Sérgio Buarque de Holanda nos alertou sobre a necessidade do brasileiro médio (que José de Souza Martins denominou de “homem simples”) em se sentir íntimo dos que se apresentam como poderosos. Uma espécie de informalidade permanente que faz o outro jogar no seu campo, ao menos por alguns momentos. Isto sempre foi uma característica das campanhas eleitorais municipais no Brasil: o contato direto e a troca de favores. Trata-se de um dos poucos momentos em que o “dono da bola” vai à casa do pobre, do favelado, e até dá a mão ao comerciário que o olha pelo canto dos olhos enquanto passa a caravana festiva, reluzente, o staff composto por jovens de cabelo engomado seguidos por outros, mais jovens, com roupas justas e provocativas, portanto bandeiras pré-fabricadas ao embalo de jingles com músicas do gosto popular (e há quem imagine que o pobre da comunidade não percebe o jogo falso e dissimulado do candidato!).

O que ocorre para a eleição municipal ser assim em nosso imenso império tupiniquim?

Várias pesquisas qualitativas demonstram que o brasileiro “homem simples” não se interessa por eleição ao parlamento. Avalia que nenhum deputado ou senador tem um pingo de cuidado para com ele. São todos membros da elite política distante e empolada.

Mas há um parlamentar que vale a pena: o vereador. Ele reside no bairro onde mora ou alguém do bairro o conhece. Formam-se pontes e redes entre o candidato a vereador (lembremos que nem todos são fortes, o que faz da maioria dos candidatos ao parlamento municipal sonhadores do sucesso individual, assim como o eleitor). Conversa, muita conversa.

Recordo duas situações que me alertaram para este mundo menos teorizado e conceitual. A primeira situação foi em Poços de Caldas. O prefeito, na época um veterinário filiado ao PT, encomendou uma pesquisa para saber o motivo de os mais pobres frequentarem tanto os postos de saúde. O resultado da pesquisa foi: “se sentirem acolhidos pelo cuidado do doutor”. Tempos depois, criei uma metodologia de pesquisa diária, um censo domiciliar contínuo, para avaliação dos cidadãos de um município a respeito do desempenho dos governos locais. Dei o nome de Gestão em Rede (GR). Pois bem, em todos os municípios onde aplicamos este programa o resultado foi singelo e fantástico: a grande maioria pede cuidado. Cuidado com guias e sarjetas, com limpeza urbana, com iluminação. Nada de obras enormes (que os políticos, de esquerda a direita do Brasilzão velho de guerra, teimam em achar que é o esperado pelos eleitores). No caso da saúde, invariavelmente, a demanda não é por programas sofisticados ou hospitais, mas por atendimento mais respeitoso de médicos e enfermeiros. Cuidado.

Este é o fio condutor para entendermos o fenômeno da eleição municipal no Brasil. Raramente é ideologizada ou nacionalizada. É, frequentemente, clientelista. Clientelismo puro na sua mais bem-acabada expressão.

O que me leva a comentar, ainda que de soslaio, certa leitura linear, academicista, de uma parte dos jovens comentaristas das redes sociais brasileiras. Muitos ficam sem entender os motivos para o país se rebelar contra Temer, mas não despejar votos contra os partidos que o apóiam nessas eleições de 2016. Este raciocínio linear revela desconhecimento sobre o Brasil Profundo e ausência total de empatia com o mundo concreto.

O fato é que o eleitor médio não acredita em partidos (somente 5% dos brasileiros, segundo pesquisa sobre confiança nas instituições brasileiras, desenvolvida pela FGV RJ há anos). Não confia. Este é o fio da meada para se entender uma eleição no Brasil.

Muitas pesquisas realizadas recentemente, em favelas ou com beneficiárias do Bolsa Família, corroboram esta lógica popular: partido e políticos profissionais são considerados elite distante e engomada. Coisa de poderosos que são obrigados, de tempos em tempos, a visitar sua comunidade. É nesta hora que se dá o bote.

Assim, não existe exatamente linha reta entre eleição e revolta popular. Porque em eleição municipal não tem espaço para revolta. Só para uma troca entre malandros. O malandro candidato, que se esquecerá de todos após a eleição; e o malandro da comunidade, que sabe que será atendido por assessores, se tiver sorte, se o malandro candidato se eleger.

O raciocínio linear – e academicista – não consegue entender o que ocorre. Uma espécie de conflito cognitivo que, ao contrário do que esperava Piaget, não causa aprendizado. Por ser um raciocínio linear e primário, não consegue entender que o mundo social não é matemático e lógico, mas elíptico, manhoso, contraditório.

É possível alterar esta lógica? Evidentemente. O mundo social não é uma fatalidade. Mas, para alterar, é preciso partir dela e não criar um pensamento mágico à espera do impacto sobre a realidade.

O primeiro passo, evidentemente, é estar presente nas comunidades entre as eleições. Comer o churrasco de final de semana, ouvir samba e funk, tomar o cafezinho da hora, conversar sobre futebol e sobre as mazelas da vida, gargalhar, porque brasileiro ri até da própria desgraça. Estar presente e ser mais um na paisagem. Sem isso, o pensamento mágico continuará existindo, fincado no academicismo, no primarismo da lógica linear, apartado da realidade. E, na próxima eleição, os pensadores mágicos lamentarão, mais uma vez, o motivo de o brasileiro médio não topar elites e qualquer proposta de Estado minimalista (pobre brasileiro odeia esta proposta liberal), mas votar em qualquer um.

A lição final é: o Brasil não é para amadores.