O Cara estava impaciente. Já era a oitava vez consecutiva que Frendo o detonava no Call of Duty. Ele não gostava muito daquele jogo, preferia mesmo Mario Bros. Mas o que ele não gostava mesmo era de perder pro Frendo. Olhava atenciosamente para o adversário pensando numa forma de roubar no jogo. Não era honesto, ele sabia. “Mas quem precisa ser honesto o tempo todo?” – pensava ele com seus botões.
Frendo sequer prestava atenção no Cara. Vestia uma camiseta da última eleição para síndico da Terra com a foto do Filho e os dizerem: YES, WE CAN. Frendo era um ativista político ferrenho e, às vezes, em algumas situações, trabalhava para o Filho.
– De novo? Agora virou Brasil, é? É a nona vez que perco essa parada. Eu acho que tu tá roubando, Frendo.
– Eu não preciso roubar, Cara. No fim das contas, eu sempre ganho, você sabe disso. Mudando de assunto, que cerveja ruim essa que você comprou, hein?
– E eu lá compro alguma coisa, Frendo? Ou eu ganho de alguém ou uso o meu cartão corporativo. Esse negócio de comprar coisa com o próprio dinheiro é coisa de pobre.
– Rapaz, já te disse pra parar com esse lance de cartão corporativo. Você viu a merda que deu lá no Brasil.
– Pior. O Dirceu que o diga…
Gabriel entra esbaforido na sala de jogos.
– Senhor, Senhor… quer dizer, Cara…
– Mas olha aí o Gaby, todo na beca. Faz tempo que eu não te via, rapaz, por onde tem andando? Soube notícia sua lá no Bar da Tereza e, dizem as más línguas, em muito má companhia.
– Me erra, Frendo. Não sou da tua laia, não. Cara, temos um problema. Tem um pastor lá no portão arrumando a maior confusão. Como o nome dele não tá na lista, El Pedron disse que ele não podia entrar. Aí você já imagina o resto da história.
– Esses caras não aprendem. Manda ele entrar, vou falar com ele em pessoa, quer dizer, em espírito, ou em santidade, ou como Pai, ou Filho, ou… Ah, deixa pra lá. Nunca entendi direito essa parada mesmo. Só manda ele entrar.
Após alguns minutos, Gabriel volta com um camarada baixinho, usando o terno de tergal vagabundo, cabelo lambido por um gel barato e um livrinho embaixo do sovaco. Logo que adentra a sala, se joga de joelho aos pés de Frendo e começa a gritar…
– Senhoooooooooooooooooor, aleluia, aleluia, aleluia… então tu existes mesmo? Eu sabia, eu sabia… Hoje é o dia mais feliz na minha vida… Aleluia…
– STOP. Chega de tanta aleluia. Além do mais, tu tem certeza que está falando com a pessoa certa? Ou tu achou o “senhor” certo, ou eu é que estou confundindo os crentes… Ou melhor: as bolas.
– Ahahahahaha! Boa, Frendo. “Ato falho.”
– Mas… mas… tu não és o Senhor?
– Senhor até eu sou, só não sei se sou o senhor que tu estás procurando…
– Chega dessa ladainha. Eu sou o Cara dessa joça aqui. Mas desembucha logo, o que tá rolando?
– Des… des… desculpa, Senhor. É que esse outro tá com uma camisa com a foto do Filho, aí eu olhei rápido e pensei…
– Blá-blá-blá… seu problema é tentar pensar. Não enrola, rapaz… o que tá pegando?
– Senhor, alguém cometeu um terrível engano. Meu nome não tá na lista de entrada…
– Ninguém errou nada. Não olhei a lista, mas duvido muito que seu nome esteja nela. Aliás, seu nome ou de qualquer outro da sua laia.
– Mas… mas… mas o que eu fiz?
– Vou fazer só uma pergunta. Como você fazia pra saber qual era sua parte, a parte da igreja, e qual era a minha parte do dinheiro do dízimo?
– Bom. Primeiro eu fazia um círculo do chão. Depois jogava o dinheiro da “feira” da cima. O que caísse dentro do círculo era meu, já que o círculo era pequeno. O que caísse fora do círculo era da igreja, pois a área era bem maior.
– E a minha parte?
– Bem, o que o Senhor pegasse era seu.
– Manda descer. Carrega, Gabriel, carrega. Frendo! Tem vaga no teu hotel pra esse cidadão?
– Opa! Lá tá meio lotado dos parentes desse aí, mas eu sempre arrumo um jeito…
– Quer saber de uma coisa, Cara? “Até prefiro o céu pelo clima, mas com certeza prefiro o inferno pelas companhias”. Hashtag partiu calorzinho.
– Mas olha aí… pastorzinho culto.
– Pois num é. Vamos voltar pro nosso jogo. Que tal uma barca de sushi, Frendo?
– Só se você pagar…
– É ruim, hein? É ruim… manda a conta pra igreja desse outro, Gaby…