Nos artigos anteriores, percebemos que o aecismo foi uma atualização da prática fragmentária de lideranças territoriais da Velha República. Analisamos brevemente como esta lógica se impôs como um filtro sobre o modelo de gestão implantado por Antonio Anastasia e que ganhou a alcunha de Choque de Gestão. Neste derradeiro artigo desta série sobre o aecismo, procurarei retratar as práticas no chão de Minas. Para tanto, destaco dois breves estudos de caso: São João del-Rei (terra de Tancredo Neves) e Muriaé (Zona da Mata mineira). A escolha das duas cidades se deu por ser, no caso de São João, emblema da política dos Neves e, no caso de Muriaé, por ser uma cidade-polo mineira que sintetiza a lógica territorial do aecismo.

 

  1. O laço afetivo-político da elite de São João del-Rei como base do aecismo

Imagem 1 – Localização de São João del-Rei

 

São João del-Rei ficou, na memória coletiva dos mineiros, como terra dos Neves. Na verdade, PT e PSDB disputam o controle político deste município do sudeste mineiro, mas nenhum dos dois, nem os herdeiros de Tancredo, são forças hegemônicas. Quem domina, nos dias atuais, a política local é o ex-prefeito Nivaldo José de Andrade. Eleito para três legislaturas (1993-1996, 2001-2004 e 2009-2012), Nivaldo surgiu como liderança dentre os pobres da localidade. Sua primeira campanha foi feita, inclusive, contra os Neves, com fortes ataques que adotou como slogan uma candidatura que “Caiu do Céu” contra a “elite política” do município. Até hoje, parece o fiel da balança na disputa entre PT e PSDB. Foi prefeito da cidade de Tiradentes entre 1988 e 1992. Foi eleito na coligação intitulada “De volta para o povo” composta pelos partidos PRB, PMDB, PSL, PTN, DEM e PSDC. Iniciou a carreira no PDS (depois PPB e PP), passou ainda pelo PTB e PMDB. Filiou-se em 2013 ao Partido da Mobilização Nacional (PMN).

No ano de 2012, uma série de protestos envolvendo a saída de Nivaldo da prefeitura foram realizados. Os cidadãos de São João del-Rei pediam a saída do prefeito para um governo mais limpo e sério, que investiria em outras áreas da administração, como saúde e educação. Mesmo assim, Nivaldo continuou a liderança carismática e populista que encanta os mais pobres.

Assim, os Neves são vistos, hoje, como elite da política local.

O modelo de gestão política desta elite se dá, como não poderia ser diferente, por uma lógica verticalizada, altamente hierarquizada. No topo, figuram a irmã Andrea Neves e mais duas coordenadoras centrais no esquema político aecista: Juliana Menezes (coordenação geral e comando da TV Campo de Minas) e Valéria Cordeiro (que foi chefe de gabinete de Aécio em Belo Horizonte).

Abaixo deste tripé, uma miríade de operadores políticos, desde políticos profissionais (caso de Rômulo Viegas, ex-deputado; de Fábio da Silva, Igor Sandin, Domingos Sávio e Gustavo Valadares, passando pelos prefeitos de Conceição da Barra de Minas, Coronel Xavier Chavez e Ritápolis) até uma rede de médicos e empresários (destacando-se Luis Antonio Neves – médico e tio de Aécio -, Rafael Agostini, Nilman Torga, a família Rangel, ex-reitores da universidade local e Euclides Garcia de Lima Filho – ex-conselheiro da COPASA e pai do desembargador Rogério Medeiros).

Os vínculos com a família Viegas são antigos. Várias lideranças de São João afirmam que foi Augusto Viegas quem conduziu Tancredo Neves à vida política. Tancredo teria ingressado na política por intermédio dos irmãos Augusto e Antônio Viegas. Dizem que “os Viegas abriram a porta, mas quem fez o caminho foi Tancredo”. Aécio desde 1982 já acompanhava Tancredo e os Viegas na política, acompanhando as campanhas eleitorais.

Esta rede social, tendo nos médicos um dos seus pivôs, forma uma rede de apoio social muito peculiar que se enreda num cipoal de emendas parlamentares que objetivam deixar em pé os dois hospitais onde operam (evitando a sua federalização, demanda persistente de forças políticas locais contrárias ao aecismo).

Ao lado deste agrupamento, permanece com certa influência – ainda que subterrânea – o conjunto de irmandades e confrarias locais, graças à militância de décadas de Tancredo Neves, o que cria uma rede de obras sociais que atinge a população pobre. As irmandades fazem parte de um mundo de regras paralelas à sociedade institucionalizada e formal de São João. Suas orientações e lógica são muito específicas. Uma ilustração é a solenidade de Passos, que deveria ocorrer durante a Semana Santa. Contudo, no estatuto da Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos, está determinado que ocorra no quarto domingo da quaresma como referência aos passos de Cristo a caminho do Calvário. No domingo, são realizadas as rasouras, pequenas procissões em torno da igreja para, então, serem depositadas as imagens e ser feito o Sermão do Encontro, em alusão ao encontro das procissões que carregam as imagens, que ocorre no antigo Largo da Câmara. Esta solenidade prossegue no Setenário das Dores (em alusão aos sete dias que antecedem a Semana Santa e às sete dores de Nossa Senhora).  Segundo pesquisa da Universidade Federal de São João del-Rei, a Semana Santa do município é a única que mantém as tradições originais em todo o país.

São perceptíveis os vínculos familiares e relações tradicionais como base da prática política aecista. Com efeito, São João tem um sentido simbólico e logístico para Aécio Neves. Faltando uma semana para a realização do primeiro turno das eleições de 2014, foi lá que batizou seus dois filhos recém-nascidos, na manhã de um domingo, na Basílica de Nossa Senhora do Pilar, mesma igreja em que seu avô e sua filha mais velha foram batizados.

Aécio passava as férias e fins de semana durante a infância e juventude em São João.

Andrea e Aécio eram da turma do Kibon, uma famosa esquina da cidade que acolheu diferentes gerações nas décadas de 1960, 1970 e 1980. O local ficou conhecido como a esquina do Kibon, porque ali se vendiam sorvetes com essa marca. A juventude são-joanense ocupava as proximidades da esquina, devido à variedade de bares que havia neste lugar, além dos festivais de música, da poesia, do cigarro e da bebida. Era um ponto boêmio da cidade, no qual os jovens se encontravam para conversar.

No livro intitulado São João del-Rei: Capital Brasileira da Cultura 2007, Francisco José Carvalho Costa, nos informa que:

(…) na esquina do Kibon, por onde passa, geração após geração, a juventude radiante de São João del-Rei; nas rodas de conversa à beira do “cais”, como os cidadãos chamam, em tom de brincadeira, a mureta de proteção paralela à “praia” (Córrego do Lenheiro); na calma do Largo da Cruz, típica das ruas do centro histórico; no movimentado comércio de Matosinhos; na conversa de alpendre na Colônia do Marçal; na sombra da Serra do lenheiro sobre o Tijuco; no alto do Bonfim; no bairro do Senhor do Montes, de onde, aos pés do Cristo, o olhar consegue alcançar todo o centro da cidade; na escadaria da Igreja das Mercês, no Mercado Municipal; no Guarda-Mor; no bairro das Fábricas.

Assim, o jovem Aécio fora construindo uma rede de apoio pessoal e profissional, a partir de contextos de sociabilidade como a Esquina do Kibon (além das relações de Tancredo com as famílias tradicionais, com a Igreja), que o acompanhou na sua vida como político.

Com efeito, Tancredo Neves, mesmo depois de sua morte, e São João presidiram os primeiros passos políticos de Aécio. Um dos eventos marcantes da primeira campanha de Aécio e da história da cidade de São João del-Rei se deu no dia 23 de dezembro, logo após sua eleição, quando o então Presidente José Sarney assinou a Lei n° 7.555 de 18 de dezembro de 1986, que possibilitou a criação da Fundação Municipal de Ensino Superior de São João del-Rei – FUNREI.  Momentos antes de sua assinatura e da inauguração da instituição de ensino, Sarney proferiu as seguintes palavras que marcaram e são repetidas pelas pessoas da cidade: “é a mão de Tancredo que assina este documento”. A FUNREI foi criada a partir de intervenção direta de Risoleta Neves, esposa de Tancredo, que fez o apelo ao então presidente Sarney. Ao fazer o pedido, Risoleta teria dito a Sarney que a federalização das faculdades particulares de São João del-Rei era um antigo sonho de Tancredo Neves. O pedido foi atendido justamente no ano em que Aécio se candidatou pela primeira vez à Câmara dos Deputados.

Aécio logo montou um staff de campanha em São João. A coordenação política da campanha ficou a cargo de Andrea Neves, irmã de Aécio, que era auxiliada nessa função por Domingos Calil Mingote, Ivan Augusto Assunção, Euclides Garcia de Lima Filho (Dr. Tidinho), Newman Luiz Torga da Silva e Valéria Magalhães Cordeiro de Andrade Reis, dentre os mais citados.

Valéria Cordeiro também auxiliava na coordenação da campanha de Aécio, em todo o estado de Minas Gerais, além de fazer as articulações políticas em São João del-Rei; e tanto ela quanto Joanna Somers, que era assessora de Aécio, eram as procuradoras políticas de Aécio no município.

Além de auxiliar a coordenação política, Newman Torga também atuava como tesoureiro da campanha, em São João del-Rei.  A cúpula contava ainda com Juliane Menezes Machado, que era a coordenadora organizacional e gerente da campanha no município. Juliane era auxiliada por vários coordenadores técnicos, que atuavam na coordenação e fiscalização dos panfleteiros. Conectados a esse núcleo de campanha se encontravam ainda os cabos eleitorais.

Esta estrutura se profissionalizou com o tempo, mas, para o objetivo desta série, vale destacar a rede familiar e de apoios tradicionais, envolvendo quase sempre a elite local, na estrutura política aecista.

Imagem 2 – Comitê eleitoral de Aécio em sua primeira eleição para deputado federal, em 1986.

 

Dr. Tidinho, por exemplo, além de ser coordenador político, fazia parte desse grupo de apoio íntimo. Tidinho foi amigo pessoal de Tancredo e atendia muitas pessoas pobres em seu consultório, gratuitamente. Essa não era uma prática incomum entre os médicos do município. Muitos eleitores pobres que tinham recebido ajuda de Tancredo ou dos médicos ingressavam nas campanhas de Aécio. Os médicos, assim, constituíram num segmento decisivo na popularização da figura dos Neves.

Os médicos de São João del-Rei, como já aludido anteriormente, parecem compor uma sustentação política específica a Aécio em São João. O Hospital Nossa Senhora das Mercês e a Santa Casa de Misericórdia passaram a depender de emendas parlamentares para se manterem em funcionamento. Existe uma forte pressão para a federalização dos hospitais, mas Aécio – e deputados ligados a ele – continuaram assegurando a sobrevivência destes, através de recursos de emendas parlamentares. Algumas lideranças municipais sugerem que a federalização dos dois hospitais retiraria estrutura física e equipamentos que são utilizados por vários médicos que compõem a base social de apoio de Aécio no município. Assim, forma-se um circuito clientelista típico, tendo como inovação o segmento de classe média beneficiado pelas emendas parlamentares.

Aécio herda então e cultiva uma base de apoio social que vinha de seu avô. Ao longo de sua vida, ele manteve os laços afetivos, que acabaram por resultar em apoio político nas campanhas eleitorais.

 

 

 

  1. O “cimento” político aecista em Muriaé

 

Imagem 3 – Localização de Muriaé

 

Em Muriaé, fica mais evidente que Aécio Neves não lidera seu grupo, mas o protege e até unifica blocos distantes que se tornam de um mesmo campo.

Neste caso específico, todo esquema aecista, tanto eleitoral, quanto de organização de demandas e canalização de investimentos públicos, se dá a partir de dois clãs políticos: a família Varella e a família Braz. Danilo de Castro, que possui propriedade rural na localidade, é ouvido, mas não interfere neste arranjo local, totalmente dominado pelos dois clãs, definido por um acordo tácito. Descreve um dos nossos entrevistados:

Quem mais projeta o Aécio aqui na região é o Danilo. Porque o PSDB mesmo… Ele fala bem, dá entrevista… O Danilo frequenta muito as cidades da região. Seu pai tem uma propriedade logo atrás aqui… O movimento que mais agrega o mundo rural em Muriaé são as cavalgadas e Danilo participa de algumas delas. Danilo ele só tem fazenda aqui, mais nada. Fazenda de gado, ele gera pouco emprego.  É um dos chefes no município, é um dos articuladores, mas não trouxe nenhuma obra para Muriaé. Trouxe asfalto da saída de Muriaé para Ervália e, depois, uns pedacinhos lá, aí assim, tem até o nome da mãe dele. Mas não tem nem comparação com o que o Lael e os Braz fizeram. O Danilo só não é mais poderoso na região porque o Lael investiu aqui. (Entrevista com dirigente político regional que solicitou para não ser identificado, em 16/06/2016).

A relação política do aecismo parece se bifurcar. No que diz respeito ao processo eleitoral local e maioria das obras e investimentos, passa pelos dois clãs. Mas a relação política direta com Aécio se dá através de Danilo de Castro. O chefe político do aecismo, da relação com Aécio Neves a partir desta região, é Danilo de Castro. Uma liderança que entrevistamos caracteriza assim a região: “é engraçado, a zona da mata é a república dos parlamentares”. Segundo este depoimento, todos (os) caciques da política estadual e nacional ingressam na região via deputados locais. Lula teria recebido apoio da família Braz, que, por sua vez, teria relações com o ex-deputado petista Virgílio Guimarães. Mas, em âmbito estadual, a família Braz se vinculou a Aécio Neves. Já a família Varella sempre foi oposição a Lula, mas nunca deixou de receber recurso para a fundação. A família Varella é identificada como mais ideologizada, mais nitidamente conservadora. Já os Braz seriam mais flexíveis e negociadores. Alguns afirmam que teriam conseguido encaixar um de seus apoiadores no governo federal, originário de Rosário da Limeira, com a finalidade de articular e acompanhar projetos. Os Braz afirmam que, devido a este expediente, Muriaé se tornou a terceira cidade mineira que mais recebeu recursos públicos durante as gestões Lula.

O clã dos Varella parece o mais estruturado, popular e com maior lastro na estrutura aecista. Sobre a diferença dos clãs locais em relação às estruturas políticas superiores, comentou nosso entrevistado:

Mas aqui em Muriaé, o Danilo nunca pôde fazer muita frente não. Mas eu acho que também é muito uma característica do próprio empresário. Porque o Zé Braz, por exemplo, eu ouço dizer que o maior patrimônio dele está no Rio, por conta dos impostos. O Lael [Varella, ex-deputado federal], quando ele tomou a decisão de fazer o hospital aqui em Muriaé, e a faculdade, foi de muita sabedoria do ponto de vista econômico e político porque ele agregou, né e hoje isso…

Assim como em São João Del Rei, nesta localidade a figura de Aécio Neves é definida como distinta daquela representada pelo seu avô. Os depoimentos colhidos sugerem explicitamente que, se Tancredo liderava e gerava uma dependência (ou subordinação) política local ao seu comando, com Aécio Neves a situação se inverte: “o Aécio que depende deles”, afirmou um de nossos interlocutores locais.

O aecismo, assim, se apresenta como uma adaptação (ou feixe) de lideranças locais que, antes de sua entrada, nem sempre estavam unidas. Este é o caso de Muriaé. Com Aécio, as forças políticas locais passam a receber recursos, apoios, a se unificar e a transitar pelas esferas do poder. Trata-se de uma modalidade do presidencialismo de coalizão estruturado pelo lulismo, mas também uma aggiornamento do clientelismo clássico, desta feita, trocando o sentido histórico: se antes, traduzia um movimento das oligarquias regionais para o centro do poder público, agora, é a força central que organiza e se alimenta das forças locais.

As visitas de Aécio Neves à região são descritas de maneira muito distinta ao comando definido – e até mesmo certa pompa e circunstância – das visitas de Tancredo Neves:

O Aécio nunca foi de ficar vindo muito. Ele passa por essas cidades, como Leopoldina, aqui Muriaé, Cataguases, cidades que são chamadas de polo. Vem uma equipe dele, organiza, isso com algumas pessoas do PSDB, juntamente com algumas pessoas que são ligadas aos gabinetes. É uma coisa muito simples, ele não tem uma estrutura [grande e sofisticada]. Ele traz uma estrutura de som pesado. Não tem esses comícios igual tem em cidade grande e junta vários candidatos, nós não tivemos isso. Ele pega algumas lideranças, as lideranças abrem um comitê na cidade, tem distribuição de material, manda um dinheirinho pouquinho, tudo muito pouco e materiais. Os materiais muitas vezes passam lá na sede em Belo Horizonte e traz com carro pra cá. Eles não mandam, não tem uma estrutura… o que não é o caso dos Braz, os Braz têm muito dinheiro. [Depoimento de uma entrevistada que solicitou anonimato]

A figura de Aécio é descrita como de uma autoridade que não se detém na região, um transeunte político que sempre está de passagem e que, ao se apoiar e depender dos caciques locais, não fortalece estruturas partidárias próprias, de seu partido. Vejamos algumas passagens de entrevistas que comentam esta situação.

Sobre as visitas de Aécio Neves à região:

Ele já veio também na fundação. Coisa assim, rápida. É aquela visita assim, vai chegar! Vai chegar! Tá chegando! Aí dá uma volta de avião e desce. Aí vem aquele monte de gente, televisão atrás, vai lá no local e passa lá meia-hora, passa a mão num e noutro, fala uma falazinha de 10 minutos. Não tem esse negócio de falatório.

Sobre as estruturas partidárias locais:

Diretório não existe, em lugar nenhum, não. Esses diretórios aí, coitados, nenhum deles, não existe, nenhum partido. Tem os diretórios, mas eles não têm poder. Aliás, se você fizer uma ação sem comunicar o representante superior, eles caçam o diretório. De qualquer um, o PMDB faz, o PT faz, qualquer um faz. Eles tomam o diretório. E você tem que ser articulado com deputado, com o representante estadual do partido. Esse negócio de base eleitoral, isso pode estar acontecendo lá na capital. O diretório aqui não tem poder, eles só servem para as formalidades.

Sobre o papel do cacique no comando da estrutura partidária:

Aqui na região quem manda é o Lael. O DEM é o Lael. Se tiver uma candidatura dentro do partido que eles não concordem, ou eles não dão apoio nenhum, ou acabam com ele. Esse pessoal, eles são diretos. Você vai conversar com o Lael, se ele falar assim, “eu não te atendo”, não tenta entrar na sala. Não atende. “Pode vir cá que eu vou te dar isso”. Se ele vai te dar um pedaço de pão você sabe que vai ter um pedaço de pão e ponto final. Eles são assim. É essa a relação. Mas isso é o Lael, é o Braz. Os outros partidos, esses menorzinhos, às vezes discute, vai e volta, mas no final da situação se fizer alguma coisa que não está em sintonia com a direção de estado, você não consegue sair do lugar. Não consegue falar com ninguém. Não resolve nada. Pelo menos é o que eu escuto de todo mundo aqui. Tanto que a gente vai construir uma chapa para disputar uma prefeitura, demora por conta disso. Você tem que conversar. Você é do DEM, vai lá no diretório bater um papo, eles vão informar para o Lael para saber se pode estar naquele grupo ali, fazendo aquilo, senão não sai do lugar.

 

  1. O aecismo encoberto pelas montanhas

Nesta última parte da série dedicada à ascensão do aecismo em Minas Gerais e sua engenharia política, procurei esboçar como a estrutura política montada não chegou a liderar correligionários, antes, se apresentou como uma liga entre lideranças locais já estabelecidas e a politização de redes de lealdades locais compostas por familiares ou redes de amizades familiares.

O aecismo, a despeito da imagem de inovação e juventude, nunca foi ousado ou reformista. Antes, apoiou-se no revigoramento do que há de mais tradicional na política local brasileira, atualizando redes clientelistas que fizeram migrar recursos públicos para alicerçar caciques e segmentos profissionais locais que estabeleciam alianças territoriais.

O mais significativo e peculiar destas redes clientelistas é que elas raramente se cruzavam. O vigor político do aecismo se fundava justamente nesta tênue presença local que projetava na única figura de Aécio Neves o catalisador estadual. Um catalisador cuja projeção estadual se fazia pelo marketing e presença nas manchetes da grande imprensa.

Em outras palavras, os feudos locais eram mantidos em sua lógica territorial, diminuindo a possibilidade de disputas estaduais – e mesmo locais – o que alimentava uma rede de “principados” desprovidos de projeto estadual.

O localismo aecista se sustentava por esta relativa autonomia local, mas dependia de recursos financeiros abundantes que consolidavam os caciques municipais e regionais.

Sem recursos para alimentar os principados ou sem capacidade de projetar a imagem de Aécio Neves como formulador da inovação estadual, o aecismo pouco se garantia no cenário político. Desprovido de uma real capacidade formuladora (até mesmo uma dificuldade de construção de um diagnóstico global do desenvolvimento estadual), o aecismo vivia das lideranças locais, pulverizadas num Estado que conta com mais de 800 municípios, fragmentados em culturas e hábitos regionais, ora mais baianos, ora mais fluminenses ou paulistas ou goianos, e assim por diante.

Quando Guimarães Rosa afirmou que “Minas, são muitas; porém, poucos são aqueles que conhecem as mil faces das Gerais”, não poderia imaginar que estaria produzindo um dístico sobre o aecismo.

Com o devido pedido de licença ao autor, o aecismo se projetou como uma única face política para o país, embora fosse a soma de muitas imagens. Este foi o motivo para que tão poucos conhecessem sua face real.