Já disse alguém que o futebol é uma metáfora da vida. Em outras palavras, o futebol é uma imitação da vida. Sempre é possível traçar um paralelo entre o futebol e as mais variadas ações humanas. Política, artes, literatura, psicologia, guerra, amor. Em tudo isso é possível encontrar elementos compatíveis com o “nobre esporte bretão”.

Pensando assim, foi que me veio a seguinte pergunta: e se a malfadada “PEC do fim do mundo”, a 241, que congela gastos governamentais nas áreas de educação e saúde, fosse também aplicada pelos clubes de futebol? Se você, por alguma razão, ainda tem dúvidas do pacote de maldades que esta emenda à Constituição representa, preste atenção no estrago que ela faria caso fosse utilizada no seu amado time do coração.

Primeiro, partindo do pressuposto de que, em um clube de futebol, a educação seria as categorias de base. Durante 20 anos, não seriam feitos aumentos nos investimentos nos departamentos responsáveis pela criação de novos talentos. Ou seja, se o seu clube não vem revelando grandes jogadores para a equipe principal, a tendência é que este quadro se mantenha; caso ele venha revelando, a tendência é que o número de revelações venha a diminuir. A possibilidade do surgimento de novos craques será cada vez menor, e a de outro 7 x 1 cada vez maior.

E na área da saúde, como isso funcionaria? Todo clube grande, que  preze ser chamado assim, deve ter um centro de treinamento com os melhores campos de treinamentos e as mais modernas instalações para preparar os seus atletas. São salas de musculação, clínicas de fisioterapia, piscinas, vestiários, quadras, centros de recreação, departamento médico, refeitórios, alojamentos e muito mais. Todas estas instalações precisam ser constantemente atualizadas e ampliadas, novos investimentos são necessidades frequentes. Mas, como os novos investimentos não seriam permitidos, o melhor que poderia acontecer seria uma manutenção do que já existisse, com uma grande tendência a ficar ultrapassado com o tempo. Agora, se o seu clube nem CT decente tem, a possibilidade de vir a ter um nos próximos 20 anos seria bem pequena.

Centro de treinamento parado no tempo, ou inexistente, categorias de bases incapazes de revelar novos talentos, qual seria a solução para o seu time então? Contratar novos jogadores. Isso também não seria possível, pois o aumento no nível dos investimentos também seria proibido. Então, se você sonha que seu clube irá repatriar aquele meia-direita que está jogando na Rússia, ou contratar aquele centroavante colombiano, destaque na última Libertadores, esqueça, isso não vai acontecer. Você terá que se contentar com a velha fórmula do “bom e barato”. Um barato que geralmente sai caro.

Se a coisa é tão feia assim, perguntas começam a surgir no meio da torcida. O que aconteceu com dinheiro do meu time? Ele sumiu? E as cotas da televisão? E o programa de sócio-torcedor? E a bilheteria dos jogos? E a grana daquele zagueiro do juvenil que foi vendido para a China?

Outra mudança, seu clube virou empresa, e todo valor excedente ao teto de gastos agora vai para os acionistas que compraram ações do time. Não importa o quanto seu clube fature, muito menos a posição na tabela do campeonato, o excedente vai sempre para os acionistas.

Mas por que isto acontece? A justificativa dos dirigentes do seu time é que ele estava endividado, precisando de dinheiro, e que por conta disso se viu obrigado a se transformar em empresa e a vender ações da equipe para criar um capital. E, agora, os dividendos devidos aos acionistas, pela glória do clube, precisam ser honrados regularmente.

O que os dirigentes não contam é que existem outras maneiras de pagar estes dividendos, sem ter que cortar gastos essenciais no futebol do clube. Uma gestão mais profissional, o que geraria um aumento de receita, seria um começo, por exemplo. E por que eles escondem isso?

Primeiro, porque uma administração mais competente implicaria necessariamente a troca de dirigentes. E segundo, porque muitos destes mesmos dirigentes são intimamente ligados aos acionistas do clube, e é de interesse deles que esta dívida do clube se perpetue, e que os mesmos acionistas continuem usufruindo dos juros desta mesma dívida, pouco se importando com o objetivo central de sua equipe, que é o de conquistar títulos.

Já pensou como tudo isso seria ruim para seu time? Agora então, imagina como isso seria para o seu país. O fim do mundo.