O termo foi empregado pela jornalista Renata Lo Prete, antes das eleições deste domingo (2 de outubro). E acertou.

Vejamos alguns dados em pesquisa aleatória sobre a soma dos votos brancos, votos nulos e abstenções neste pleito.

São Paulo: brancos e abstenções somaram 2,669 milhões de eleitores. Dória obteve 2,661 milhões de votos.

Belo Horizonte: os dois candidatos que disputarão o segundo turno tiveram menos votos juntos que o total de abstenções, nulos e brancos. No pleito realizado hoje (2), João Leite (PSDB) obteve a preferência de 395.952 eleitores e Alexandre Kalil (PHS) 314.845, o que soma 710.797. As abstenções (417.537) e os votos nulos (215.633) e brancos (108.745) totalizaram 741.915.

Belém: abstenções, brancos e nulos somaram 26,98%, próximo dos 29,50% do candidato Edmilson Rodrigues (PSOL), o segundo mais votado (e que estará no segundo turno dessas eleições).

Porto Alegre: brancos, nulos e abstenções chegaram a 34,8%, acima da votação do primeiro colocado. A soma de brancos e nulos disparou 69% em comparação com a eleição de 2012.

Rio de Janeiro: os votos nulos e em branco somam 18,26% do total do eleitorado que foi às urnas neste domingo. O percentual representa alta de 35% em relação aos 13,51% de votos nulos e em branco na eleição de 2012. O índice de abstenção no Rio passou de 20,45% no primeiro turno de 2012 para 24,28%, aumento de 18,7%.

Curitiba: os votos em branco e nulos somaram 13,7% (alta de 35% em relação a 2012). As abstenções cresceram 80%.

Em Sete Lagoas foram 10.183 votos em branco; 19.723 nulos e 26.726 abstenções. Número superior ao do Prefeito eleito, que teve 50.698 votos.

Também foi a eleição do desencanto com o PT

Também foi a eleição do desencanto em relação ao PT. O PT ganhou no primeiro turno no Rio Branco e vai para o segundo turno em Recife. Em São Paulo, teve Suplicy com mais de 270 mil votos, como o mais votado para a Câmara Municipal da capital paulista. E só. Em Belo Horizonte, de 6 vereadores caiu para 2 e o PSOL, que não tinha nenhum, elegeu duas mulheres. Com o PSOL disputando a prefeitura do Rio de Janeiro e Belém no segundo turno, parece que fica claro que: a) não temos mais um partido hegemônico da esquerda no Brasil e; b) o PSOL, em parte, ocupou o lugar que era do PT em vários municípios de grande porte.

Em Minas Gerais, o PT despencou de 98 prefeituras para 4.

No Grande ABC, o PT só tem chances em Santo André e Mauá. Em Santo André, o atual prefeito Carlos Grana (PT) obteve 20% dos votos, contra 36% do candidato Paulo Serra (PSDB). Em Mauá, o prefeito Donisete Braga (PT) ficou com 23% dos votos frente a 47% de Atila Jacomussi (PSB). Em São Bernardo do Campo, o PT deixará o poder depois de oito anos. O mesmo ocorrerá em Diadema.

Nas 16 maiores cidades do nordeste, o PT só aparece em Recife, onde disputará o segundo turno.

PSOL se esboça como esquerda emergente

PSOL emerge, ainda que timidamente, como o partido que ladeia o PT, agora, no campo das esquerdas. Estará em duas capitais disputando o segundo turno. Obteve mais votos para a Câmara Municipal de Belo Horizonte que o PT (a taxa de renovação no parlamento belo-horizontino foi de 56%). Em São Paulo, o PSOL obteve mais votos que o PCdoB.

Em Porto Alegre, a vereadora mais votada da cidade foi do PSOL: Fernanda Melchionna, com 14.630 votos. Na capital gaúcha, serão três os vereadores do partido. A mesma coisa em Belém: Marinor Brito foi a campeã, com 13.997 votos. Lá também serão três vereadores na Câmara.

Em São Paulo serão dois: Toninho Vespoli e Sâmia Bomfim. No Rio serão seis (Tarcísio Motta foi o segundo mais votado na cidade, com mais de 90 mil votos), um deles Leonel Brizola Neto. Em Florianópolis, três (Marquito foi o segundo mais votado na cidade e Afrânio, o terceiro). No Recife e em Natal, um vereador em cada cidade.

Em Niterói, outra mulher do PSOL foi a mais votada: Taliria Petrone. O segundo colocado também é do partido, Paulo Eduardo Gomes.

PT terá que se rever

Tivemos uma importante troca de guarda entre partidos de esquerda e uma expressiva rejeição dos brasileiros à política profissional. O sistema partidário está corroído. E o PT, partido que governou o país por mais de uma década, voltou à crise de 1982. Naquela época, a crise eleitoral gerou a corrente interna Articulação dos 113, que permaneceu (embora trocando de nome) até hoje como majoritária. Parece esgotada.

O correto seria o presidente nacional do partido, Rui Falcão, renunciar ao cargo, como demonstração de responsabilidade pelo fracasso histórico. Não soube conduzir o partido desde 2013. Foi a expressão acabada da arrogância e burocratização do PT. Em 2013, incentivou uma “onda vermelha” em meio às manifestações de junho que custou a agressão a militantes petistas em várias capitais. Não soube responder à prisão de dirigentes petistas no caso do mensalão, nem defender Dilma Rousseff durante o ataque direto que sofreu a partir de 2015. Desmontou a identidade partidária, afastando-a dos movimentos sociais e alimentando um partido dirigido por políticos profissionais, em especial, deputados federais. Transformou a sigla num partido-cartel, totalmente vinculado aos recursos estatais. Rui Falcão preside a maior derrota eleitoral de seu partido. Um fracasso impressionante.

Enfim, se a Era dos Movimentos Sociais terminou com o advento do lulismo, esta eleição parece ter terminado com a Era do Lulismo. Não necessariamente com o personagem Lula, mas com o projeto político baseado na agenda rooseveltiana, no amplo pacto desenvolvimentista e na transformação do PT numa máquina eleitoral, cuja ascensão em termos de eleitorado popular se deu a partir de 2006. Não foi pouco e já está cravado nos livros de história. Assim como não foi pouco a derrota de 2016. O que prova que, na política, nada é muito duradouro. Em dez anos, um partido se viu da glória ao seu maior fracasso. Será obrigado a se repensar.