As prioridades humanas comuns, mesmo sob o crivo mais alienado, são sempre as mesmas. A criança abandonada precisa, e a mimada também. O velho e o jovem precisam. Não depende de gênero, renda, fisiologia intelectual ou ideológica, etnia ou time do coração. Todas as pessoas precisam das coisas que sempre foram e sempre serão… É por este ponto que começa a farsa capEtalista da negação do óbvio. Não raro, a negação do óbvio é a negação do outro, e ilumina privilégios como se fossem direitos, mas fazendo crer que o contrário é sensato… A fome, é sensata?

Eis uma das grandes hipocrisias civilizatórias do mundo capEtalista – o tratamento de direitos estabelecidos por si mesmo como privilégios!

Tenha você ou não garantias de suprimento de água, alimentos, abrigo, segurança, saúde, educação ou não, isto é prioritário e constitui direito para você e para aqueles que você não vê… Somente pessoas com visões muito distorcidas, privadas da experiência direta com a realidade, incapazes de entrar em contato estreito consigo mesmas e com os outros, podem acreditar que faça sentido abrir mão de prioridades e direitos por abstrações e tolices gourmet. Simplesmente, porque não valorizam nada do que têm por garantido, e preferem as versões editadas da realidade que as cerca enquanto acariciam seus privilégios.

O consumismo alardeia como ótimo banalizar prioridades. E com um agravante hediondo – por trás do entretenimento, da deseducação e da imbecilização promovidos com altíssimos investimentos em tatos ásperos, entendimentos rasos e lentes baças, nossas instituições concedem, cada vez mais, a privatização do essencial…

As pessoas vivem alienadas das reais prioridades, como se fosse de suas naturezas comprarem absolutamente tudo que mantêm sua existência. Afogadas em dívidas, despesas e rotinas mecânicas, financiam não apenas o mercado, mas os valores morais ansiosos e o imenso vazio interior que corrói o pertencimento e, portanto, o senso de coletividade…

O pesadelo a que estamos assistindo sem reação é bem este: o mercado toma posse do meio ambiente tornando o prioritário escasso e o supérfluo abundante, de forma a deter o controle social, econômico e político através do consumo. Aí, quando falo em Consumo Crítico, Não Consumo e politização do consumo, eu é que sou radical!

O fato de você nem se lembrar do monstro da fome se mexendo dentro de você, não quer dizer que outros tantos não tenham que enfrentá-lo todos os dias. E não estou apelando ao velho discurso moralista de maldizer os que têm pelos que não têm… O que quero é relevar um sentido perdido de reconhecimento de prioridades que cada um de nós encontra em si, e bem poderia encontrar nos outros… As discussões burguesoides sobre Sustentabilidade têm passado muito longe do entendimento crítico das prioridades e simplicidades humanas e de um ordenamento nítido de importâncias que questione, por exemplo: – o que será deste planeta quando todos, incluindo a absoluta maioria dos que ainda não conseguem se manter, dependerem exclusivamente de dinheiro para obterem as coisas que sempre foram e sempre serão, a começar por água e alimento?

Ah, você já compra sua água e seu alimento “naturalmente”? Então, isto é um privilégio. Porque todas as cartas e documentos estruturais de todos os países civilizados do mundo dizem o mesmo quanto ao direito à alimentação… E você aí, fazendo de conta que todos têm que se esforçar como você e sobreviver do cardápio psicopata da meritocracia!

Sua fome ou seu completo desconhecimento sobre a fome determinam o mundo. Você pode ficar aí engessado em sua embalagem de classe e fazer de conta que não sabe dos que não se alimentam… Mas você também pode decidir por ancorar seu pensamento em prioridades básicas – suas e coletivas – e ter o estalo de clareza de que, mesmo diante de tanta tecnologia, megalomania, purpurina e alheamento, isso aí a que chamamos civilização, a começar pelo direito ao alimento, é um privilégio calculado para poucos.

Infelizmente, muita gente acredita que é justo e bom que sigamos em desigualdade. Aliás, bom relevar, não estou dizendo que todos devem ser idênticos ou ter as mesmas coisas. Estou falando em igualdade social no acesso a direitos básicos, acesso às coisas que sempre foram e sempre serão vitais a qualquer ser humano sem distinção alguma.

Se você abraça, apalpa e beija na boca a economia meritocrática e não enxerga justiça social como instrumento civilizatório dos mais sustentáveis, você está na banda dos que sequer reconhecem os próprios privilégios e remam contra a corrente do Novo Paradigma.

Se concordarmos que há qualquer obviedade quanto às necessidades essenciais pertinentes a todos nós, e que o mesmo não ocorre segundo os parâmetros éticos do poder econômico privado, bem-vindo ao bando dos descontentes e dos que lutam por mudanças.

Sim, sim, obviedades… Tantas que, às vezes, é preciso constatar que não nos faltam recursos naturais ou quaisquer outros para garantir um patamar civilizatório mínimo para todas as gentes, inclusive, porque hoje sabemos que os dois maiores geradores de passivos ambientais são as desigualdades sociais e a mercantilização de recursos naturais para saciedade da demanda urbana e do estõmago sem fundo do capital – leia-se, consumismo.

Se não nos faltam recursos, nem tecnologia, nem braços, nem inteligência, nem leis, nem informação, estamos diante de investimentos ou desinvestimentos pela mais óbvia escolha. A fome é uma escolha? Em que país?… Em todos onde grassa a doença da negação de prioridades e seu sintoma mais grave – a condenação da miséria a ser insumo da riqueza.

Não há vergonha na simplicidade e no esforço de superar crises. A vergonha está na manutenção da crise como negócio, pelo que possa gerar de lucros, como acontece em nosso Brasil brasileiro em que grande parte da prosperidade é dependente do amplo miserê nacional. Entenda-se aí prosperidade e miserê como termos de asas beeem envergadas, tá?

Mudando de prosa, do país ao homem…

Sou um brasileiro mimado de classe média alta que passou pelo buraco de uma agulha há alguns anos e hoje, segundo o IBGE, pertence à classe F – com a graça de todos os deuses do desapego!

Do universo encantado do “vir a ser”, passando pela herança patriarcal, pela egolatria do empreendedorismo, pela bad trip do amor romântico, pela onipotência cretina de vender arte para capEtalistas da moda, enquanto sonhava e comprava todas as carochinhas à venda por aí, caí da árvore de plástico do mercado. Outro dia conto como e por quê.

De um padrão de bem-estar herdado com todas as lendas de direito, um dia me vi sem alimento, no meio do mato. Habituado ao crédito, ao giro de cartões e cheque-especial, carteira de clientes em alucinada sintonia fina com as despesas; de repente, me vi acampado, sem dinheiro algum, atolado em luto e depressão, e precisei escolher entre ir atrás de trampo ou de rango. Mas a fome era pra já. Não era uma questão de “o dinheiro dá”, “o dinheiro não dá”. Já havia remexido todos os bolsos e potes várias vezes. Não havia mais amigo que não tivesse emprestado dinheiro ou ajudado – e depressão, sabe como é, amordaça!

Demorou algumas semanas até que, pela primeira vez, consegui construir – não exagero, é construir mesmo – um almoço inteiro com alimentos que, outrora, talvez servissem como acompanhamento, mas não como prato principal… E comi aquele almoço grátis como fosse o último dos rangos…

Muitas coisas clarearam neste processo, a começar por meu entendimento sobre vulnerabilidade social. O que havia de teórico, e havia muito, virou um bife na cara – sem o bife… O garoto mimado dependeu de assistência social ineficiente, de cesta básica de prefeitura, de penduras, súplicas, dádivas e aquelas coisas que só quem tem orgulho grande sabe como doem… Já não era o universitário aflito que passava dias a pão com margarina à espera dos tickets do bandejão do mês. Nem o solteiro que só pensava em comida entre uma ressaca e outra. Também não era o meditador com suas buscas e jejuns… Fome, fome mesmo, involuntária, inexorável, incompatível com tudo que sabia sobre minha pessoa foi o que me deu o chão de realidade que tenho hoje, o entendimento de todo o poder possível sobre um faminto e a clareza sobre a indiferença de algumas pessoas… Foi muito didático perder os recursos materiais e artifícios, os acúmulos de anos de utensílios domésticos, ferramentas, equipamentos, contatos, acessos e confortos de uma família de classe média para virar freegan na marra!

O que eu tinha era medo, depressão e algum conhecimento sobre plantas medicinais e alimentação funcional, além de uns bons canais de pesquisa referendados, e memórias turvas da infância em contato com famílias caiçaras. De resto, muitos lotes pelo bairro repletos de vegetação – e uma cidade de gente venal e hostil com todas as portas fechadas para quem não fala o idioma do constrangimento…

Foi desse tempo sem escolhas que comecei a pesquisar PANC e plantar… E chega de falar de mim.

Do homem para o seu país…

O Brasil ainda não conseguiu decidir por prioridades. O que o Brasil tem feito de suas opressões é quase nada no que toca à Soberania Alimentar. De repente, surge um governo em cinco séculos que tenta mudar as coisas, reconhecido mundialmente por isso – e tomamos um Golpe!

Em cinco décadas de endurecimento patrocinado pela vida, não vi período em que o Brasil não vivesse em crise e não houvesse fome alardeada aqui e ali. Também não me lembro de ver o país livre de suas vergonhas, misérias e ignorâncias transversais a todas as suas classes. Cresci ouvindo sobre o flagelo da seca, sobre a fome, a mendicância, a miséria rural e urbana, a ignorância como projeto, sobre os recalques escravagistas, a opressão em todos os níveis, torturas, espionagens, sabotagens e multinacionais e golpes e lucros astronômicos. E decidi não perder a ternura…

Por outro lado, em algumas décadas no meio empresarial, tudo que vi foram números astronômicos e citações invejáveis sobre os imensos montantes operados pelas grandes corporações… Em toda parte por onde andei vi contraste de fortuna e pobreza, gente cheia de privilégios que se acha pobre, e muita, muita gente pobre que se acha de elite… Mas a fome brasileira, feita de tantas fomes, não é acidente, não… O que é assombroso não é a fome, não é a miséria, é o hábito. O Brasil aceitou a miséria. Aceitou a pobreza e a submissão aos tiranos locais e estrangeiros, aos oligarcas babentos que cultuam o modelo insustentável de desenvolvimento a que estamos obrigados, e vendeu o passe por qualquer merreca – à revelia de seu povo.

O que aprendi entre as fomes que passei e as que vi e vejo foi que, quando numa relação qualquer de poder, um dos lados nega a humanidade do outro, nega sua própria humanidade. Foi o que me aconteceu. Foi o que aconteceu e acontece ao Brasil, reduzido a capacho do imperialismo.

De um país a outro, outro modo de pensar e fazer…

Já desgastada por décadas de bloqueio econômico, no começo dos anos noventa, Cuba deixou de contar com insumos, recursos e parceiras comerciais com países da URSS. O enfraquecimento do país e a crise inevitável na produção e distribuição de alimentos obrigaram o governo a adotar uma política emergencial de Soberania Alimentar descentralizada e em parceria com movimentos sociais regionais, que permitisse a máxima autonomia na produção com o mínimo dispêndio energético, uma vez que além do corte no fornecimento de insumos e máquinas e peças agrícolas, o abastecimento de petróleo foi comprometido. A fome espreitava!

Não erra quem afirma que a atualmente próspera agroecologia cubana é filha da escassez. E é uma pena que nossa humanidade precise de perrengues para incorporar transformações…

Cuba foi a primeira nação a adotar uma Transição Agroecológica de fato. Por completa falta de alternativas, com o fantasma da fome à espreita, sob uma pressão internacional extraordinária e covarde, e com a maioria de seus solos agricultáveis ainda comprometidos pelo plantio da cana-de-açúcar e pela cultura industrialista das lavouras tradicionais – de custos inviáveis. Mesmo assim, mesmo com tanta gente fugindo da ilha sob as lentes da mídia capEtalista, Cuba estabeleceu um modelo que hoje é estudado e exportado como referência em Sustentabilidade.

De início, a agricultura cubana adotou medidas para mitigar artesanalmente a falta de equipamentos, agrotóxicos e combustível, aplicando métodos orgânicos de fertilização do solo e trocando as máquinas pela tração animal. Mas o ponto forte da transformação foi a horizontalização das relações com tecnologias baseadas no conhecimento e nas habilidades humanas, e com aproveitamento de recursos locais.  Apesar do planejamento e do estímulo governamental, as inciativas regionais autônomas e a organização social permitiram notável otimização da produção com redução ainda maior de custos.

Deste Novo Paradigma agrícola imposto pela necessidade, brotou um novo padrão alimentar, um novo modo de produção com muito mais alimento por área plantada, rompendo com a linearidade do modo industrial. O processo gerou o fortalecimento dos solos e das comunidades, trazendo trabalho para centenas de milhares de pessoas através da implementação de forte estrutura descentralizada de produção agrícola familiar, a partir de chácaras orgânicas e pequenas áreas, inclusive, programas de horticultura urbana em praças e terrenos baldios. Somadas à criação de cinturões verdes ao redor das regiões mais urbanizadas, tais medidas resultaram na geração de nada menos que oitenta por cento da produção de frutas, verduras e ervas medicinais consumidas nas cidades cubanas, incluindo a alimentação escolar.

No começo dos anos 2000, uma década depois do início da mudança, Cuba já contava com o dobro da produção de alimentos e um aumento de vinte e cinco por cento da disponibilidade de calorias na alimentação, sem perder de vista a manutenção de um programa alimentar nutricionalmente consistente, socialmente equitativo e bem distinto do padrão patológico imposto pelo agronegócio internacional, principalmente, tomando por modelo a dieta básica estadunidense.
Nem tudo são flores e frutos neste processo. Há tradições internas, distensões políticas, relações internacionais, hábitos, restrições ambientais e outros senões à implementação plena dos processos. Mas é certo que Cuba inaugurou o Novo Paradigma e será, por longo tempo, modelo de Sustentabilidade em diversos quesitos como atestam instituições brancas, capEtalistas e dominantes como OMS, UNESCO, ONU e WWF.

No Brasil, apesar do tímido sucesso permitido aos governos petistas pelos carniceiros de plantão, a fome volta logo, obrigado! Dispomos da maior biodiversidade do planeta, mais de três mil espécies de plantas comestíveis, terras agricultáveis, mão de obra, tecnologia e informação de sobra, mas somos campeões no uso de agrotóxicos, aplaudimos monoculturas, desmatamos a Amazônia para plantar soja e pasto e nossa sociedade se alimenta mal, sofre de obesidade e desnutrição ao mesmo tempo, e persegue, não o essencial, mas o besteirol midiático baseado no embolorado padrão de bem-estar burguês, sem direito a questionamento de prioridades…

Eu conquistei autonomia em verduras e parte das frutas, ganhei uma série de conhecimentos alimentares que me permitem sobreviver sem ter que pensar com o estômago, e tenho ensinado isso e outras coisas em que acredito…

Cuba, apesar do embargo, apesar do fim da URSS, apesar da covardia internacional, atingiu em grande medida a Soberania Alimentar… Não é incrível que um governo amaldiçoado, combatido e bloqueado por todo o mercado internacional seja o único neste planeta desesperado por sustentabilidade a honrar uma das premissas fundamentais da hipocrisia coletiva a que chamamos de civilização – o combate efetivo à fome?

Evito citações, sabe?, mas há momentos em que cometê-las é imensamente didático. Lacro com Sartre: “O essencial não é aquilo que se fez do homem, mas sim aquilo que ele fez do que fizeram dele”.

Linques de referência.

https://viacampesina.org/downloads/pdf/sp/2010-04-14-rev-agro.pdf

http://monitordigital.com.br/cuba-desenvolvimento-sustentuvel-e-meio-ambiente/

http://www.agriculturesnetwork.org/magazines/brazil/caminhos-da-transicao-agroecologica/a-transicao-agroecologica-na-agricultura-cubana

http://www.mst.org.br/2016/11/13/entrevista-modelo-agroecologico-cubano-poderia-salvar-o-mundo.html

http://www.ecossocioambiental.org.br/artigos/o-que-cuba-tem-a-nos-ensinar-sobre-sustentabilidade/

http://planetasustentavel.abril.com.br/blog/planeta-urgente/pobreza-dita-revolucao-verde-em-cuba/

http://www.envolverde.com.br/1-1-canais/ips-rede/agroecologia-cubana-em-teste/