Éramos apenas um fio na complexa trama do tecido chamado natureza. Éramos apenas uma célula deste magnífico organismo. Vivíamos em harmonia com o todo. Caçávamos, coletávamos e plantávamos somente para nosso sustento.

Eis que um dia criamos deuses e inventamos as cidades. E atribuímos a um destes deuses ter criado o mundo em sete dias e depois as pessoas, à sua imagem e semelhança.  E que a natureza nos foi dada para nosso usufruto. Assim, brotou nossa arrogância e prepotência. Não éramos mais apenas um fio na complexa trama do tecido. Não éramos mais apenas uma célula do magnífico organismo. Éramos a imagem e semelhança daquele que o teceu. Ou concebeu.

Forjamos a dicotomia: nós – seres providos de inteligência – de um lado, a natureza de outro. Passamos a tentar dominá-la, e cremos piamente que obtivemos sucesso neste intento. Tornamo-nos seres grandemente iludidos.  Passamos a explorar a natureza, a sangrá-la avidamente. Inventamos mentiras sobre riquezas e cremos incondicionalmente nelas. Concebemos armas e fizemos guerras para conquistá-la.

Multiplicamos as cidades e nos concentramos nelas. Tornamo-nos seres fundamentalmente urbanos. Distanciamo-nos do nosso âmago, perdemos nossa essência. Forjamos conceitos distorcidos de progresso e desenvolvimento, que invariavelmente destroem a natureza. E qual o problema, já que pensamos não mais pertencermos a ela?

Transformamos a natureza em produtos: o produto cimento, o produto tijolo, com que se faz o produto casa; o produto fio, com que se faz o produto tecido e o produto roupa; o produto farinha, com que se faz o produto pão, macarrão, bolo, torta e muitos outros; o produto mobiliário; o produto carro; o produto joia; o produto eletrodoméstico; o produto computador; tudo se tornou produto. A consumimos predatoriamente para transformá-la.

O produto foi e é nossa grande riqueza. É em função dele que passamos a viver. Derrubamos árvores, poluímos rios e mares, derruímos montanhas para extrairmos seus minerais, matamos animais e tiramos suas peles, compramos e vendemos tudo. Tudo tem seu valor estimado monetariamente, até a vida.

Há os que se orgulham ao dizerem que são seres meramente urbanos. Urbanoides. Adoecemos. Adoecemos gravemente. Perdemos nossa conexão essencial. Esquecemos quem somos e de onde viemos. Nossos ambientes fabricados são contaminados e não notamos. Iludimo-nos que estes ambientes construídos são nossos elementos essenciais. É do afastamento de nossa gênese que germinam as melancolias, depressões, pânicos, esquizofrenias e outras doenças do espírito, mas não nos atentamos a isso.

Destruímos nosso ambiente original. Destruímo-nos uns aos outros. Perdemo-nos em nossas enormes prepotência, arrogância e desmedida ganância. Enganamo-nos que sempre estamos no controle. Hoje, consumimos e solapamos a natureza numa velocidade maior que ela tem de se recuperar.

Se mantivermos nossa avidez atual, em 2030 a natureza estará completamente saturada. Pode ser que neste caso extremo acordemos, mas será tarde. Descobriremos que dinheiro não se come. Tardiamente despertaremos para a realidade: somos o fio roto do tecido, a célula cancerosa do magnífico organismo. É bastante possível que sejamos uma espécie em extinção.

Então, pelas frestas do concreto e asfalto, onde um dia viveram pessoas, novas sementes germinarão. Em algumas décadas a paisagem se transformará: árvores espalharão suas raízes quebrando o cimento e o piche. Em séculos, onde fora uma megalópole se formará uma floresta. Animais virão. Ecossistemas equilibrados se estabelecerão e aos poucos apagarão as marcas de nossa parca existência.

A natureza provará que inteligência é um caráter intrínseco a ela, pois sempre revive, sempre reviverá.  O que nós denominamos inteligência – a nossa – não passa de uma combinação empolada e fatal de arrogância, prepotência e ganância. Assim será!