Se há um sinal que evidencia copiosamente o jeitinho brasileiro, no dia a dia nacional, é o uso de eufemismos. E por trás desse costume muito nosso, de falar com panos quentes e meias-palavras, há – vamos dizer com todas as letras – o medo da verdade, em um lugar onde a verdade dói, porque a realidade, forjada aqui na tensão de brutais desigualdades, é dura demais para ser mostrada na íntegra. Não se trata, porém, de mentiras. É um preocupar-se com as aparências, é mais uma máscara no país do Carnaval. De certa forma, o eufemismo é também um drible, porque evita o choque e pode enganar os incautos, e porque encurta o risco de se bater de frente e de se pôr tudo a perder. É cordial, portanto. Vive na mesma cultura do empregado que quer estimar e ser estimado como amigo pelo patrão, do pobre que cuida para satisfazer o rico e o chama de doutor, e onde o rico é, geralmente, mimado e melindrado, mas também quer servir e parecer legal, no caso, aos gringos. Reparem, também, como o português cultivado na América é uma língua doce em uma cultura doce nascida da cana-de-açúcar. Não é de dizer as coisas amargas e mal percebe que as guarda para si. Quer agradar como quem oferece caramelos de palavras.

A praxe do eufemismo faz desnudar a alma brasileira o tempo todo.

Por exemplo, a banalização de termos como “moreno”, “de cor”, “jambo”, “canela”, “trigueiro” e tantos outros, para o lugar de “negro”, comprova o quanto somos um país racista, ao considerar que não é bom ter a pele muito escura. Pior: discrimina e nega que o tenha feito. Além do racismo, a nossa prezada hipocrisia.

Um idioma modulado por eufemismos pode acabar produzindo estragos bastante concretos, a partir do momento em que esse artifício linguístico passa a ser encampado pelo jargão político.

O verbo tucanizar surgiu assim que o PSDB começou a “realizar a gestão” do estado de São Paulo, na década de 1990. Um projeto neoliberal não pega muito bem porque é – sem eufemismos – criminoso com o povo mais pobre, que precisa do serviço público. Então, que se chame de social-democracia e que se escondam as canalhices cometidas pelo interminável governo peessedebista em terras paulistas. O exemplo mais eloquente dessa espécie de Novilíngua bandeirante foi, talvez, ter emplacado o termo “crise hídrica” para o recente racionamento de água ocorrido durante mais de dois anos em diversas partes do estado.

Incorporada ao cotidiano do poder, instalada oficialmente em Brasília, ainda que sob a tutela de outro partido da mesma linha, passou a estruturar a comunicação social do governo golpista de Temer da forma mais cínica possível. Assim, explora a expressão “voltar a crescer”, já que não vai dizer “voltar a crescer a distância entre ricos e pobres, porque a renda dos pobres vinha perigosamente aumentando, na última década”. Emprega “equilibrar as contas públicas”, em vez de “congelar por vinte anos os gastos com Saúde e Educação”. “Governar com responsabilidade”, para não falar em “fazer só o que interessa à FIESP e ao latifúndio, e entregar nossas maiores riquezas ao capital externo sob a desculpa de que não somos capazes de administrá-las”. “Modernização das relações de trabalho”, porque “redução ou eliminação de direitos assegurados aos trabalhadores, retrocedendo cem anos na história” não pode ser dito. “Investimento em geração de emprego” como tradução oficial para o inconveniente “cortar os recursos para os projetos sociais e abrir os cofres para os ricos”. “Reforma na previdência” nomeia o “fazer as pessoas trabalharem meio século para se aposentarem”. “Repressão irregular e arbitrária” não configura um regime de exceção, uma Ditadura, não, de forma alguma: trata-se apenas de “ordem para se alcançar o progresso”.

O problema geral, em sua raiz, no entanto, não é o eufemismo em si, como não é o jeitinho ou a cordialidade. O problema primordial, em relação mesmo ao ser brasileiro, é o que pensamos e por que pensamos, o que fazemos e por que fazemos. O que está por trás da nossa dissimulação? Perceber quais valores e interesses moldam nosso caráter e têm escrito nossa História pode, ao menos, começar a nos fazer menos alienados. Mais livres.