Aí o Cara ligou o aparelho de som, colocou o cd número 4 do Zeppelin e sentou-se tranquilamente na poltrona que estava em frente à lareira. Ele usava uma camisa furta-cor do Hard Rock Café que ganhara de um amigo e um boné da Nike. Segurava uma taça do caríssimo Richebourg Grand Cru comprado com seu American Heaven Card corporativo em sua última viagem a Paris. Parecia confortável. O celular tocou.
 
– Pronto?
– Senhor, sou eu, Gaby, estou ligando pra…
– Gabriel, não me chame de Senhor, já disse que não gosto dessas frescuras de crente… me chame de Cara.
– Está bem, Cara. Estou ligando porque tenho ótimas notícias do Brasil. Ouvi de fontes quentíssimas que a banda Calypso vai acabar. Fontes quentíssimas, Senhor… quer dizer, Cara. E não foi nem na Veja nem no Jornal da Globo que eu fiquei sabendo.
– Que ótima notícia, Gabriel. Parece que as coisas estão melhorando por lá, hein?
– Not at all, Senhor, quer dizer, Cara. Ainda temos aquele problema com o Cunha, o Bolsonaro, o Malafaia… Sem contar o lance do Sr. Burns Sarney. O homem insiste em viver. Já mandamos a Senhora visitá-lo mais de 15 vezes só no ano passado e nunca o acha. Creio que ele pensa que somos da operação Zelotes.
– Isso é um problema mesmo. Talvez eu precise intervir pessoalmente nesse caso. E esse lance do Malafaia, hein? Mas que carinha mais sem senso? Será que ele não toma chá de semancol, hein?
– Duvido muito, Cara. Esses dias minha cunhada que trabalha no Mc Donalds e frequenta a igreja dele disse que agora ele vai cobrar o trízimo.
– Trízimo? Que porra é essa?
– É a mesma coisa que o dízimo, só que em vez de 10% é 30%. Ele esta cobrando pelo pai, filho e espírito santo.
– Ahahahahahaha, sério? Pelo menos o cara é criativo. Mas e esse outro, o tal do Bolsonaro? Que sujeitinho desagradável, hein?
– O problema não é o Bolsonaro, Cara, o problema são as pessoas que sustentam esses caras pagando as ditas indulgências modernas. Será que não era hora de voltar dessas férias? O senhor saiu pra viajar na idade média e até hoje não voltou…
– Meu caro Gabriel, depois que li o livro do Paul Lafargue e a sua teoria do Ócio Criativo, minha vida mudou. Talvez até seja mesmo hora de voltar, mas ainda pretendo ficar mais uns séculos curtindo a vida de solteiro. Ademais, eu inventei o livre-arbítrio foi pra isso mesmo, pra não me encherem muito o saco.
– Cuidado com esses livros… Se o Bolsonaro se elege presidente e fica sabendo de um lance desse, o DOI-CODI vai bater às portas de São Pedro.
– Relaxa, Gabriel. Eu me entendo com o Bolsonaro. Mais alguma coisa? Preciso abrir outra garrafa de vinho.
– Não, Senhor… quer dizer, Cara. Ligo se souber de algo.
– See you soon, Gaby.
Então o Cara deu uma mexida na madeira que queimava na lareira, colocou o disco do Zeppelin novamente no começo, pois toda aquela conversa com Gabriel o interrompera de curtir o rock londrino de que mais gostava e sorveu mais um gole daquele vinho espetacular. Voltou a sentar em sua poltrona e meticulosamente ajeitou-se. Fechou os olhos por alguns instantes. O celular tocou novamente.
– Pronto?
– Senhor… sou eu de novo… Gabriel…
– Diga, Gabriel, o que foi dessa vez?
– Senhor, péssimas notícias…
– Shoot.
– A Joelma vai lançar carreira solo…
– Puta que pariu, Gabriel. Puta que pariu.
– O Senhor tirou as palavras da minha boca. PUTA QUE O PARIU.