O Cara está sentado em frente ao computador. Ele, visivelmente irritado, acompanha com o dedo as linhas de um documento aberto na tela, e compara com as anotações de um caderno. Vez ou outra, resmunga algo quase inaudível e beberica um gole do seu Richebourg Grand Cru safra 1985.

– Fala, Cara. O que tá rolando? Bebendo essa hora da manhã?

– E aí, Frendo. Ah, brother. Tô aqui desolado. Aliás, desolado é pouco. Tô aqui é muito do arrasado.

– Vixe, o que tá pegando de tão grave?

– Fiz o ENEM, como você sugeriu. Depois que impeachment virou moda estou me cagando todinho. Qualquer hora me acionam por causa do projeto da humanidade.

– Isso é verdade. Mas, continua.

– É que acabei de conferir o resultado. Não tenho pontuação pra passar nem naquela faculdade do Sarney, lá no Maranhão.

– No CEUMA? Mas ali não precisa de ENEM, meu amigo. É só ligar que eles te matriculam. Se quiser posso ligar pra ele. É peixe meu.

– Eu sei, mas quis fazer tudo direitinho dessa vez. Essa discussão sobre meritocracia anda muito acalorada. Não quero que pensem que estou sendo beneficiado por ter criado o universo e coisa e tal.

– Sei… Mas ainda não entendi o problema. A prova tava tão difícil assim? Bombou em quê?

– A prova objetiva até que foi fácil. Apesar de ter me lascado em inglês. Você acredita que até hoje não sei colocar as preposições direito?

– Eu já falei pra você fazer um intercâmbio. Esse negócio de fazer aula em cursinho não vai te levar a lugar nenhum.

– Eu achei que tava indo bem. Tô estudando pelas séries do Netflix.

– Mas me diz, qual foi bafo, então?

– A redação. Você acredita que é o tema desse ano foi intolerância religiosa?

– E aí?

– E aí que eles não concordam com meu ponto de vista. Agora eles resolveram que mulher pode fazer a mesma coisa que homem, querem que homossexual case, e ainda por cima, inocentar os africanos daquele lance lá com Noé.

– Olha, pra dizer a verdade, nem eu sei por que você os castigou mesmo. A Bíblia é muito vaga nesse sentido.

– O problema já não é comigo. Não tenho culpa se Noé tava de ressaca quando eu ditei as paradas lá.

– Você e esses seus profetas… Acho que nem Freud pra dar conta de vocês…

Nesse momento, o Anjo Gabriel entra na sala acompanhado de duas mulheres.

– Senhor, desculpa entrar sem bater. Mas é que…

– Cara, Gaby. Me chama de Cara. Já disse que não quero mais essas formalidades por aqui. O que foi?

– Desculpa, Senh… Quer dizer, Cara. É que essas senhoras insistem em falar com você. Já disse que só com hora marcada. Mas não teve jeito.

– E quem seriam elas, por obséquio?

– Deixa que eu mesma me apresento. Me chamo Hillary. Essa outra é a Marta Suplicy. Viemos aqui tomar satisfação por causa da vitória do Trump. Não tem possibilidade dele ter ganhado. O combinado não era esse. Alguém fraudou as urnas. O Instituto Diogo Mainardi dava 14 pontos de vantagem pra mim dois dias antes da eleição. Será que você pode se explicar?

– Primeiro, eu não sabia nem que vocês tinham morrido. Segundo, o Mainardi não acerta colocar nem o garfo na boca com olhos fechados. E terceiro, o que diabos a Marta tá fazendo com você? Ela não tava concorrendo à prefeitura de São Paulo?

– Nós não morremos. Na realidade nossos corpos estão numa sessão espírita lá no Capão Redondo. Viemos só em espírito. A Marta veio no embalo. Disse que se o Senhor reverter a minha história vai aplicar a mesma jurisprudência no estado dela.

– E que acordo é esse que você está falando?

– Nós colocamos o Trump lá apenas como espantalho. O acordo era ele falar o maior número de besteira possível. As pessoas ficariam tão horrorizadas que esqueceriam o que fiz na Síria. O plano não tinha erro.

– É, minha querida. Cabeça de eleitor é igual bunda de menino. Na primeira assembleia democrática de história da humanidade, absolveram um ladrão e mandaram meu filho para a cruz.

– E você não pode fazer nada?

– E por que eu faria? Além do mais, eu dei o livre-arbítrio foi pra isso mesmo. Pra não me envolverem nessas cagadas.

– Mas agora eu tô desempregada. Não tem nada pra eu fazer por aqui não?

– Deus me livre… Quer dizer, Eu me livre. E aí, Frendo? Rola alguma lá embaixo?

– A senhora também é pastora?

– Não, por quê?

– É que temos uma ala só pra pastores evangélicos. Está meio lotada. Mas como gosto de ver o circo pegando fogo, sempre abro espaço pra mais um. Topa?

– Fechadíssimo. Só uma coisa. A Marta pode vir junto? Ela diz que depois que fizeram a maracutaia do Temer ninguém mais dá bola pra ela. O Serra bloqueou até o whatsapp Sem sombra de dúvida. A família Matarazzo adquiriu um lote lá embaixo há muitos anos. Ou você acha que o dinheiro deles caiu do céu?

– Daqui mesmo não. Depois da delação da Odebrecht por causa do superfaturamento na reforma de duas galáxias a fonte secou. Acabou a mamata. Agora vaza todo mundo que eu estou esperando o Malafaia pra me dar umas aulas de religião. No próximo ENEM só vai dar eu. Top Top Top.

 

Esse texto é um capítulo de uma novela chamada Diário do Paraíso. Outros capítulos podem ser lidos Revista Língua de Trapo.