A crise política nos colocou sob o domínio de um maniqueísmo contraproducente e doentio. A mim, me parece contraditório que em um processo doloroso, de desfecho claramente incerto, tantas pessoas se revistam de tantas certezas e ainda façam questão de confrontar a todos que delas não compartilham revestindo-se da aura beatificante e fanática de cruzados medievais.

Em tempos de assustadora polarização, quem prefere ponderar, analisar e cuidadosamente destrinchar as causas da atual crise para, ao cabo, fazer projeções razoáveis sobre suas consequências e seus possíveis desfechos, é instado a fazê-lo em silêncio, sob pena de ser acusado pelos dois lados em disputa de ser vacilante, covarde, murista, de não tomar partido na hora mais grave. No fogo cruzado entre as bravatas revestidas de solenidade que lhes lançam pelos dois flancos, são tidos, ao mesmo tempo, como totalmente pertencentes aos dois exércitos em guerra. Havidos como defensores de corruptos e coniventes com o golpe a um só tempo, aqueles que se recusam a aderir acriticamente a qualquer dos falsos extremos em acerba disputa devem, em prol da preservação da própria saúde mental, calar suas bocas: não há lugar para eles, eles não cabem em lugar nenhum.

 A mídia conseguiu o que queria: ditou às análises políticas, aos processos judiciais, às conversas de boteco e às postagens de facebook o ritmo frenético e belicista do sensacionalismo e do espetáculo, tirou-nos a paz de espírito necessária para a reflexão, nos jogou no tempo acelerado das platitudes e das brigas de torcidas.

A quem, por outro lado, veste integral e acriticamente a camisa verde amarela ou a vermelha, destino melhor não lhes assiste. Os primeiros, que em nome do combate à corrupção pretendem derrubar um governo e um partido, serão cobrados, caso saiam vencedores, por terem levado ao poder um grupo ainda mais visceralmente corrupto, inteiramente impermeável às demandas populares e, diga-se, mais protegido pela mídia corporativa, e que contará com maior leniência por parte do capital e de nosso judiciário classista. Os segundos vão aos atos em defesa da democracia para, ao cabo, lutarem para manter no poder um governo enfraquecido, sem base parlamentar e que nada fez, desde o começo do segundo mandato, além de jogar o pouco que restava das bandeiras históricas das esquerdas na lata de lixo apenas para continuar a ser governo. Serão cobrados, caso sejam bem-sucedidos, pela ainda maior capitulação do governo que salvaram em prol das demandas dos grandes grupos econômicos. O desmonte da CLT, o enfraquecimento dos programas sociais, a crescente criminalização dos movimentos sociais, o sucateamento ainda maior dos serviços públicos, a continuidade e aprofundamento de chagas ancestrais muito nossas, como o genocídio da juventude negra e dos indígenas, serão denominadores comuns a qualquer das forças que saia vencedora do embate.

Paradoxalmente, em qualquer das duas situações que vingue, perderemos todos, mas os perdedores terão a benesse de se saírem de tudo isso como vencedores morais. Caberá aos derrotados o consolo de apontar no adversário uma vitória de Pirro. É a esse melancólico horizonte que parecemos, por ora, reduzidos.

Muitos de nós, injetados de adrenalina pela luta política, não percebemos o quanto já perdemos. Perdemos as pontes, a nossa capacidade e disposição para o diálogo, perdemos o alcance de nossa visão. Perdemos amigos, noites de sono, tempo que poderia ser empregado no levantamento de pautas concretas que poderiam, de fato, guiar o país no rumo de uma democracia que, na realidade, inexiste.

Militantes valorosos, combativos, coerentes estão sendo expostos, tendo a sua intimidade devassada, a sua integridade física colocada na berlinda. Nas ruas, campeia a intolerância, a violência; nas redes sociais, o patrulhamento, a tentativa de imposição de um pensamento único ou, no mínimo, de adesão a uma unidade estratégica que está muito, muito longe de ser inquestionável e imperativa. Pululam calúnias, difamações, injúrias. As forças do estado, desde sempre arbitrárias, violentas, venais, são aplaudidas por seus erros e quem as aplaude são nossos primos, tios, vizinhos, amigos de infância a quem deixamos, por incapacidade absoluta de argumentar e de reconhecer nossos erros, que o extremismo de direita e o ativismo da mídia os levassem pelo cabresto.

Se, de um lado, o governo e seus aliados agora são vítimas do absoluto desprezo que nossas autoridades sempre devotaram às leis, de outro é preciso apontar que o desprezo às leis, a atuação nas suas franjas e brechas sempre foi o modus operandi e a própria definição do sistema político que as duas partes em disputa lutam para manter intacto. Sim, quer Dilma fique, quer ela caia pela via do impeachment, o sistema político viciado, corrompido e antidemocrático que temos hoje seguirá inalterado e será, em verdade, o único verdadeiro vencedor.

Disso, a maioria silenciosa que não vai a qualquer protesto e a quem aborrece se manifestar ou tomar partido no momento; essa maioria silenciosa que não está na barulhenta bolha da classe média militante do impeachment ou da democracia compreende: o impeachment comandado por uma quadrilha de bandoleiros de beira de estrada é uma estratégia de manutenção das coisas como elas estão. A maneira que Dilma tem de continuar no poder, dentro do atual sistema institucional, defendido pelas manifestações contra o golpe, é seduzindo o PMDB e o restante de sua base aliada fisiológica e corrupta, demonstrando a eles que ela é forte o bastante para manter tudo exatamente como está. Por isso, esqueçam a guinada à esquerda, esqueçam a reforma política: ela ficaria se conseguisse garantir que nada disso seria feito.

Dito isso, cabe fazer uma ressalva. Nem tudo na atual conjuntura precisa ser necessariamente trágico, inútil, tolo e desarrazoado. Aprendemos ou deveríamos ter aprendido algo com as listas e mais listas, delações e mais delações com que somos brindados semanalmente nos jornais, nas redes sociais. Tudo isso nos mostra o quão fundo é o poço em que se afundou o atual sistema, da base governista à oposição. Esse conhecimento deve ser útil de alguma forma, dependendo do que desejemos fazer a esse respeito: vamos virar os olhos a isso para que se salve a Nova República instituída após 1988 ou vamos propor instituições mais sólidas?28

Talvez algo de bom possa sair disso a médio prazo, desde que, obviamente, a gente não enlouqueça antes.