O limite da perda de confiança no mercado, no potencial de qualidade da vida urbana; no Estado, deficiente para o povo, mas sempre alerta e a serviço da iniciativa privada; no capEtalismo em si; parece estar muito próximo. No que toca a implicações socioambientais de tudo que está à venda – por óbvio, no conjunto das instituições –, ainda mais, considerando a indiferença geral diante da gravidade dos eventos climáticos a caminho e suas consequências para as populações mais vulneráveis; o limite pode ter passado.

Não bastasse a quebra desse pacto social unilateral com o mercado, há uma perda de sentido generalizada e inevitável na maioria dos corações. Não é preciso ser gênio nem ultrassensível para entender que o troço não é feito pra fazer ninguém feliz, tranquilo, seguro, saudável, livre – ao contrário.

Se vivemos sob o sol da diversidade, sob a vergasta da economia, também faltam referências coletivas comuns. Cada tribo grita do alto de seu paradigma, de sua compreensão, e faz que pertence a um determinado mundo. Opa! Não é um mesmo mundo para todas as tribos? Até que é, deveria ser, mas navegamos pela vida em órbitas tão distintas de formações, informações, linguagens, classes, interesses; carregamos mochilas tão pesadas de preconceitos e pavores da diferença, que não temos mais clareza sequer de que todxs fazemos parte da mesma espécie. O que dizer do pertencimento ao planeta? O que dizer do olhar meramente mercantil sobre os problemas urgentes de nossa casa comum?

A metástase de desconfianças – que uns teimam em reduzir a teorias da conspiração — apenas começa pelo fato de que as pessoas não sabem em que, de fato, estão investindo seu tempo, sua grana, suas vidas quando compram; quais os passivos ambientais que estão financiando com suas escolhas e esforços; que consequências seu consumo impele, e muito menos, qual a qualidade e a eficiência das instituições públicas que seus impostos e taxas sustentam. Mal entendem que são sócias opacas de um paradigma que está caindo de podre, mas defendem o senso comum como sentido maior de abrigo.

Porém, ao largo da normalidade, você já reparou na quantidade de pessoas que buscam trabalhos alternativos, que têm topado fazer ao invés de comprar, plantar em casa, dispensar hábitos seculares e até sair das grandes cidades em busca de uma vida mais simples, limpa, natural e tranquila, plantando parte de seu alimento, bebendo água de verdade, respirando e vivendo de fato?

Já percebeu o intenso movimento de jovens buscando o ativismo, o autoconhecimento e saberes ancestrais mesmo sob pressões de toda ordem? Tem conhecido pessoas que estão experimentando modos de vida desobedientes à economia linear? O que elas descobriram? Que é possível viver de outro modo? Que é possível viver no presente? Que ser alternativo só representa risco ao mercado? Certamente, toda essa gente questionou o paradigma vigente, os papéis sociais tradicionais e decidiu seguir a si mesma. Ao experimentarem, tais pessoas compreenderam que apenas o medo pode detê-los. Quando dizemos “não há fora do sistema”, esquecemos que dentro de nós é do jeito que quisermos!

A experiência nem sempre é uma iniciativa motivada por ímpeto interno. A autorização social é determinante, e por isso mesmo, o consumo é a forma de inclusão social e superação de rejeições à mão. É um ponto firme reconhecido pelo senso comum para muitos que buscam um lastro. Mesmo que seja para amarrar ao pé a bola de ferro da normalidade…

Sempre há os pontos fora da curva, mas a maioria não quer saber de mudar coisa alguma porque confia no que pode nem ser bom, mas é conhecido e aparentemente seguro… O que lhes falta? Decerto, não é apenas informação, mas uma diretriz confiável, capaz de prover critérios para questionar. E se a ordem é obter recursos para consumir, por que as pessoas deixariam de comprar tanta tralha colorida, perfumada, fofa e metida a chique em nome de questionamentos difusos sobre o incerto futuro de seus descendentes?
Pergunte por aí: – Quem já ouviu falar em Aquecimento Global? Aliás, menos. Pergunte: – Quem sabe o que é consumismo?

Poucos estão inteirados. Sei, porque faço essas perguntas em dinâmicas. E quando encontro um público mais antenado, as respostas caem para o outro lado. Gente relativamente informada já sabe que tudo pode virar gás na relativização. Ao falar em mídia, perguntam: – Que mídia? E sobre ciência: – Ciência de quem?

Tudo é questionável. O que é que tem? Ah, estamos exaurindo os recursos naturais do planeta? E daí? Vai faltar água? Quando faltar, a gente pensa… Cito isto e paro por aqui, para não criar uma celeuma com os religiosos que apostam que deus está no controle das Mudanças Climáticas. O mundo está alienado do problema.

No entanto, não faltam informações confiáveis e uma ciência sólida para assimilarmos que, sim, há um processo de Aquecimento Global e, no mínimo, parte dele é de origem antrópica. Não são dados relativizáveis. O tempo perdido com relativizações pode ter custado mais que pensavam aqueles que, presos ao lucro imediato, rosnavam: – Não há consenso!

Não parece óbvio que, se houvesse interesse unânime em mitigar a tragédia socioambiental em que estamos metidos, já estaríamos atordoados de campanhas funcionais contra o consumismo insustentável? Ou será que a economia capEtalista é sustentada pelo supérfluo e mudar nosso modo de produção, trabalho e consumo em nome da sustentabilidade significaria a própria derrocada do sistema?

Pois, se você tem a sensação de que todos os poderes constituídos do mundo lutam por interesses próprios ao debaterem Mudanças Climáticas e Aquecimento Global, não tenha dúvidas – Você é um deles quando consome.

Já disse que, se soubéssemos como é feito cada item que consumimos, voltaríamos a pé e nus para a floresta? Sim, disse e desconfio que muita gente prefira continuar vestida até o pescoço e nada saber, a perder seus mimos.

Todos os dias aparece um novo artigo invalidando um produto ou matéria-prima, um alimento, um modo de produção. Todos os dias, vemos pesquisas e novos estudos apontando riscos no consumo disto ou daquilo, neste ou naquele hábito. Todos os dias, em todas as mídias, efervescem estatísticas apontando a urgência de mudanças. Todos os dias, temos a certeza de que há um protocolo ético esfarelando e implorando por um novo olhar sobre a “lógica” do crescimento infinito, movida pelo questionável lucro a qualquer preço – este ímã sob a bússola de todo empreendedor — que está acabando com as possibilidades de vida no planeta… Mas nada disso exclui o consumidor. Você que confia no mercado quando compra, e paga por isso do seu bolso, é parte do problema e da solução.

Às vezes, penso que nossa solidariedade ao mercado, essa coisa de quem aceita deixar a cidadania para depois da pizza, beira um transtorno psíquico coletivo, uma espécie de farsa social que inclui a dependência material compulsiva, com fortes tendências suicidas – confirmadas pelos sintomas planetários. Entendo, estamos todos narcisicamente insensibilizados para sobreviver. Quem sente mais que a média, surta!… Duros, secos e indiferentes demais para olharmos para além do espelho, parece que estamos imobilizados em nossos entretenimentos e distrações. Mas é inegável – o que estamos deixando como herança é autoexplicativo e dispensa qualquer senso de hereditariedade. Nosso modo de vida é um roubo descarado de futuro!

Não é preciso buscar justificativas nas disputas geopolíticas nem culpar o governo. Pense em seu âmbito, em tudo que você mesmo consome e a relação disso com a água, por exemplo. Nosso maior bem comum é o que há de mais simples, básico, essencial… Sim, falamos da água que você recebe pela torneira; clorada e fluoretada, sem seu consentimento. Pense na água que chega e na água que sai pelos ralos com os resíduos de tudo que você pagou para ter: sabão, gordura, adoçantes, fundos de garrafa, tintura de cabelo, gel de barba, cremes mil, xampus, produtos de limpeza, remédios e tudo mais, tudo escorrendo em direção aos talvez tratamentos que você não vê… Esta forma como tratamos a água é o retrato de nosso modo linear de vida. Fazemos o mesmo com tudo que consumimos. Vem de cá, vai pra lá, e parece que não temos nada com isso.

Vai uma verdade inteira aí?

Nossos hábitos de higiene, efluentes gerados por itens de uso pessoal e doméstico – além dos efluentes industriais e públicos, — são grandes poluidores de águas. Sim! Nós poluímos água com substâncias químicas de todo tipo e não sabemos disso. Intoxicamos nossos lares em nome de um padrão sempre exagerado de limpeza que raramente questionamos. Porque, parece óbvio, quanto mais limpeza, melhor! Só não contam pra gente que é preciso muita água para limpar as quantidades oceânicas de produtos que usamos sem critério algum além do hábito e da publicidade. E não adianta culpar a mãe, a avó, o pai, o tio, a empregada, porque o exagero é imperativo na maioria dos lares capEtalistas… Claro que a indústria tira proveito dos exageros porque não vende higiene, vende volume de produtos.

Há uma verdade e meia sobre higiene a serviço deste mercado. É preciso ter a coragem de dizer que, muito além de quesitos de bem-estar, o pavor de doenças é um grande vendedor que nos rouba o senso e a própria saúde. E, ao contrário do estímulo saudável à imunidade, preconiza uma higiene hospitalar quando estamos lidando apenas com nossos ternos lares. As pessoas confiam, na maior boa-fé, e compram e levam para dentro de suas casas toda a poluição que produzem. Adotam o exagero como regra para despejar pelo ralo. Dão ouvidos a “especialistas” em despertar paranoias. Compram cada um dos infinitos produtos de limpeza disponíveis como crianças ávidas diante da vitrine de doces… Vá às prateleiras e veja a infinidade de tampas dosadoras, mecanismos, graduadores, aromas, cores, texturas, formatos. Repare na sofisticação das embalagens, nos rótulos. Nem parece que são substâncias capazes de matar. Nem parece que conheçamos imundície em tal grau, usos tão específicos e supérfluos. Mais parece que cada sujeira veio de uma galáxia distinta…

Confesso, para mim, é muito difícil lidar com isso sabendo que bicarbonato de sódio e vinagre dão conta da maior parte da higiene pessoal e doméstica e sabendo que um bom suco verde ao dia eleva a imunidade aos céus, dispensando qualquer exagero na higiene… Pior é saber que a guerra pelo controle dos pavores de quem consome é mais intensa que pela preservação da água, nosso melhor e mais importante recurso!

Você já parou para pensar que, dos itens de consumo doméstico, a maior parcela é de produtos geradores de efluentes? Produtos que contaminam a água? Pense aí: higienização e preparo da alimentação, higiene pessoal, produtos estéticos em geral, limpeza doméstica, lavagem do vestuário, banho do cachorro, tintas, vernizes, solventes, inseticidas, excrementos com todos os resíduos dispensados pelo metabolismo, de antibióticos a hormônios, passando por tudo que ingerimos com os alimentos industriais e o corpo não assimila – tudo isso vai pelo ralo misturado à água limpa. E qual a garantia de que possa ser tratado? Como confiar?… É de fugir pra floresta ou não?

Não, nada de fugir para a floresta! Antes, temos que fazer a faxina! E ingressar ao capEtalismo verde! Vamos comprar sabão, detergente, limpa isso, limpa aquilo, desentope isso, lustra aquilo…

E aí, você compra sabões biodegradáveis porque acha que é só despejar no ralo e – pronto! — a água volta a ser como a de uma cachoeira lá na serra? Então, é só fazer um porta-lápis com a embalagem e ter um mundo perfeito…

A galera do marqueting sabe que as pessoas querem dar um jeitinho de garantir seu lugar no céu, querem redimir culpas pelos poluentes que consomem e despejam por aí… Sabem que basta diagramar em vermelho – “biodegradável” com uma florzinha ao lado, carimbar “reciclável” no fundo do pote –  e você confia, compra sem receio, porque está bêbado de senso comum e preocupado com o pouco que sabe… Ninguém quer perguntar pelo óbvio negado aos rótulos…Então, perguntemos: – No conteúdo do frasco, no rótulo e na embalagem, biodegradável é o quê?…A resposta não está no rótulo, nem na embalagem. Nem no conteúdo todo. Olha a meia-verdade aí!

Sabemos que resinas, pigmentos de impressões gráficas, colas, estabilizantes, corantes, essências, conservantes e outras gracinhas industriais não são ou contêm substâncias que não são, e talvez nunca sejam , biodegradáveis… Biodegradável é, tão somente e apenas, a parte da fórmula com maior potencial de inviabilizar a oxigenação da água. E o que é feito do resto? Sim, o cheirinho, a cor, o espessante, o conservante e os “antes” todos? Seguem ralo abaixo, simplesmente. E a embalagem é problema seu, ou seja, da sociedade.

Outro exemplo de lascar? Puxa, você não se cansa?

Os plásticos que se arrogam biodegradáveis são biodegradáveis apenas em determinadas condições, e mesmo assim, não se degradam por completo. A coisa só dá certo em laboratório, mas vende! Os resíduos pelos quais você pagou nunca irão embora do meio ambiente. O melhor a fazer é não comprar, percebe?

Desde as campanhas pelo banimento das sacolas plásticas, o mercado está sendo inundado por versões “biodegradáveis”, “oxi-biodegradáveis”, “fotobiodegradáveis” de sacolas e outras embalagens que não entregam o que vendem na íntegra… No caso das sacolinhas de catar cocô do cachorro, as do supermercado, o que ninguém revela é que o fato de sua degradação ser acelerada por uma substância presente na composição química não evita que seus resíduos permaneçam fragmentados no meio ambiente, contaminando solo, águas e sendo ingeridos pela fauna e, incidentalmente, por pessoas. Ufa! Cansou?

Pera, há mais. Os plásticos biodegradáveis dependem de uma temperatura mínima e constante para serem degradados. Algo em torno de cinquenta graus Celsius. Abaixo disto, ou seja, em temperatura ambiente, submersos, flutuando no oceano, enterrados, nos vãos dos esgotos, parcialmente expostos, são tão plásticos como quaisquer outros e assim permanecem, sendo decompostos em prazos bem mais longos que os propostos nas condições ideais.

E você pensando que as sacolinhas ecológicas do supermercado evitariam que rios, estuários, lagoas, oceanos fossem contaminados e sua compra salvaria as tartarugas marinhas… É. Põe inocência nisso!

O problema não está no tipo de plástico ou em sua degradabilidade, mas no uso farto e irresponsável que fazemos dos plásticos em geral, na banalização de um material caríssimo ao meio ambiente em todos os pontos de seu Ciclo de Vida. E isso varre todo o mercado, cada um dos produtos, das matérias -primas até a provável reciclagem ou despejo no meio ambiente.

Os Ciclos de Vida dos produtos raramente acompanham a velocidade da ciência, os eventos socioambientais e o entendimento dos ativistas da área. E as consciências raramente acompanham a velocidade do mercado… Só que as indústrias seguem planos de investimentos de longo curso, ou seja, talvez, o parque industrial concebido e construído hoje, para dar conta de um mercado estabelecido com a consciência de consumo de hoje, deve estar obsoleto logo, ou seja, continuará produzindo até se pagar e ou permitir investimentos em novas tecnologias. Até lá, o mercado que absorva a produção.

Se o produto obedece apenas aos questionamentos e necessidades de quem o produz, se a legislação é cartelizada, se este mercado não é capaz de responder a outras expectativas, se não está nem aí com o meio ambiente e seu foco é cumprir legislação para vender, como confiar?

Olhe ao redor. Pense na justiça, na tralha política que comanda o espetáculo, no lixo tóxico que ocupa os conteúdos da mídia e me diga, como confiar em tantas versões da verdade, tantas trucagens de vendas, tantas meias-verdades e verdades e meia disponíveis por aí?

Há uma forte tendência de crescimento do ativismo focado em Consumo Crítico. Claro, a maioria em escala virtual e em pequenas redes, ou mesmo em escala individual. Mas há um grande trabalho a ser feito para desfazer as meias-verdades nos lares. Desconstruir mitos impostos pela publicidade, rever culturas e tradições. Grande parte das dinâmicas de consumo trazidas do século XX já se mostra insustentável.

Teremos que crescer e compreender o que há de político no ato de comprar. E reparar que a mesma descrença que nos desampara diante da política oficial, o mesmo desapontamento com a justiça e cada uma de nossas instituições, cabe ao mercado que, afinal, é o que vem drenando nossos sentidos e energias, para além de todos os passivos socioambientais que produz.

Em algum momento, cada um de nós terá que perceber que, desde a grande probabilidade do amendoim da paçoca ser transgênico até o risco de um brinquedo ser pulverizado com bactericida cancerígeno -, a confiança que podemos depositar nos produtos cuja procedência e modo de produção desconhecemos é uma ponderação de “talvezes”.

Talvez, a ração do seu pet seja mesmo só de soja e os aromatizantes e corantes e conservantes não causem alergias… Talvez, o amianto das telhas nem… Talvez, o plástico da mamadeira quando aquecido não… Talvez, os pigmentos da graxa de sua bike sejam… Talvez, o recheio da salsicha tenha… Talvez, aquele pãozinho delicioso… Talvez, seu celular… Neah?

Talvez, a legislação que regula estes produtos seja atual e completa. Talvez, seja fiscalizada e cumprida. Talvez, as pesquisas em que se baseiam estejam defasadas. Talvez, a empresa seja mesmo idônea. Talvez, os artigos e pesquisas a respeito digam a verdade. Talvez, a ciência contratada para desenvolver o produto não seja a melhor fonte. Talvez, o revendedor não seja doido de vender algo que faça mal. Talvez… Talvez, nem haja conspiração. Talvez, estejamos lidando com várias ciências… Talvez, justificadas as paranoias, sobrevivamos à indelicada mão invisível do mercado.

Mas, talvez o ex-funcionário da corporação que denunciou isto e aquilo, diga a verdade. Talvez, o jovenzinho que desconstruiu um hábito ou produto em seu TCC seja um grande cientista, ainda não consagrado. Talvez, o Google não disponha de fontes tão sérias para tudo e haja mais a saber. Talvez, os estudos que comparamos e exigências legais com que contamos sejam insuficientes… Talvez.

Estamos reduzidos a possibilidades, não há respostas prontas… E isso coloca cada um de nós para pensar em formas de confiarmos no que consumimos…