Ainda mais novo e mais breve conto de amor de casal fofo – branquinho, cheiroso, hetero e temente a Deus – de paulistanos de bem.

Primeiro ato – Durante viagem a Nova York:

– Porra, Môrr, aqui tem arte pra todo lado, meu!
– Ahhhh Benhê, Níu York é Níu York, né? Aqui arte é como comida pras pessoas! Vai muuuuito além dos museus! Você viu que grafites maravilhosos no Chelsea? Coloridos, lindos, cheios de significado!
– Demais mesmo! E aposto que aqui o governo estimula os artistas de rua, dando espaços pra eles mostrarem seus talentos…
– Claro que sim, primeiro mundo, né? Grafiteiro aqui é artista! Tem até aquele famoso, com nome francês, como é mesmo?
– Basquiat!
– Uhuh, Benhê, você é tão culto! Sabe, aqui esses grafites vão durar é pra sempre, nossos filhos poderão visitar tudo do jeitinho que a gente tá vendo agora!
– Nossos filhos, Môrr?? Ahhh, você é tão romântica… já te disse hoje que te amo?
– Não…
– Então digo agora mesmo: te amo!

Segundo ato – De volta a Sampa, Môrr e Benhê estão retornando da casa de amigos pela avenida 23 de maio:

– Nossa, Môrr, olha só que beleza que nosso novo prefeito tá fazendo! Apagou todo aquele lixo, aquelas pichações horrorosas que poluíam a vista!
– Pois fez muito bem!
– E ainda tem um bando de esquerdopatas que reclamam do Dória! O cara quer deixar nossa cidade com uma cara melhor, mais primeiro mundo, mas essa gente não entende! Só querem saber de proteger pichador maconheiro e vagabundo!
– É o fim, né, Benhê? Revoltante! Esses comunistas alienados só querem atrapalhar nossa vida!
– Ah, Môrr se fosse nos Estados Unidos…
– Nem me fale… que saudade de Níu York! Um banho de cultura aquilo!
– Pois ano que vem a gente volta lá pra oxigenar o cérebro e matar essa saudade de primeiro mundo, o que acha?
– Vou dar graças a Deus! Já te disse hoie que te amo?
– Não, Môrr, não disse…
– Então digo agora mesmo: te amo!

E viveram num apertado apartamento em Moema, empanadinhos para sempre.