Certo dia, fui ao mercado com um amigo e o vi olhando as prateleiras enquanto murmurava entre lábios: “Sabonete? Não, já tenho esse. Shampoo? Também já tenho. Pasta de dente? Nenhuma marca nova… New God Made Expecially For You… Uau!”

Meu amigo não pensou duas vezes: comprou o tal do novo deus feito especialmente para ele. O mais incrível, é que a atitude de F – manteremos sua identidade em segredo -não me causou nenhum espanto.

G – cuja identidade também preservaremos é devota de Santo Antônio. Beata zelosa e entusiasta no período dos festejos do santo padroeiro. Também não come carne vermelha durante toda a quaresma. “Um mimo” – como disse o padre da cidade.

Entretanto, no restante dos dias do ano, G rasga as páginas da Bíblia que não lhe interessam. Por exemplo: faz constante sexo, mesmo não sendo casada, o que sua religião proíbe veementemente. “Ela tem o seu deus de prateleira, feito sob medida”.

É engraçado que o país mais cristão do mundo seja também o país que mais comprou o famoso “50 tons de qualquer merda”, que admite todo tipo de práticas sexuais, inclusive a sodomia, que também é alvo do cristianismo.

“50 tons de qualquer merda” é um livro pobre, mal escrito, com vocabulário repetitivo, com enredo entediante… mas serve para uma população que lê apenas 1,5 livro por ano, e ainda não entende o que leu. Serve para uma população paradoxal que é cristã, e se alumbra com a sodomia borrada pela pena da sra. E. L. James (que não teve nem coragem de usar o nome verdadeiro).

Talvez o problema da Bíblia seja sua linguagem agrária pastoral, que é pouco compreendida na atualidade. Deveríamos substituir o “vinde a mim, eu sou a videira, vós sois o fruto….” por uma linguagem mais contemporânea.

“Venham a mim, eu sou seu provedor banda larga, aqueles que comigo estiverem nunca terão suas conexões interrompidas”. Se podemos “inventar” valores nessa nova sociedade, criar deuses que se ajustam às nossas conveniências, podemos também “reformar” (o que não é nada novo) as escrituras.

Os valores nunca foram sólidos, mas agora eles desapareceram. F, por exemplo, é católico, por causa da família da noiva, mas é muçulmano de alma, pois tem várias mulheres, judeu por conveniência, pois descobriu que assim não precisava trabalhar no Sabbat, e frequenta sessões de acupuntura, pra mostrar que não tem preconceitos.