PREFÁCIO

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Não posso acreditar: o estulto do meu filho está publicando um livro – e um livro aprovado por uma lei de incentivo à cultura, ou seja, um livro que foi submetido a análise rigorosa de uma comissão de especialistas, que o leu e dele gostou, o que quer dizer que esse tal de O vampiro de Quixadá, título ridículo escolhido por ele para batizar a obra, deve ter alguma qualidade literária. Estou realmente bestificada. Depois de testemunhar todas as demonstrações de parvoíce que esse menino deu durante a vida, nunca imaginei que ele fosse capaz de escrever nem mesmo um cartão de convite, quanto mais um livro. Depois dessa, já não duvido de mais nada.

Não pensem vocês que estou exagerando. Para quem o está conhecendo agora, na sua incipiente carreira literária, é fácil cometer uma injustiça dizendo que sou uma megera invejosa, uma mãe desnaturada, ou sei lá o quê. Mas juro por Deus que não é assim. Meu filho sempre foi uma mula e nunca deu qualquer indício de que viria a ser um escritor. Durante toda a sua infância, suas notas escolares oscilaram entre o catastrófico e o desesperador. Era zero em Português, um em Matemática, meio em História, dois em Geografia, um em Ciências, três em Ensino Religioso… Só a quinta série ele repetiu inacreditáveis três vezes, e mesmo assim porque, não sendo permitida uma quarta reprovação consecutiva, a escola foi obrigada a passá-lo de ano.

As reuniões de pais e responsáveis eram, para mim, um ritual de tortura. Com as mães todas reunidas no salão, de repente a professora de Geografia se levantava, apontava o dedo para mim e fuzilava, sem pena:

– Dona Teresa, a senhora vai me desculpar a linguagem rude, mas o seu filho parece um retardado. Não adianta lhe explicar nada. Ele simplesmente não aprende. Fiz uma avaliação oral neste bimestre, e ele foi o pior da turma. Enquanto todo mundo tirou sete, oito, nove ou dez, ele tirou zero. Para se ter uma ideia da ignorância do garoto, ele não soube dizer qual era a capital do Turcomenistão, nem a densidade demográfica do Haiti. É uma vergonha que, nessa altura do campeonato, um aluno não saiba isso.

E depois vinha a admoestação da professora de Ensino Religioso:

– É dona Teresa o nome da senhora, não é? Olha, vou lhe contar uma coisa: eu já vi aluno burro, sem noção das coisas, mas igual ao seu filho ainda está para nascer. Esse cretino não consegue aprender nada, nem as noções mais elementares da doutrina cristã. Dias atrás eu lhe perguntei o que é a Transubstanciação, e ele não soube responder. Depois quis saber o que é a Trindade, e ele também não soube dizer. Por fim, pedi-lhe uma síntese do pensamento de santo Tomás de Aquino, e novamente nada.

O professor de Português complementava:

– Cara mãe, nem sei por onde começar… Olha, o seu filho não sabe o que é uma oração subordinada substantiva reduzida de infinitivo, não sabe conjugar um verbo no pretérito mais-que-perfeito do modo indicativo, não sabe o que é um palíndromo nem uma sinédoque… Assim não dá.

Eu ouvia tudo isso calada, sem saber para onde olhar, morta de vergonha, enquanto todas as outras mães, cujos filhos só lhes davam orgulho, espiavam-me de soslaio com um risinho vitorioso nos lábios. Ah, Deus! Por que não me fulminavas com um raio naqueles instantes? Por que me submetias a tais vexames?

Imaginem vocês o susto que eu levei quando o ser impensante veio me contar que havia sido aprovado no vestibular! Fiquei, é claro, ressabiada, achando que havia algum equívoco naquilo. Mas, quando ele me mostrou o jornal com a lista de aprovados, e eu vi lá, bem na rabeira, o lindo nome que lhe dei de batismo, quase caí dura no chão. Era mesmo verdade: o pobre idiota havia sido aprovado no vestibular! Vencida a perplexidade inicial, cogitei realizar uma festa para celebrar a façanha, mas a euforia logo sucumbiu ao peso de uma dúvida terrível:

– Será que não é um homônimo? – perguntei desconfiada.

– Não, mãe! – respondeu o jumento – Eu gosto de mulher!

– Não estou perguntando se você é homossexual, tapado! – retruquei, com raiva.

– O que é que você perguntou?

– Perguntei se não pode ter sido um homônimo?

– E o que é isso?

– Uma pessoa que tem o mesmo nome que você. Rodrigo é um nome comum. Os sobrenomes César e Dias também não têm nada de especial. Não é impossível que haja outro Rodrigo César Dias por aí. Já houve um Rodrigo César de certa importância no tempo da corrida do ouro, se não me engano. Governador de alguma província em São Paulo, acho. Ah, sei lá!

– Acho meio difícil, mãe. Quando entrei na sala para fazer a prova, a fiscal perguntou: “Qual o seu nome?” Respondi: “Rodrigo César Dias”. Se tivesse outra pessoa com esse nome, ela teria solicitado alguma informação adicional para nos diferenciar, como: “Você é o Rodrigo César Dias que nasceu em Franca ou em São Carlos?” Mas ela não perguntou nada. Assim que respondi, já foi indicando a minha carteira.

A argúcia desse raciocínio me deixou estupefata. O que será que estava acontecendo?, eu me perguntava. Primeiro, ele era aprovado no vestibular. Depois, dava respostas inteligentes. Alguma coisa estava muito errada.

– É que eu estudei para a prova. Por isso me saí bem – replicou ele, como que adivinhando as minhas dúvidas.

Sei que devo estar parecendo cruel, mas vejam se o que aconteceu em seguida não justifica minha descrença. Depois de lhe dar os parabéns pelo triunfo, pedi que ele fosse buscar uma dúzia de ovos na mercearia:

– Então você quer nove ovos? – perguntou ele.

– Sim, filho, nove ovos – concordei, desesperada. – Vá lá comprar uma dúzia de nove ovos para mim.

Meia-hora depois, ele voltou trazendo num embrulho de papel míseros sete ovos.

– Mas eu não pedi pra você comprar nove ovos, energúmeno?

– Sim, eu comprei nove ovos – protestou ele, com uma convicção de quem tinha feito a coisa certa.

Pedi-lhe então que contasse os ovos em voz alta. Ele retirou o conteúdo do embrulho e começou a contar:

– Um, dois, três, seis, sete, oito, nove…

Desnecessário acrescentar que, com essa inteligência abençoada, ele não conseguiu sequer passar do primeiro ano na faculdade. Sua maior nota foi um dois em não sei que matéria. Sem entender como um néscio desse quilate conseguira ser aprovado no vestibular, o diretor da faculdade me mandou chamar certa tarde. Devido às experiências pretéritas, não tive muita dúvida do que me esperava:

– Dona Teresinha, não gosto de embromação. Então vou ser direto. O seu filho não tem a menor condição de estar na faculdade. É um débil mental. Tire-o daqui, pelo amor de Deus. Ninguém o tolera mais.

Agora vocês entendem por que é tão difícil para mim acreditar que ele escreveu um livro?

Teresinha Maria Ferreira

Mãe do autor desde 1979