Santos tem o 6º melhor IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do Brasil e o terceiro maior do Estado de São Paulo. A cidade é conhecida pelas praias e pelo extenso jardim da orla, considerado o maior jardim frontal de praia do mundo. Este cenário propicia uma visão positiva sobre a cidade, bastante distinta do dia a dia da população santista que vive nas periferias.

Esta realidade pode ser observada pelos diferentes olhares que os moradores têm sobre Santos. É importante ressaltar que a construção da cidade assim como  o acesso a ela são milimetricamente calculados para que os mais privilegiados socialmente gozem dos benefícios e bons serviços que ela oferece, enquanto a grande maioria agoniza em cortiços, barracos, palafitas e nas ruas. Portanto, quem mora na região da praia tem uma visão completamente distinta da de quem reside nas áreas assoladas pelas hecatombes sociais.

O fato é que Santos é uma cidade extremamente conservadora. Isto implica um problema conjuntural que afeta fortemente as políticas sociais na região da Baixada Santista. As demarcações territoriais determinam, através do contexto social de cada área, se os direitos dos cidadãos são válidos ou não, quais os locais que podem ser frequentados e como podem ser. Óbvio que estas normas não estão impressas no papel ou garantidas pela lei, mas estão presentes no imaginário social e na ocupação dos espaços públicos.

O acesso à cidade é restrito a quem reside em diferentes regiões. Seja nos serviços, nas áreas de lazer e de cultura, ou na ocupação de espaços, os direitos são distintos e potencializam as diferenças sociais existentes. Os investimentos de maior impacto são feitos, em sua grande maioria, no porto e nas áreas turísticas, deixando de lado as regiões mais carentes e que necessitam de uma presença mais ativa do poder público.

Vale lembrar que a grande parte da população santista reside em regiões distantes da praia – Morro, Zona Noroeste, Centro, Área Continental. Em sua região central, por exemplo, cerca de 15 mil pessoas habitam em cortiços e vivem em condições sub-humanas.

Então como pode uma cidade com 15 mil seres humanos habitando em cortiços, que possui a maior favela de palafitas da América Latina e onde uma minoria considerável mora em área nobre, ter o 6º IDH do Brasil?

Enquanto os moradores das áreas favorecidas pela distribuição desigual de renda reclamam da violência e da falta de segurança pública, os seres humanos entrincheirados nos campos de concentração modernos clamam por uma cidade menos desigual, mais acessível e menos seletiva. A brutalidade na periferia é diária.

O Estado violenta todo dia as comunidades carentes e seus moradores sucateando diversos setores como: saúde, moradia, transporte, saneamento básico, cultura e educação, lazer e entretenimento. Além disso, a agressão social continua nos quesitos empregabilidade e distribuição de renda – a diferença da renda per capita entre os moradores do Gonzaga para o Dique Vila Gilda é em torno de R$3.000,00 (três mil reais). A estas violações somamos ainda a truculência da polícia militar e, atualmente, da Guarda Civil Municipal, que cometem de abusos de autoridade a chacinas. Violência, gera violência.

Nos vendem uma imagem positiva da cidade, mas será que esta reproduz com clareza e fidelidade a realidade de quem habita a cidade? Será que o cartão postal remete às mazelas sociais que assolam os guetos na baixada?

“Apesar de tudo, vivemos num mundo onde os direitos de propriedade privada e a taxa de lucro se sobrepõem a todas as outras noções de direito. Aqui, procuro explorar um outro tipo de direito humano, o direito à cidade.” (David Harvey)

Pré-estreia no dia 08 de setembro no Educafro – Santos.

ANTHROPOS FILMES

PRODUTOR E DIRETOR  – Júnior Castro

PRODUTOR AUDIOVISUAL – Gabriel Gomes