A docilidade das curvas exageradas daqueles móveis estilo rococó contrastava com a rudeza dos que o cercavam: sisudos, evitavam qualquer contato com a interrogada que não fosse um ataque. Mantendo uma postura ereta e a cabeça levemente erguida, o delegado daquela unidade do DEOPS (Departamento Estadual de Ordem Política e Social) mantinha o olhar fixo. Um olhar irônico e estranhamente seguro, alicerçado sobre a certeza de contar com apoio estatal, portanto, do poder vigente, qualquer que fosse sua decisão, qualquer que fosse seu julgamento.

Não muito distante, em uma sala de paredes cinza e clima mortífero, um rapaz de vinte e pouquíssimos anos-  estudante da ameaçadora USP, como se torna qualquer polo de luz perante as trevas- encontrava-se nu, amarrado pelos pés, com a cabeça para baixo, quase tocando o chão e à mercê dos golpes de artes marciais de seu algoz faixa-preta.

Desferia-os no intuito de fazê-lo expelir informações preciosas sobre os esquemas subversivos que ameaçavam o bem-estar da nação, assim justificavam. Mas todos, inclusive eles mesmos, sabiam que não: nos golpes havia uma Vontade de algo mais. Aqueles golpes eram, certamente, impulsionados por uma perversidade como poucas.

Encontrava-se vulnerável tanto quanto qualquer pessoa se torna perante a violência praticada por aquilo que deveria te proteger: esse tal Estado.

Defini-lo está além do que aqui proponho. No entanto, grosso modo podemos caracterizá-lo por aquilo que o Estado não deveria ser: um praticante de violências arbitrárias, a serviço de um nocivo lunatismo de comandantes militares e civis que se viam como donos da nação.

Comandantes que propunham uma violenta assepsia ideológica à custa de fuzilamentos, corpos arrastados por carros, terror psicológico e tantas outras torturas difíceis de nomear.

A História avança. Chegamos ao ano de 2016. Aquelas unidades da polícia militar contam com uma decoração de traços contemporâneos: linhas retas, cores brancas, cadeiras estofadas pretas; uma ode ao reino da impessoalidade.

Em uma delas chegava um grupo de 26 jovens, vestidos ecleticamente – assim como eram suas utopias-, estarrecidos pela prisão arbitrária que sofreram naquele tradicional ponto de encontro: um centro cultural em uma capital que se diz plenamente democrática. Desta vez sem ouvir grito algum a não ser os próprios, estes jovens homens e jovens mulheres sofreram algumas agressões gratuitas, foram interrogados e precipitadamente acusados por mensagens trocadas em um aplicativo on-line. Supostamente estas mensagens operacionalizavam desejos de violência contra o Golpe, digo, contra a nova ordem. O perigo da subversão novamente pairava, assim justificaram. Desta vez foram soltos por um indignado juiz, na tentativa de proteger este frágil sistema chamado democracia brasileira.

Em outra delegacia, um tanto mais distante do epicentro da cidade, de súbito adentravam alguns policiais afoitos, um tanto desnorteados. Havia acontecido uma fatalidade: um interrogado por suspeita daquilo que novamente- e convenientemente- chamam de subversão encontrava-se morto. Morto em um veículo pertencente ao Estado e colocado a seu serviço. Fora espancado. Não sabiam explicar exatamente como aconteceu. Apenas percebiam que ali alguma Vontade havia tomado conta de seus golpes coletivos, fazendo com que só cessassem ao conquistar o óbito. Desta vez fora um jovem adulto, morador de um bairro periférico, que agora jazia por representar algo que precisava ser rechaçado: o grito contra a pobreza e a injustiça; a cabeça que às vezes insiste em não se curvar.

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Amarildo Dias de Souza desapareceu em 14/07/2013, após ser detido por policiais militares. 

 Silenciá-lo definitivamente foi a alternativa.

Assim como se tenta, com muito esforço, silenciar sua existência.

Assim como pretendem, em vão, silenciar a História.

Não conseguirão.