O Brasil não fez o que deveria ter feito, logo após sua independência, no século XIX: não construiu um país. E, por conta disso, seu povo paga um preço caríssimo. Ao ter preservado a sórdida estrutura social da colônia, quando deveria estar tratando de engendrar o novo, ou seja, uma nação de verdade, legou, aos tempos que se seguiriam, uma espécie de maldição. E essa sina que nos persegue como um pesadelo vivo é a de jamais sair do século XIX. Pelo menos, até aqui tem sido assim. E, aparentemente, de acordo com o que se tem visto, pelos próximos tempos assim será. Até que se perceba que futuro não se faz só com máquinas, estaremos no passado.

Há alguns dias, o Brasil ficou sabendo que há, nesse país, uma “Escola de Princesas”. Criada em Uberlândia (MG) e com uma filial recentemente aberta no principesco bairro de Moema, na cidade de São Paulo, a instituição ensina – sob uma atmosfera devidamente cor-de-rosa – etiqueta, culinária, como arrumar o cabelo e se maquiar, além de organização da casa, a meninas de 4 a 15 anos. O ponto alto é o aprendizado dos valores de uma princesa: humildade, solidariedade e bondade. (Enquanto isso, não custa lembrar, se arrebenta a torto e a direito a Escola de verdade).

Há séculos, e em diversas civilizações, brincar de boneca é um treino feminino para a vida adulta. De acordo com um estudo realizado pela ONG Avante – Educação e Mobilização Social, de Salvador (BA), apenas 3% das bonecas vendidas on-line, no Brasil, são negras. Segundo o IBGE, no entanto, negros e pardos são 53,6% da população brasileira. Além de consagrar a mulher como um humano inferior, cujo papel é estar a serviço do homem, o fenômeno do neoconservadorismo também reverbera uma cultura incontestavelmente racista e escravocrata.

Em um país onde todos os homens querem ser reis, porque se trata de uma sociedade ainda patriarcal, em que o acesso aos privilégios interessa e vale muito mais do que o acesso aos direitos, parece lógico que se estabeleça, às mulheres, o sonho de ser princesa.

O famigerado trinômio “Bela, Recatada e do Lar” vem operando como um cânone para a reprodução em série de mulheres que atendam aos padrões tradicionalistas, tão em voga nos dias atuais. A primeira dama do país, que inspirou a formulação do mote reacionário, reforça, sempre que é possível, o estereótipo da mulher submissa e servil, sob os assíduos aplausos da imprensa. Marcela Temer – a Princesa Elsa dos trópicos – pode ser apontada como um dos símbolos máximos desse fenômeno de retrocesso sistematizado.

É inegável a existência, no tempo atual, de uma potente indústria cultural, cuja produção está centrada nos EUA, mais especificamente na Disney e em Hollywood, e que vem definindo modelos de conduta, universalizando comportamentos e uniformizando valores. Tal modalidade de cultura de massa, vincada especialmente na combinação entre sonhos improváveis e futilidade desgovernada, e disfarçada sob uma estética pretensamente moderna, acaba por nos compelir a reverenciar padrões de beleza que não condizem com nossas identidades étnicas predominantes. O desconhecimento do mundo real e a vida dentro de bolhas sociais – o que vem se tornando cada vez mais banal no Brasil – aprofundam essa relação de colonização da alma.

Se as meninas já se entregavam ao desejo de serem princesas em função da mídia, ou brincando, agora poderão fazê-lo valendo nota, como obrigação, a sério, de forma organizada e regrada – como tudo deve ser hoje em dia. Seria somente patético e constrangedor, se não fosse, sobretudo, triste. Porque o sonho de ser princesa, no fim das contas, é parte de um pesadelo nacional. Não somente para as meninas, que passam a vida a criar uma expectativa que não se cumprirá, a não ser para uma minoria delas; mas, também, porque revigora valores arcaicos e obsoletos que, por exemplo, ao sofisticarem o imperativo de poder do homem sobre a mulher, seguem montando um país devotadamente acorrentado a um passado impiedoso.

Entre todos os relatos de violência contra a mulher, no Brasil, 85% correspondem a situações em ambiente doméstico e familiar. Em mais de 72% dos casos de violência física contra a mulher, os agressores são homens com quem as vítimas mantêm ou mantiveram relação afetiva. A cada 5 mulheres jovens, 3 já sofreram violência em relacionamentos. A cada 7 minutos uma mulher é agredida. No ano passado, se registrou 1 estupro a cada 3 horas. Há poucos dias, a ONG internacional Save The Children revelou um estudo que coloca o Brasil como um dos piores países do mundo para meninas – em função de critérios como casamento infantil, gravidez na adolescência, acesso à educação e mortalidade materna – igualando-nos à Guatemala, Nova Guiné, Sudão e Burundi.  Isso é parte do que o Brasil faz, oficialmente, às suas princesas.