Era um triste contraste aquele.

Da janela olhava para a cidade de arranha-céus. Até um pombo negro andava pelo telhado do prédio mais baixo da lateral direita. Por onde andam os pombos brancos?

Estava frio, cinza e um tempo interno nublado de incertezas em pequenos tufos de plena desordem. Só falta chover. Será? Mas da outra parte avisto uma árvore de flores lilás. Sinal que me diz sobre pequenas possibilidades em que preciso prestar mais atenção. Não sou beata, inocente, sei me virar sozinha e é agora que tomo jeito. Esquecer os semáforos vermelhos e ficar em alerta somente para quando o verde se abrir.

Do lado de dentro da casa, o corpo estava quente, colorido com vestígios do vermelho que é a cor da paixão e de um peep toe por que tenho leve apreço. Não quero que tudo seja pra depois como serviço de caixa postal. Outro tempo começou, como as luzes que acendem a cidade dizendo que a noite chegou. Coisas minhas, coisas que nunca deixei serem nossas.

Não era nada pessoalmente ligado com alguma identidade peculiar, mas que tem cheiro e um gosto… Existe encontro de olhar, sentimento sem disfarce e que faça bem, que desmonte qualquer alma cansada de fugir. A hora me lembra as horas que não vivi como deveria.

Era tudo isso somente uma conversa mais íntima com meus botões com o que fazer nos próximos dias. Especificamente para o resto dos dias seguintes. De frente ao espelho me interrogo. Uma sirene que passou acesa gritando socorro acordou o silêncio que em mim agora disse basta. Fiquei nervosa! Como um tiro de largada, dava início para minha prova. Eu acendi o verde por conta própria e fui. Não tinha nome nem rosto, nem apelidos carinhosos, nem sabia como. Era só uma vontade de dar as costas e ir de frente. De frente verei o que espero. Vem de encontro ao meu olhar que irá falar.

Penso talvez que poderia ser numa rua qualquer, daquelas que não decoramos nem o nome depois, poderia ser no meio da tarde mesmo, entre aquela gente que passa vazia e aflita, e nem olha se estamos falando de política, dos jogos ou sobre nós.

Quer saber? É isso aí. Quem vai reparar que não estamos vivendo? E eu que ensinei minha filha a escolher seus amores, devo rever minhas crenças para admitir o quanto a vida continua.

Se é assim, tenho que levar mais a sério as terças-feiras, falo sobre essas coisas que não estão nítidas, com aquelas expectativas de dias especiais. É nessas condições que vou trocar de roupa agora, antes que vire passado esse meu acordar, levar uns quarenta reais no bolso da calça para um simples café numa livraria qualquer e descer nesse momento as escadarias apressadamente, cruzar o portão e encontrar a graça de um encaixe num esbarro entre nossos corpos, deixar meu livro cair sem apego a mais nada, exalar meu cheiro e dizer, “oi…” e o coração fala, adorei te ver.

Simplesmente o coração. Não sei jogar. Não é meu dom representar. Uma revoada de pombos de todas as cores levantou voo com o barulho dos carros. Tinha vários brancos.

Textos “Mapa de um romance próprio”

Sugestão: leia escutando “Simplesmente Aconteceu” de Ana Carolina