado do mundo, sem   possibilidade de regresso. Algo pavoroso para alguns desses  bichos que – isto sim é milagre – se safaram da desgraça pelo ato carinhoso de um humano em momento de inspiração e maré de bons sentimentos.

Resgatar um cachorro solitário às voltas com a fome, o frio e o seu nulo futuro pode ser o primeiro passo de salvação para um homem, sobretudo quando já se encontra avançado na via da esperteza em detrimento do outro, ganho fácil a todo custo e indiferença para com os demais. Homem nesse estado, se consegue se interessar por um cão em desgraça, certamente poderá chegar a ter interesse pela sorte de um outro homem, concorda? Há pelo menos uma brecha para que chegue à prática da solidariedade, talvez ir mais longe… Que acha?

Meu taxista amigo mirou-me, espantado, mas eu segui:

– Dizem que os cães estão junto do homem há uns 15 mil anos, tempo suficiente para aprender bastante sobre nós, nossas carências e esquisitices. E eles não perderam tempo. Na minha rua, por exemplo, mora um cão, de cara esperta, topete bem tosado e um laço amarelo que a dona põe sobre a pelugem parda de seu pescoço. Um cão muito dândi… Quase toda vez que passo diante de seu portão, late brevemente pedindo o costumeiro afago. Púpi, seu nome. Ele late, eu o afago. Sucede, porém, às vezes, que eu o chamo e ele se mantém, mesmo me fitando, estirado  no chão, em tranquila indiferença,  provavelmente amarrado às suas numerosas emoções e lembranças. Naquele instante – veja você –, o Púpi me parece dizer que nada tem a ver com a minha humana pessoa; naquele instante, meu afago e atenção nada acrescem aos sentimentos do Púpi, o que me leva a meditar sobre a presunção humana, nossa mania de concluir que somos sempre importantes, com o que escolhemos, na vida dos outros e no movimento da velha rotação da terra.

Não somos não.

O amigo taxista:

– Perda de tempo pensar tudo isso…

Não se conteve, porém:

 – Não gosto de cachorro. Uma vez tive um…

                                —

Desci do táxi, feliz. O taxista sabia de cães; não escapara de ter um. Quem sabe, após meu breve discorrer sobre  esses tão amáveis bichos, fosse procurar, em um canto da memória, o seu antigo cachorro, para um  breve, mas  comovido afago… Tudo é possível.

                                                 —

Então, enquanto ele se afastava, acenando do seu veículo, aceitei, sem me irritar, a lambida poeirenta e morna da rua na minha cara…