Em tempos de águas privatizadas em nome da seca, alimentos envenenados em nome da fome, educação e saúde sonegadas em nome de ajustes, expropriação de recursos coletivos, diáspora étnica e genocídio, medicamentos e procedimentos repletos de efeitos colaterais em nome de saúde, miserabilização e violência policial seletivas, ruptura democrática, legislação ambiental sucateada em nome do crescimento econômico infinito, negligência na investigação e penalização de desastres ambientais, desmatamentos a toque de caixa, corrupção sistêmica, precarização de mananciais, mercado faturando alto com os próprios males e outros tantos bichos – O que é ser oposição?

Reli e recomendo uma entrevista de Frei Betto à Revista Cult – http://revistacult.uol.com.br/home/2015/05/a-vocacao-literaria-de-frei-betto/ em que ele diz: “o erro de Lula foi ter facilitado o acesso do povo a bens pessoais, e não a bens sociais”. Sintetiza o que sinto em relação às décadas postas em um projeto que, ao contrário da energia investida, não tinha como exceder o possível… Saltarei sobre o contexto crítico do restante da entrevista. Concordo em absoluto. E a reflexão que Frei Betto despertou é que o investimento nesses “bens sociais” deveria – deveria – implicar consciência política. Aliás, esta era a razão de ser do petê original, sustentado pela base, no qual já vínhamos votando aos surtos como opção “menos ruim”. Não aconteceu… Mas, neste momento de paixões arrefecidas, muitos eleitores cativos já não sabem o que será de seus votos.

As últimas eleições escancaram o resultado prático da confusão entre o acesso ao consumo e à cidadania: a sociedade brasileira, independente de qualquer nesga de politização que tenha adquirido, mostrou o quanto é vulnerável aos rompantes da mídia e ao projeto de mundo que esta mídia vende – nosso povo passou por cima até da ruptura democrática em curso, votando maciçamente, não na direita, mas no discurso antipetista… Mas o óbvio não reside aí, não. A gênese dessa quebra está no desperdício de legitimidade dos governos petistas, naquela parte dos “bens sociais” que não deteve o uso equivocado das concessões públicas de comunicação… E, por favor, não cabe mais uma única justificativa… Não, não era questão de liberdade de expressão, mas de função social mesmo. Mídia que arruína democracia é o quê?

O alto investimento no senso comum através da mídia tem, na coxia, investimento geopolítico no poder de oligarcas, políticos, atravessadores e empreendedores cuja identidade com o país mal supera os tempos coloniais. Se “chovo” no molhado, o que dizer do petê, que — mais e melhor que qualquer partido — sempre soube que a mídia venal e seu exército zumbi disponível à manipulação, emendando gerações, são partes vitais do embuste estruturado que envolve a despolitização e a deseducação no país?

A mídia hegemônica vive do raso publicitário, do entendimento acrítico, urgente, sem alongamentos. Ninguém vende nada com mergulhos reflexivos, não é? Por isso, as usinas venais de informação impelem as pessoas a flutuarem em nata. É o que vende. E isto vale para a consciência de consumo, para o padrão de bem-estar e para a consciência política, indistintamente. Tudo que vai ao ar está à venda! A mídia mensageira do neoliberalismo é a maior oposição aos coletivismos que pretendemos.

Enquanto uns tantos sonham que a imparcialidade através de análises diversas, a cosmética de informações infraestruturais e a prestação de serviços são suficientes para justificar alguma função social, a mídia faz questão de isolar pautas, conduzir entendimentos, e murchar a compreensão do todo: das urnas eleitorais às prateleiras dos supermercados, de matérias pagas a anúncios escancarados, passando por cidadania, recursos naturais, mercado, política, meio ambiente, saúde – tudo desconectado… Desconectado, mas não de qualquer jeito… Se alguém duvidava dos propósitos desses pretensos proprietários do pensamento do país, o processo de ruptura democrática no Brasil escancarou a quem representam de fato, sua ideologia – e sua logística — para quem quiser ver!

A mídia, oposição a qualquer resistência aos valores do mercado, decide quem é oposição política. Decide o bem e o bom. E como representa essencialmente às corporações, abrigada na cidadania, na liberdade de expressão democrática, vende o peixe que bem entender para quem puder pagar. Se isto pode ou não levar um país à guerra civil – a responsabilidade e os danos serão do Estado e da sociedade. E você, acha mesmo que podemos saber pela própria oposição às nossas ideias quem é a oposição?

Se vivemos tempos em que o direito à parcialidade da mídia faz confundir editoriais e classificados, jornalismo e prestidigitação, informação e entretenimento – fragmentação e informação descontextualizada fazem da mídia venal uma fonte comparável a um cardápio “fast food”: o que está à venda tem uma embalagem cuidadosamente projetada, mas custará mais do que vale, fará mal a você e à sociedade e garantirá apenas a saciedade fugaz e suficiente para manter o consumo. Esse tipo de alimento que só faz volume, mal nutre: entretém a digestão, dispende energia sem ganhos nutricionais e perpetua o oco… Não é à toa que sem a “colinha” de uma revista ou jornal, muita gente que se disse oposição aos últimos governos não consegue sequer argumentar… Oposição?

Despolitização não é acidente. O picadinho de lógicas dirigidas jamais ultrapassa o útil, o entretenimento, a dispersão. O importante é não revelar o óbvio: nossas instituições são e sempre foram ideologicamente aparelhadas à direita e não abrem mão da ditadura do senso comum burguês. E se o senso comum sujeito às instituições – inclusive, governos — é construção eivada por ideologia burguesa; – O que é ser oposição?

O Brasil fora de contexto histórico apresentado à sociedade pela mídia, engatinhando em justiça social, bateu em Dilma com mais ódio que batíamos em Figueiredo, com todas as desigualdades produzidas pela ditadura – não precisávamos de estímulos da mídia! Este Brasil midiotizado derrubou Dilma, o petê, a esquerda, as oposições de fato, em plena democracia, como se submetesse o país a um ritual de exorcismo. O jornalismo vendido usou de ofensas e insultos, pejores com veemência maior que a dos milicos quando alertavam o povo pelas rádios contra grevistas ao fim da ditadura! E o pior, muitos egressos daqueles dias cinzentos estavam a bordo de mais essa encenação verde-amarela…

O Brasil sofre de memória rarefeita, de compreensões tardias, rasas e circunstanciais. E questiono se isto evoluiu na última década. Há governo, decerto que somos contra, mas não é por consciência! É como a maioria pensa… O protocolo teima e a mídia repisa em interesse próprio a cada eleição: oposição é quem não está governando. Certo?

Errado!

Por piores que sejam os resultados, os governos petistas levaram a oposição de fato ao poder. Em tese, toda a base de sustentação petista fora do governo continuou identificada socialmente como oposição. Durante este período, cindidos entre cidadania e governabilidade, ganhamos espaço inédito – e intolerável justamente por representarmos a oposição histórica do país. O que houve nos processos de governabilidade não implica na corrupção da inteligência que assumiu os programas, projetos, políticas públicas, que foram e ainda serão apeados do governo e que, sim, eram de oposição, de luta pela transformação do “status quo”.

Mas há o peso do poder e esta foi a escolha… Antes de prosseguirmos criticando a mídia — e enquanto a autocrítica petista não ecoa pelo país como é necessário –, bom lembrarmos que foi o projeto de poder petista que vestiu unilateral e orgulhosamente o fardão ufanista de situação. Os ares de social-democracia desenvolvimentista ocuparam os salões… Aos poucos, ninguém mais se lembrava da camiseta surrada de oposição por baixo dos protocolos.

Mas não eram protocolares os sonhos das oposições brasileiras. Não eram de mero acesso ao consumo os sonhos dos eleitores, dos movimentos sociais ou dos grupos envolvidos com sustentabilidade, meio ambiente e novos paradigmas. Não eram de mero poder os sonhos dos cientistas e intelectuais. Não eram essas as esperanças dos que diziam ter vencido o medo.

Quem elegeu Lula apostava no novo como nunca!, não pretendia um governo engravatado, não elegeu um espetáculo diplomático, muito menos, com traços de social-democracia, rendido aos mais caducos protocolos…A inevitável adequação da comunicação do governo ao discurso internacional reforçou a imagem de situação absoluta em um país onde a “nova” oposição — constituída pelas piores bancadas de que se têm notícias — sabidamente, não agia por ideologia, nem programas – apenas cobrava pedágio… A governabilidade passou a justificar, inclusive, a disponibilidade do governo… A direita continuava senhora do lugar de onde nunca saiu – só que agora detinha numa das mãos a bandeira de oposição.

O sonho de transformação institucional começou a ruir ali, quando o petê preferiu negociar com a direita e tomou para si o poder que era de todas as oposições do país… Primeiro, diante da ruptura com os programas históricos, defenestrando a legitimidade arduamente conquistada. Depois, pelo descolamento das bases e o inaceitável “pt-saudações” aos críticos, inclusive, aos da esquerda… O reflexo e a confirmação disto estão nas urnas da última eleição. O petê foi tratado pelo eleitorado como se trata a mais vulnerável situação formal!

As taras associadas às possibilidades do pré-sal – ao qual sempre me opus e, como tantos, só calei porque ponderei nosso futuro pela educação –, o empenho questionável de fazer do Brasil um “Brezeeel” de classe média, a geração de imensos passivos em nome da soberania energética, o entusiasmo por um paraíso industrial de endividados, somados à promissora insurreição dos BRICS em busca de um outro universo – também consumista; deslocaram o ponteiro ideológico para o eixo do desenvolvimentismo, para o velho paradigma, para a direita, de tal forma que os remanescentes da oposição de fato foram postos fora do gráfico. Aliados do governo, afinal, eram os outros. Qualquer questionamento era tratado por ofensa e os críticos como oposição!

Perdemos a fluidez na relação entre o poder institucional e nossos porquês subversivos. A maioria dos militantes não conseguia mais saber o que eram atos do governo ou do partido. Não se reconhecia. Sabia apenas que não fazia parte daquilo, mas devia estar à disposição! Os movimentos sociais e os ativistas que o digam – entre outras mordaças, a fragilidade do governo e a atenção desmedida dada às bancadas covardes nos levaram a perguntar em silêncio enquanto tentávamos defender o indefensável: – O que é ser oposição?

Quando a mídia conservadora diagnosticou fisiologismo e corrupção como vergonhas exclusivas dos que foram fotografados por trás, escalando as prateleiras do poder, admitiu que não julga nem julgará as mazelas de seu mundinho destro. Mas quando ignorou quem era oposição de fato, ficou claro para todos que era, ela mesma, a situação no papel de oposição específica.

Quando a classe média retrógrada aceitou ser figurante do golpe e saiu de verde-amarelo às ruas e urrou suas azias, parte da mídia fez questão de dizer que a verdadeira oposição estava mostrando as garras, que aquilo era uma celebração democrática dos contrários – aquilo que, entre outras maravilhas, pedia a volta da ditadura militar e repercutia vozes de quinhentos anos de opressão – e que mostrava um Brasil “lúcido” dando um basta na corrupção… Oi? Quem? Os ranhetas? Os falsos moralistas? As madames decadentes? Os arapongas? Os liberaloides? Os machões? Os aristocratas racistas? Os equivocados do mercado financeiro? Os embebedados de passado? Os brucutus? Os imperialistas patológicos?… Oposição? Graças à mídia, nosso país acreditou que a horda de coxinhas que tomou as lentes, minoria absoluta da população, estava fazendo algo revolucionário… O que é ser oposição em um país onde claramente manda o conservadorismo de direita?

Ao inferir que os movimentos sociais e os partidos progressistas imanentes não cabiam mais no grupo das oposições, os midiotas negaram mais que a História do país. Negaram a História do jornalismo. Negaram a luta de um sem-número de jornalistas contra a ditadura. Negaram às gerações que sobreviveram aos militares o direito de ter sua luta respeitada… Se o petê negou sua legitimidade de joelhos para não perder o poder, o que a mídia no papel de oposição truculenta ao governo fez foi negar o ar de nossas narinas e as subversões de nossos corações!

Do dia em que Roberto Jefferson acendeu o pavio até a queda de Dilma Rousseff, passando pelas prisões de Dirceu e Genoíno, mensalão, petrolão e o escambau, manchete a manchete, o ideário subversivo foi descaracterizado levando com a mesma água as lutas contra a ditadura militar. Não era por causa da corrupção. O plano de longo curso era higienizar o país de qualquer oposição verdadeira às tradições políticas, desconstruir o imaginário popular, desmontar políticas sociais, tirar das esquerdas o condão de oposição, privatizar as mentes ao valor mais baixo: o raso da mídia, a reza do mercado.

Diante da aparente perda do trem civilizatório, a partir da entrega do pré-sal, a derrocada de nosso protagonismo nos BRICS, o terrorismo contra a educação, e todo o revés que o Brasil está vivendo, é preciso que nos reorganizemos, não apenas em torno da identidade de oposição que tentaram nos tirar, mas — por favor — trazendo a práxis para o século XXI, sob um olhar definitivamente outro: ético, legítimo, socioambiental. Ecológico, não desenvolvimentista!

É preciso regular o foco de nossas ideologias. Atualizar nosso entendimento de esquerda, coletivismo, oposição, subversão, transformação, revolução a outro modelo econômico em um novo campo de lutas.

Mais uma vez, passamos pelas principais eleições – as municipais – sem conscientizar o eleitorado a respeito de questões coletivas pra lá de candentes. Nada sobre Sustentabilidade de Fato, nada sobre Mudanças Climáticas, nada sobre o Aquecimento Global e seus principais impactos socioambientais – drasticamente sociais. Mais uma vez, o padrão burguês de bem-estar à venda venceu nas urnas como se estivéssemos no meio do século XX… O debate político continua fugindo ao tema da Sustentabilidade de Fato que segue escondido das pautas brasileiras, sonegado pela mídia refém do insustentável mercado, de sua publicidade e de seus métodos de lucro a partir da geração de toda sorte de misérias.

O governo ilegítimo e toda a cambada desenvolvimentista eleita nos Municípios — e seja lá quem os suceda –, não têm estofo para cumprir com a agenda das Mudanças Climáticas. E o problema não são as tabelas a preencher, mas as mudanças de fato… Nossos políticos, nossa mídia, nossas empresas, as instituições do país não serão capazes de propor mudanças efetivas em hábitos profundamente necessários ao mercado, mas extremamente danosos ao meio ambiente e à sociedade. Além de não mitigarem, aprofundarão o quadro de injustiças sociais… Como essa gente não tem compreensão ideológica de que, quanto piores as condições de vida da sociedade, maiores são os passivos ao meio ambiente, tenho o triste palpite de que não tardam intervenções internacionais maiores em nossa soberania. E, de novo: – Somos oposição? A quê?

Há um longo entardecer ainda, e talvez uma noite de psicopatias e privatizações, antes que voltemos a ocupar o campo institucional que, já sabemos, está caindo de podre… Teremos um país cada vez mais vampirizado pelo capital e, portanto, hostil à cidadania – ao saber, ao humanismo, aos ideários libertários e, certamente, com implicações muito bem vincadas na área ambiental.

Que os mais enraizados não me desculpem, doravante, qualquer debate à esquerda, qualquer menção de subversão, oposição ao sistema, ao capEtalismo e mesmo uma retomada do poder institucional, não farão sentido sem um relevante olhar ecológico. Sugere-se algo? Que declaremos oposição à mercantilização da vida! E que a esquerda faça as pazes com a palavra “natureza” e compreenda que o motor da maioria dos passivos que nos afetam é a própria máquina institucional em que crepita o trabalho! E que isto não faz sentido se não propicia acesso efetivo aos “bens sociais” apontados por Frei Betto.

A questão ambiental caminha a passos largos para a privatização. Isto acontece, também, porque nunca foi tratada como luta social. As mais representativas oposições brasileiras sempre trataram meio ambiente como assunto burguês. Por décadas, o movimento ambientalista precisou de apoio e não teve. Resultado, quase tudo — inclusive, as iniciativas de educação ambiental — apropriado pela burguesia… Uma pena, mas quem não assimilou que a crise socioambiental é muito mais grave que qualquer crise econômica do capEtalismo, definitivamente, não saiu do século XX, e lá ficará enterrado, ainda que seja eleito ou reeleito em flagrante descompromisso com o futuro.

Podemos sonhar todos os malabarismos, mas sem uma volta maciça ao velho trabalho de base em pequenos grupos, sem pretensões industriais de entendimento; repisaremos em mais do mesmo… Assimilar o conceito de sustentabilidade quer dizer apostar na ação direta, local, no esforço de formiguinhas com que se conquista a tal legitimidade. Pode até haver alienação de massas, mas não existe conscientização de massas por atacado que valha a pena!

Chegou o tempo de redescobrirmos nossa vocação de oposição. E mesmo que acreditemos em rupturas, revoluções, transformações radicais em favor das maiorias, e mesmo que sigamos a banda resignada da filosofia, não podemos mais seguir o modelo político antropocêntrico que nos trouxe até aqui.

Ser oposição, cada vez mais, é levar em conta que os recursos coletivos – de todas as espécies — estão sendo utilizados pela iniciativa privada, pelo capEtalismo, numa velocidade muito maior que a aceitável para sua renovação. A urgência de nossos dias é compreendermos que, qualquer que seja a instância de poder, o caminho para a sustentabilidade socioambiental é uma luta libertária que passa por uma contundente tomada de posição contra o modelo de bem-estar burguês que está nos arrastando para o caos através do consumismo.

Nós, que nos dizemos oposição desde as fraldas, não podemos mais dar munição à mídia hegemônica para a repercussão do senso comum. Não nos cabem partidos políticos e alianças que repercutam o padrão burguês de bem-estar social e o consumismo. Não podemos nos reconhecer no modelo marqueteiro de luta política, se nossas aspirações são de legitimidade democrática, de horizontalidade e compartilhamento de poder.

Nós, gatos escaldados de ditadura, nós, que assentamos tijolos do que está aí desmoronando, sabemos que o incômodo maior, a oposição de fato ao capEtalismo é o empoderamento das pessoas. Não há mais nada que justifique o isolamento das esquerdas — principalmente, as assumidamente urbanas — em relação ao mundo do ativismo, do ambientalismo, das contraculturas, dos movimentos alternativos, da permacultura, da agroecologia e das buscas de outras tantas causas.

Decerto, recomeçar deste ponto sugere desalento e impotência. Mas é preciso encolher as expectativas, simplificar, idealizar menos e compreender que o mundo que queremos é o oposto do mais, do muito, do desmedido. A oposição pra valer precisa começar dentro de nós mesmos, para que não sejamos tomados pela onipotência de pertencer ao que não queremos, para que não sejamos nossos próprios opressores.

É um tempo propício para compreendermos que a onipotência já está nas pessoas, muito antes de elas atingirem o poder… É dessa megalomania germinada do narcisismo antropocentrista que o mundo padece – do personalismo, do messianismo, da mitificação, dos poderes ilimitados, das manias de superioridade, das soluções por atacado, da industrialização das relações, de abstrações mercantis em nome do coletivo, dos que são tão tiranos, mas tanto, que pretendem saber melhor que as pessoas o que elas querem, o que elas precisam, o que elas sonham.

Talvez, ser oposição consista unicamente em voltar às bases. Ouvir as pessoas comuns, retomar um contato humano que nos permita repensar o que há de legítimo nos tantos valores burgueses que constituem a política e nossas instituições.