Durante os vinte e um anos que se seguiram àquele fatídico primeiro de abril, muitos defendiam com unhas e dentes – e cassetetes e tanques – que não havia Ditadura no Brasil. Não só era inadmissível que se nomeasse o Golpe de Estado como Golpe de Estado – que deveria ser chamado, infamemente, de “Revolução Redentora” –, como também era normal que se negasse, inclusive, que havia um regime de exceção instalado no país.

Coube à imprensa o papel principal na novela do convencimento geral e na difusão de alguma pretensa legitimidade ao trágico regime. A TV e os grandes jornais (vale destacar, aqui, as Organizações Globo e o Estadão) não apenas fizeram a sistemática defesa do Golpe, tratando-o como um artifício de salvação nacional e de – pasmem – instalação da Democracia no país, como sustentaram uma surreal imagem positiva do governo golpista enquanto e como foi possível. Um ou outro veículo de mídia que fugisse à regra era ameaçado e punido com censura.

A História do Brasil teria sido outra se, em determinados momentos, não houvesse uma explosão insana e providencial de anticomunismo. O medo assombroso e doentio – por ser caricaturalmente exacerbado – de um fantasioso governo socialista, e que na verdade era um temor da Democracia, operou como propulsão do golpe de 64 e como pretexto para a Ditadura Militar. No passado e no presente, é o ódio, nascido do rancor de classe, jogando a razão no lixo e, por tabela, se desfazendo também da Democracia.

E Democracia não é uma palavra solta em meio a outras, não é algo que se realize só em discurso. É direito e cidadania, efetivamente. Se o Estado adota medidas e institucionaliza procedimentos que tomam direitos do povo e reduzem sua cidadania, não se vive em um Estado Democrático de Direito. Se não é Democracia e há evidente autoritarismo por parte de um governo que não chegou onde está pela via das urnas, estamos em uma…

Pois é.

E há, hoje, uma descarada perseguição ideológica, não só no âmbito privado, mas também perpetuada pelo Estado, em especial pelo partidarismo grotesco e antirrepublicano de um Poder Judiciário sequestrado por interesses suspeitos e reinstalado na tal “República de Curitiba”.

E há uma política econômica carniceira, que, forçosamente, produzirá pobreza, com inevitável arrocho salarial, que irá ampliar as desigualdades e reconcentrar as riquezas do país.

E é a FIESP no poder; são subsídios bilionários ao empresariado. É a realização dos interesses do capital internacional, a começar, nessa nova edição do regime de exceção, pela entrega do Pré-Sal, depois, do Aquífero Guarani, e sabe-se lá o que nos restará.

E é o indecente desmonte da Educação, com profundo corte de recursos e com a reconfiguração da grade escolar do ensino médio como instrumento de esvaziamento da crítica e de controle social.

E é essa canalhice criminosa intitulada PEC 241 (ou 55), uma espécie de AI-5 para o século XXI, que, no fim das contas, põe na Lei o fim de direitos fundamentais, como fez o Ato Institucional de 1968. (É certo que o AI-5 não foi tão sutil na forma como usurpou o futuro, mas também não durou 20 anos).

Mas a sombra do passado é ainda maior.

Há tortura legalizada, há invasão policial sem mandado judicial.

Há a criminalização da oposição e da crítica.

Há uma imprensa poderosíssima jogando pesado contra o povo.

Há a volta de um tempo hediondo que não se deixa sepultar, no Brasil, na América Latina. Incomodados que estavam com a perda de certas exclusividades, os donos do país retomam o que julgam ser só deles. E jantam os direitos do povo em banquetes suntuosos nos salões do poder. E, fora deles, é pau em quem não gostou. E vem mais por aí, está claro.  Estamos apenas no início.

Nunca imaginei que fosse ver coisas assim acontecerem, quase que diante dos meus olhos. E a opinião pública, transformada em gado, sorri no abatedouro. Enquanto o silêncio for também nosso, amanhã há de ser outro dia, sim, mas outro dia de um passado vergonhoso.