“Estou há alguns dias tentando encontrar as palavras de que preciso para escrever sobre o Jean Wyllys, mas, já que elas não vieram, vou tentar ser objetivo.

Desde 2011, mais ou menos, que acompanho, à distância, as muitas batalhas públicas que Jean Wyllys enfrentou; o seu projeto de ajudar a transformar um país tão desigual e tão perverso em um lugar de acolhimento, de pertencimento, de igualdade, de tolerância e de justiça me encantou desde que comecei a prestar atenção em sua atuação parlamentar.

Quando comecei a publicar textos, pelos idos de 2012, não foram poucos os meus artigos e crônicas inspirados pelas suas causas e pela sua atuação parlamentar. Além disso, o deputado sempre arrumava um tempinho para lê-los e, generosamente, divulgá-los. Se hoje ainda escrevo, não é exagero dizer que é porque, em um momento especialmente crucial, tive o incentivo de pessoas como ele.

Segui acompanhando as ações do deputado, a enxurrada cada vez mais caudalosa de mentiras torpes, patéticas, articuladas por seus adversários contra ele. Acompanhei os embates duros na Câmara e nas redes, a maneira raivosa e debochada como pessoas próximas a mim, pessoas da minha família, se referiam a ele, sem que motivo algum existisse para tal.

Minto, motivos existiam, motivos a princípio inconfessáveis, mas que eram sim expostos sem muita dificuldade na primeira ou segunda oportunidade que se lhes afigurava. Ele lhes parecia “gay demais”, o odiavam por ter se tornado uma personalidade pública em um programa de TV, não suportavam que ele, homossexual, baiano, de origem pobre, tivesse chegado aonde chegou.

O tempo passou e, malgrado eu tenha descoberto algumas discordâncias pontuais com a linha de atuação do Jean, minha admiração por ele permaneceu intocada. Via e vejo em seu mandato um projeto civilizatório de país, um projeto generoso, igualitário e humano, o que, meus amigos, é essencial para este momento.

Quando, em março deste ano, fui trabalhar para a bancada do PSOL na Câmara dos Deputados com o decisivo apoio de Jean, percebi aspectos da personalidade do deputado que fizeram com que eu me admirasse dele ainda mais.

Conheci um trabalhador incansável, que exerce a função de parlamentar até nas horas em que, para o bem de sua saúde, deveria estar descansando. Conheci um homem perfeccionista, que trata o seu ofício com o esmero de um bom artesão: seus relatórios e projetos de lei são sempre informativos, primorosos, bem escritos, excelentes. Conheci um cara sensível, que sofre e se indigna de verdade com cada estocada que seus colegas na Câmara dão nos direitos da população. Conheci um homem que, além de exercer uma atividade especialmente delicada e difícil, é obrigado a lidar, cotidianamente, com provocações reiteradas e violentas de seus pares. Conheci, enfim, um homem bom. Um cara ainda jovem, com boa formação acadêmica e intelectual, que não precisava estar ali, naquele antro, mas está e está cumprindo o seu papel com rara dedicação, com excelência.

Jean, o “muito gay”, o “ex-BBB”, defende os seus direitos com muito mais empenho do que a legião de pastores, de rotarianos, de senhoras de Santana, de vetustos senhores de anéis de rubi, de fazendeiros de voz grave e sangue nas mãos e nos olhos e de caricaturas de cabelo acaju que habitam a Casa do Povo.

Essas figuras cinzentas, pequenas, inexplicáveis, que hoje pedem a suspensão do mandato de Jean por quatro meses são as mesmas que congelaram os investimentos em serviços públicos no Brasil por 20 anos, as mesmas que querem que você morra sem ver a cor da sua aposentadoria.

De que lado você está?”