Você sabe que a maior parte das pessoas do mundo é pobre? Sabe que não faz sentido manter exclusivamente a sustentabilidade econômica, maquiar a tragédia socioambiental, e seguir produzindo e perpetuando misérias?

Já ouviu falar em Mudanças Climáticas? É claro! E talvez, alguém tenha lhe contado que a maior massa de atingidos pelos eventos climáticos será aquela que vive muito aquém do padrão de consumo, conforto e segurança estabelecido como ideal. É para estes que primeiro faltará alimento, moradia, água e até espaço para plantar… Em todo o planeta, as regiões litorâneas serão as mais atingidas. Mais que uma questão politica de governança, o desenvolvimento dessas regiões sem questionamento e debate sobre este tema é irresponsabilidade!

Sinto uma imensa vergonha por saber que a maioria entre os pobres e desvalidos deste planeta são mulheres com suas crianças! Óbvio que serão as mais atingidas pelos eventos climáticos… São as mulheres do mundo que criam as crianças. São as mulheres que ficam para que os homens saiam atrás de renda. São elas que lidam majoritariamente com a produção familiar de alimentos, são elas que têm jornadas duplas, triplas ou mais… No entanto, são as mulheres que ganham menos e têm as menores oportunidades de emprego e renda. E isto precariza sua agilidade e mobilidade… Não preciso perguntar quem são as pessoas mais expostas aos extremos climáticos cada vez mais frequentes, não é?

O mercado de esmagar Vida, a máquina de destruir natureza, a matriz dessa economia de escassez e opressão depende do consumo para se sustentar. O mercado dos gêneros de primeira necessidade é absolutamente dependente das mulheres. Em todo o mundo e majoritariamente, são elas que assumem a responsabilidade pelo cuidado com a casa, as crianças, os velhos, os animais e, portanto, determinam através da economia doméstica todo do e complicado dos hábitos de consumo e suas implicações quanto à saúde e ao meio ambiente…

Este é um dos motivos pelos quais as mulheres, principalmente, de baixa renda, devem ter preferência no trabalho voltado ao Consumo Crítico. Claro que a abordagem inicial não é ambiental. A conversa sobre Ciclos de Vida dos produtos, geração de efluentes, por exemplo, fica para depois. O que é fundamental no processo de mudança de hábitos é reduzir despesas de quem não tem a renda farta como gostaria. E o fazemos através da substituição de produtos industriais caros e quase sempre de importantes implicações ambientais, por produtos simples, caseiros, baratos, mas funcionais, feitos da forma mais saudável, artesanal e inócua possível – para pessoas e meio ambiente.

Por indicação de um amigo fui visitar um empresário que, imaginava, patrocinaria um projeto de Consumo Crítico focado em mudança de hábitos para famílias de baixa renda residentes numa área próxima ao mangue… Confesso, estava animado.

Óbvio que cheguei de bicicleta. À porta do suntuoso e impessoal casarão de praia adaptado para acolher o escritório num bairro completamente alheio à cidade, Dr. Tomé estacionava o carro… Era um cara até jovem. Mas sisudo, conservador… Assim que nos apresentamos, dissecou minha aparência de cima a baixo, elogiou friamente minha pontualidade, mirou minha velha bicicleta de ferro com um riso contido de competidor, disse que gostava muito de bicicletas, tinha uma com quadro de fibra de carbono, e pedalava pelo bairro quando não havia barro pelas ruas… Pediu à secretária que me levasse à sala de reuniões e me servisse um suco… Depois de uma conversa leve em que enalteceu as belezas da cidade, não sem frisar a importância de sua empresa para o “nosso” desenvolvimento econômico, permitiu que eu começasse a apresentação: – Ainda bem que há pessoas com projetos sociais para ajudar essa gente! Vivem numa miséria de dar dó. Mas não param de ter filhos!… – Vamos ver o que você trouxe?

Minha fala mal começou e logo fui interpelado: – Mudança de Hábitos? Consumo Crítico? Sustentabilidade de Fato? Que conversa é essa? 

Expliquei. Expliquei de novo… E depois da explanação sobre os eventos climáticos expliquei ainda uma vez que, para além das normas legais e inciativas institucionais focadas em sustentabilidade, há muita gente trabalhando na mudança de hábitos de consumo com projetos e práticas ecológicas, tendo em vista não apenas a preservação ambiental, mas o empoderamento da população, maior consciência de consumo e eventual redução de despesas e a… Não me deixou concluir.

– Novo paradigma? Isso é poesia! Pensei que era um projeto sério…

Olhou para o nada como se murmurasse: – Tirem esse maluco daqui!

Visivelmente alterado, disse que as coisas sempre foram assim e não mudariam. – Essa “moda” do meio ambiente vai passar, meu amigo! Fique tranquilo, as coisas não estão a ponto de voltarmos a morar em árvores. Essa conversa de aquecimento é balela! Muitas oportunidades de negócios estão surgindo. A cidade vai crescer. Vocês querem reinventar a roda? Essa gente tem que aprender mesmo é a trabalhar e a comprar. Tem que aprender a separar o lixo e parar de ter filhos. Pronto!

Severo. Irascível. Ensimesmado. Tenso dentro da camisa polo de grife. Decerto, sentia-se um santo diante do pecador. Um imaculado conservador defendendo o “lado certo” da humanidade, as tradições e visões patriarcais de mundo que nos trouxeram ao caos socioambiental atual… O santo do pau oco maldisse e ridicularizou o projeto, o ambientalismo e o ativismo – de todas as maneiras… Às vezes, não vender é um grande feito… Não discuti.

Respaldado em seus dogmas de pedra, na caduca urbanidade maçônica, apoiado nos vícios e corrupções da economia vigente, não entendeu absolutamente nada do que propus. Discutir o quê?… Incrédulo, completamente ignorante sobre o que está se passando no térreo da sociedade, continuou o discurso elevando o tom para a carteirada enquanto eu recolhia meu material para sair: – Eu me esforcei muito para chegar aqui! Eu sou engenheiro civil, administrador de empresas e economista! Eu trabalho com seriedade! Eu sustento minha família! Eu tenho muitas famílias dependendo de mim! Vocês são um bando de rebeldes sem causa!  Moleques! Catam meia dúzia de textos na internet e saem por aí acusando quem age dentro da lei de destruir o meio ambiente! Querem denegrir a imagem de quem conquistou tudo por mérito! Somos nós que geramos os empregos para os miseráveis que votam em vocês! E ainda querem que minha empresa pague para ensinarem essas porcarias? Que comprem seus xampus!

Por trás do olhar laminar, mentia alguma polidez enquanto me tratava por maluco. Não conseguia esconder o desprezo, o rancor, o horror à diferença de visões. E continuou: – Não acredito nessa bobagem de Aquecimento Global! Vocês querem é fazer tumulto! Cadê aquecimento? O clima é cíclico! Isso é papo de vermelhos! Vocês vão ver, não vai subir mar nenhum! Não vai esquentar, não está esquentando, ao contrário! Vocês não provam o que dizem! Não provam! Não provam! Trump vai acabar com essa conversa! Bando de hippies!

Abalado, saí sem cumprimentá-lo, apanhei minha bicicleta e voltei pra casa contra o vento, pela praia, bodejando, ruminando e  lhe dizendo mentalmente tudo que contive…

O surto do tal engenheiro não distou um milímetro do discurso negacionista global. Parece que há uma cartilha distribuída aos empreendedores em geral para que permaneçam alheios ao problema… Em particular, na cidade em que moro, é a tônica principal dos construtores e de seus lacaios na mídia venal. Para eles, nada mudou. O negacionismo é discurso corrente… Não é à toa que por essas bandas é proibido pautar Mudanças Climáticas em qualquer meio. Não se fala no rádio. Não se escreve em jornal. Não se explica em escola. Não se comenta em igreja, muito menos, nas imobiliárias e construtoras…

Mas não é preciso provar mais nada. Quem prova, aliás, é a ciência, em consenso. E não é de hoje… A questão é que para os que lucram com a tragédia socioambiental, sustentabilidade é mero assunto de caixa e de marqueting. Ponto.

Mas o mundo mudou. Está mudando. Os extremos climáticos, registros aqui e ali de elevações consideráveis do nível do mar, ressacas, derretimento de geleiras, clima completamente desregrado, não são mais novidades, ainda que a mídia e as instituições não pautem o assunto com a devida gravidade. Afinal, como explicar para a população consumidora que o modo de vida regrado por essas mesmas instituições, todas dependentes de impostos, publicidade, vendas, todas elas infeccionadas pelo padrão consumista de bem-estar burguês, precisa ser mudado?

– Engraçado; dizia a mim mesmo; machinhos-alfa como esse Tomé têm sido assíduos na devastação ambiental, são entusiastas de um mercado sempre preconceituoso quanto às mulheres. Ele, homem, dono de uma empresa que vive de devastação me colocou para correr porque buscava recursos para tocar um projeto para mulheres de baixa renda… Apesar da dificuldade implícita em qualquer mudança de hábitos, é sempre mais fácil que uma mulher entenda os porquês de meu trabalho que um homem. Não que as mulheres não sejam conservadoras. São. São apegadíssimas às receitas, hábitos, valores. Mas são capazes de experimentar em suas casas, mudanças mais sustentáveis que grandes homens ricos e estudados e informados em suas empresas… Por essas e outras, acredito que o caminho para um Novo Paradigma passe pelo feminino e pelo feminismo.

– E agora, Tomé? Eu me perguntava, ainda irritado e pedalando contra o vento… – Teremos que meter o dedo na chaga planetária para entender que o velho e insustentável mundo macho está esgotado? O que é necessário para que pessoas como você entendam a importância do meio ambiente preservado e a profunda relação de tamanha injustiça social com a devastação? Como explicar racionalmente a obstinados em cólera que oprimir e manter bilhões de entretidos destruindo o planeta não é risco que se corra em sã consciência? Sabe, Tomé, não dá mais pra tratar a ambição cega de vocês como racional!

Vocês querem ver para crer? Mais do que está posto? Não querem crer no consenso científico? Não querem fazer uma leitura sensata das conferências? Mas também não saem de seus escritórios e carros blindados, não frequentam as plantas e animais, não têm sensibilidade para constatar as

mudanças…Então, olhem para os primórdios dos Ciclos de Vida de tudo que estamos consumindo. É passivo pra todo lado! Nosso planeta virou uma usina de destruição de si mesmo!

– Não acredita? Então, olhe para a devastação imposta pela indústria primária, será que devastar longe dos olhos do consumidor melhora alguma coisa, Tomé? Olhe para as grandes corporações… Olhe para o mundo masculino do automóvel, para a indústria do petróleo. Do plástico. Da química. Do medo. Da bomba. Olhe para indústria bélica!… Olhe para o insustentável mundo tão masculino do boi e da soja que está destruindo floresta, cerrado, tudo! Agro é macho, Tomé!

Até quando vão chamar eucaliptais de florestas? Até quando vão brincar de marqueting com os passivos absurdos das têxteis e papeleiras? Até quando vão aplicar tabelinhas de sustentabilidade a essa associação criminosa entre indústria alimentícia e farmacêuticas? E esse mundo urbano tomado de reféns do alimento industrializado, dos OGM e dos transgênicos, o que tem de sustentável? Olhe para o seu mundinho, Tomé, a máquina de devastação da construção civil!

Seu mundinho repleto de privilégios está à beira do colapso! Estou falando do mundo institucional, legal, diplomático, conhecido das grandes corporações e lobbies. O mundo, também masculino da política, dos governos a soldo da iniciativa privada. O mundo do Direito e dos protocolos, todos patriarcais… E não podemos lutar por um mundo mais afetivo, mais humano, mais solidário? Não podemos falar em feminismo, ecofeminismo, ecossocialismo que pra vocês qualquer alternativa à morte é papo de hippie ou comunista?

Você consegue crer, Tomé, que a irracionalidade dessa competição chegou a um grau tão doentio de negação da Vida que estamos em guerra para privatizar a água do planeta? Água, Tomé!

Este é o seu mundo patriarcal. A herança insustentável e vergonhosa do masculino… O Aquecimento Global é a prova maior da incompatibilidade do patriarcado, do machismo, do modo de vida e da moral imposta por esta economia com a Vida! E você resolve o problema dizendo que não acredita?

Enquanto pedalava, mergulhava em apneia nesses pensamentos. Até que parei a bicicleta e, sentado na areia, me perguntei: – Que difícil falar em masculinidade sabendo que foram os homens, os machos da espécie humana — não alienígenas, aparições, deuses imprimindo tábuas com raios — que construíram este mercado de psicopatas…

Em nome da razão e de todas as teorias, nossos economistas e filósofos – todos homens — mais parecem sacerdotes em cólera defendendo dogmas religiosos, como se estivessem numa praça, sobre um caixote, recitando trechos das mais decadentes bíblias. E ameaçam que o colapso do capEtalismo pode ser um colapso civilizatório. Agem como se já não tivessem, pelo capEtalismo, instituído a barbárie… E ameaçam desemprego. E ameaçam quebras. Ameaçam conflitos bélicos… Eles se dizem economistas, eles se dizem políticos. Eles se dizem empreendedores mas não passam de fanáticos religiosos. E ao invés de apontarem o dedo para o alto, chantageiam o mundo com esse câncer do crescimento econômico…

Mundo macho. O mundo de livros patriarcais sagrados sobre deuses machos, teorias de criar desiguais a partir da economia dos machos, bustos de bronze para os machos, a civilização narrada pelos feitos dos machos e confeitada pela teoria política dos machos; guerras de machos, esportes de machos, deuses e santos e teóricos e políticos tão afeitos às próprias onipotências, aos próprios privilégios e poderes patriarcais, que criaram morais acima da Vida!

Sabe, Tomé? Sua teimosia não será pra sempre, não. Logo, você terá que descer desse pedestal, descer do colo das pós-verdades institucionais, flexibilizar e olhar para cá – para o térreo da realidade… Não há mais o que esperar… Muitos de nós já entendemos o que está acontecendo, na prática. O que há para ser feito é gigante. Do tamanho dos hábitos e crenças de bem-estar de sete bilhões de pessoas que habitam a Terra – além de cada uma das formas de vida impactadas por nossas inconsequências.

Antropocentrismo é doença equívoca, Tomé. É patologia patriarcal… A Revolução Industrial que impulsionou esta infecção insustentável é um empreendimento patriarcal, Tomé… Fomos e somos nós, machos da espécie, os principais responsáveis pelo caos socioambiental global. E antes que alguém se exclua, é bom deixar claro: a mente-macho que domina o mundo tem — além de oprimidos — cúmplices, devotxs e admiradxs solidários de todos os gêneros…

Não há o que ver para crer!

A desgraça planetária tem a marca de nossas ereções que nem nós compreendemos bem, tem a cara de nossas projeções viris, Tomé. Tem a digital de nossos delírios de grandeza e as marcas de nossas inseguranças psíquicas mais profundas. E tem o olhar sedutor e a submissão ao macho de cada uma das criaturas que aceitaram essa prisão por escolha ou por falta de escolha… A desgraça tem a cara do medo que impusemos a todos os seres para fazer nossos negócios… Cada negócio restrito ao lucro, cada dilaceração da mata em nome do progresso, cada pingo d’água poluído em nome da produção, cada pedaço de terra cercado de nossos desamores farpados têm nossa assinatura de machos. Não adianta fazer de conta que não temos nada a ver com tanta escassez, tanta insegurança, tanto apego. Fomos nós, homens da espécie, que criamos este mercado em que é preciso cultuar a escassez para garantir valor, é preciso superar, nem que seja matando o outro… Fomos nós e cada um de nós que negou suas visões de mundo para vestir as máscaras duras da normalidade, da moral econômica, dos papéis sociais escritos tão antigamente quanto as sacanagens que fazemos aos nossos corações e a tantos corações que estraçalhamos em nome de poder e grana, Tomé!

E não estou dizendo dos homens pela fisiologia. O homem também é oprimido por essa insanidade machista. Estou dizendo do espírito macho e de todos que o cultuaram e cultuam. Estou dizendo da negação do feminino, do feminino em nós e, portanto, do equilíbrio. Será sina, Tomé? Ou estamos diante da teimosia mais dolosa de que se tem notícias?

Sejamos honestos, se quem criou este deus macho e tosco, esse brucutu sem coração, tivesse mesmo vislumbres sensatos, não teria posto toda a espécie acima da natureza. Muito menos, destruiria todo um planeta em nome de um detalhe fisiológico. Não faz sentido sermos condenados a inimigos da Vida – ou não — por nossos órgãos sexuais… Se aqueles caras que escreveram os livros eleitos como sagrados tivessem a visão, teriam a responsabilidade; enxergariam o desastre socioambiental a que chegaríamos. Mas não… Eram tão toscos e desavisados, tão incipientes com suas confusões “racionais” que sacralizaram uma lei que permite negar a Vida!

E a vida, Tomé, é ciclo. É fluxo. É holística. E é diversa! O oposto da visão linear inconsequente e exclusivista que está roubando as escolhas das próximas gerações em nome de um padrão sincopado de destruição da natureza que serve somente ao lucro!

Você não se envergonha de ter recebido o mundo que recebeu e deixar “isto” como herança?

A natureza, Tomé, nunca foi do ser humano. Muito menos, do macho… Nem a fêmea é do macho. Nem o escravo. Nem o bicho. Nem a planta. Nem coisa alguma da Vida. Porque Vida não pode ter dono, não! A Vida é dos vivos, Tomé. Porque ser dono, a gente só pode ser de coisas. Ponto.

A Vida, não é preciso ver para crer, é a grande deusa, e o patriarcado já provou sua incompetência diante de todos os gênerxs e de todas as espécies!