Minha neta não sabe o que é isto. Coisas das minhas memórias. Não tenho mal de Alzheimer e, se tivesse, hoje já existe cura.
Mia… Tenho uma história pra você.
Eu amei um smartphone…
Num passado distante, lacrado com laço vermelho, cor escandalosa do nosso time preferido. Às vezes, vejo flashes, pedaços, recortes.

Mas você, menina, vive a deslizar o dedo no espaço onde nunca imaginei que a tela do computador seria substituída. Escute.
Mia, amei um smartphone como ninguém…
Me lembro…

Foi num lugar cibernético em que encontrei alguém que mudou dias, tardes, noites e madrugadas inteiras por nove semanas.
Remocei dez anos em dez horas! Aprendi tecnologia rapidamente pra falar de amor. Comecei a cantar sonhando, de telefone na mão. Palavra antiga, né?! Telefone…
Mas não era quando eu vivi tudo isto. Nem fotografias e retratos, mas selfie sim é uma palavra bem antiquada para os dias de hoje. Tinha um filme que parecia essa história, temos que ver juntas, minha querida, para você sentir um pouquinho do que falo. Era um vento gigante em mim, por dentro do peito, da cabeça aos pés, corria o ventre e coxas. Deixei até o cabelo crescer e dediquei músicas… e escrevi poemas de amor, de sonhos, de fantasias. Eram dele, os poemas e o ventre, todas as palavras de minha boca e o silêncio também. Emburreci, basbaquei, dei surto, dei curto e paralisei, chorei por mais de um mês. Mentira, chorei muitos meses, num inverno frio que demorou mudar de estação, passou por um natal e por pouco, quase dois. Me curar foi demorado por demais. Foi devastador, mas foi lindo! Brincávamos de “faz de conta”, gostava de mandá-lo passar a noite no jardim, caso contrariada. Numa dessas ele escreveu: “Deixe-me entrar, aqui fora está frio e ainda respondeu divertindo-se “pra lá não volto mais”. A gente ria tanto por aquela fibra óptica, por aquele fio que carregava de energia e paixão o celular, sinal de satélite em que o amor confessou que não podia amar. Que o “raio o parta” então, diabos de enredo doído. Dormi muito pra esquecer uma história interrompida pela vida, literalmente, outro dia te conto esse detalhe bem humano.  Despenteou-me de saudades e lágrimas. Nem uma última vez e adeus, sensação de gente da gente  que gritamos quando desaparecida na multidão. Um barulho infernal que nada diz. Gosto amargo na alma. E eu apenas olhei pra frente e o vi em paz correndo nos parques verdes por fotos, de camisa oficial da Alemanha, jovem, alto, com sorrisos de covinhas e sinais de vida, projetos nos olhos negros em que eu sabia não poder ser incluída mais. Tinha mudado o estilo de vida, parado de fumar. Droga! Aquele lugar virtual era um santuário maldito.

E o que o mundo ia dizer disto naquela época? Em 2020?! Que enlouqueci e com toda razão. Tem histórias que viajam no tempo, são atemporais à modernidade, apesar de que no meu passado ele não ficou. Aliás, ficou numa música que me dedicou, “O retorno de Saturno”.
Ah… Mia…
Cuidado com absolutamente tudo.
Não, por favor, esqueça esse tolo conselho, meu amor!! Não se cuide por demais, pois um dia o que contará para sua neta?! Só quero que você entenda, existimos nas coisas mais improváveis por frações de segundo, mas que se eternizam de tão mágicas que são. Viram eternidade.
Me descuidei e amei um aplicativo.

Sugiro que leiam ouvindo “A noite” de Tiè.