O Cara está sentado à sua mesa limpando alguns discos de sua coleção de vinil. Ele segura cuidadosamente um exemplar autografado de The Freewhelin’ Bob Dylan. De vez em quando, fecha um dos olhos e aproxima o objeto para perto do outro olho para que possa encontrar alguma sujeira mais difícil de perceber.

– E aí, Cara. Escutando o velho Bob?

– Demais esse cara, né? Tô dando uma geral na minha coleção enquanto tento entender as letras dele. O Bob é considerado o Zé Ramalho americano. Sabia disso?

– Não. E o que isso quer dizer?

– Não sei. Ouvi alguém dizer e fiquei com isso na cabeça. Além do mais, acho que fico mais inteligente quando faço alguma crítica sobre arte. Se for pejorativa, fica ainda melhor.

– Hum. Mas, e aí? Conseguiu decifrar alguma das suas composições?

– Nada. Tô desde de ontem em Blowing in the Wind. Mas essa música é complicadíssima. Não saí da primeira linha.

– Como assim?

– Veja, Frendo. “How many roads must a man walk down, before you can call him a man”. Viu aí? O homem é foda. Não é à toa que deram o Nobel pra ele.

– Ainda não entendi a dificuldade.

– Eu disse que era complicado. Vou ajudar. “Quantos roadies um homem tem que ter pela ladeira abaixo, antes do homem ligar pra ele”?

– Hum.

– Olha só a genialidade. Ele está se referindo à vida dele. Ninguém constrói uma carreira sozinho. O músico precisa de ajudantes: os roadies. Só que, antes de atingir o sucesso, o artista normalmente bebe, se droga, tem muitas relações sem camisinha. Ou seja, “só ladeira abaixo”. Até que um dia, “o homem”, algum dono de gravadora, liga pra ele dizendo que sua música está nas paradas de sucesso. Esse Bob é incrível, Frendo.

– Nossa, que viagem, Cara. O que tu andou fumando? E outra, esse teu inglês tá indo de mal a pior. Falando nisso, aqui está o livro que queria. As Aventuras de Huckleberry Finn. No original.

– Show. De quem é a tradução?

– Tradução? Como assim?

– Tradução, amigo. Quem foi o tradutor. Todo livro tem um tradutor.

– Depende. Esse não tem. Esse foi escrito pelo próprio Mark Twain.

– Tá brincando? Como isso é possível?

– Eu quem devia dizer “como é possível a sua pergunta”? Por que ele ia precisar de tradução pro inglês se ele já escreveu em inglês? A sua pergunta só faria sentido se estivesse se referindo a um livro escrito em inglês médio pro inglês contemporâneo. Como John Milton, por exemplo.

– Ainda tem essa? Nossa, acho que vou mudar pro espanhol que deve ser mais fácil. Fiquei até tonto depois dessa sua explicação.

Nesse momento o telefone toca.

– Pronto?

– Cara, Cara… É você?

– Acredito que sim, Gaby. O que você quer?

– Prenderam Jesus outra vez.

– Ave Maria Nossa Senhora. O que esse menino fez agora? Andou multiplicando Ecstasy em alguma rave de novo?

– Não, não. Dessa vez a coisa é séria. Ele tava num protesto contra a PEC dos gastos públicos em frente a um hospital lá em Madureira. Aí os manifestantes entraram em confronto com os policiais. Um dos caras que estavam com Jesus acertou um PM com um botijão de gás. O homem tava agonizando quando Jesus intercedeu. Fez um milagre e o curou o cara.

– E ele foi preso por isso?

– Calma. Primeiro os manifestantes ficaram bastante agressivos. Queriam linchar Jesus porque ele tinha salvado um inimigo. Ele correu pra dentro do hospital. Um grupo de médicos, que já tava de treta com Jesus desde outros carnavais, deu uma pressão nele também. Queriam saber que história é essa dele andar curando pessoas sem ter feito faculdade.

– Esse menino só me dá dor de cabeça. E aí?

– Então Jesus pulou uma janela que dava pra um rio do lado do hospital, e saiu correndo por cima da água. Sem afundar. Acharam ele escondido chapado de Catuaba num inferninho lá em Niterói e o prenderam por perturbação da ordem pública.

– Que presepada. Mas tudo bem. Tem solução pra tudo. Frendo, liga aí pro Romero Jucá e pede pra ele mexer os pauzinhos lá na Polícia Federal.

– Não dá. Ele caiu. Não é mais ministro.

– Caiu, foi? Então liga pro Henrique Alves.

– Esse já foi também.

– Cruzes. Que tal o Fábio Osório?

– Foi um dos primeiros a arrumar as bagagens.

– Tá difícil, hein? Então acha qualquer um dos ministros do Temer. O Fabiano Silveira, o Marcelo Calero… Até o Geddel serve.

– Todo mundo bichado. E nem adianta mandar chamar o Temer, porque nessa do Geddel a batata dele, que já não tava legal, também queimou.

– Que porra é essa, Frendo?

– Eu não queria dar uma de dedo-duro não. Mas isso tudo é uma macumba que o Aécio arrumou, porque tão dizendo que o PSDB vai indicar o Alckmin pras eleições de 2018.

– Meu brother, então a parada vai ser o seguinte. Vou arrumar minhas malas e tirar umas férias forçadas. Vou me esconder na casa de praia de um conhecido lá em Itaparica. Tu vem junto, Frendo?

– Opa, demorou. Mas e quem é que vai administrar teu barraco aqui?

-Gaby, liga pro Justus. Depois que elegeram o Dória e o Trump com a desculpa de que são gestores, qualquer um dá conta de enrolar a população.

– E teu filho? Ainda tá preso. Esqueceu?

– Deixa ele uns dias preso. Ninguém vai nem notar que eu desapareci. Afinal, não foi a primeira vez que deixei ele na mão. Fui.