Ela é petista. Não é filiada ao Partido dos Trabalhadores, mas cresceu embalada pelos sonhos que ele representava. Era adolescente em 1989 e ainda se emociona ao ouvir o jingle da campanha de Lula daquele ano. Não é emoção pouca, é visceral, daquele tipo que faz os olhos se encherem d´água e não deixa um pelo deitado no corpo. Votou no PT desde que adquiriu o direito a voto, fez campanha por todos esses anos, celebrou a vitória de Lula em 2002 nas ruas. Celebrou as vitórias sociais dos dois mandatos de Lula, o combate à fome, a redução da miséria. De uns tempos para cá, andava decepcionada com os rumos do governo Dilma, embora mantivesse, em algum cantinho recôndito do cérebro, aquela esperança de tudo se acertar. Ela é de esquerda, generosa, humana, inteligente e anda, como muitos de nós, bastante preocupada.

Sou o marido dela. Filiado ao PSOL, deixei de acreditar no PT há alguns anos. Acho que o Partido dos Trabalhadores cairá, em boa parte, vítima de seus próprios erros. Acredito que as esquerdas precisam superá-lo e seguir em frente. Não vejo, desde um bom tempo para cá, o PT como uma alternativa de esquerda.  Os arranjos com o que há de mais rançoso na política nacional, os conchavos com a banca, a tentativa de conciliação de classes; tudo isso, em tempos de abundância econômica, rendeu bons frutos à custa de dolorosas e, muitas vezes, inaceitáveis concessões. Sabíamos, porém, que, ao fim do ciclo econômico favorável, essas conquistas estariam em xeque, como estão hoje, e que, pelos arranjos traçados, pela política adotada, o próprio Partido dos Trabalhadores, subjugado pelo monstro que alimentou, faria com que os trabalhadores pagassem a conta da crise. O PT acreditou que teria lugar cativo na mesa de jantar da extravagante penthouse do capitalismo, mas não percebeu que, enquanto ele se encantava e se fartava com a variedade de pratos, os convivas, em verdade, torciam o nariz.

Ela, assim como a maior parte dos meus amigos, está tomada por incertezas e angústias paralisantes, sentimentos que compreendo por deles, em grande medida, partilhar. Há a sensação, verdadeira, justificável, de que não se pode apear do mandato uma presidente regularmente eleita, ao menos até que se comprove que ela incorreu em alguma das hipóteses legais que justifiquem o impedimento. Nisso, concordo com a minha companheira e com os meus amigos que, em maior ou menor medida, simpatizam com o Partido dos Trabalhadores. No entanto, apesar de não gostar da minha leitura do momento atual, creio que Dilma será forçada a deixar o governo.

A carga da oposição à direita, fortalecida por setores do judiciário e da mídia, está muito, muito pesada. A marcha de acontecimentos adquiriu uma velocidade antes impensável; o governo parece estar ruindo a passos largos, sendo massacrado a cada tentativa de vir à tona para respirar um pouco. Há a delação de Delcídio Amaral, o pedido de prisão de Lula formulado por membros do Ministério Público de São Paulo, o vazamento televisionado de conversas telefônicas do ex-presidente, a formação da Comissão de Impeachment, a debandada de vários partidos da base aliada para a oposição, o aviso prévio de 30 dias do PMDB, os protestos da oposição de direita, as liminares que impedem Lula de assumir o Ministério da Casa Civil e são, em seguida, cassadas para que depois surja outra liminar impedindo a posse de Lula. A política institucional brasileira foi invadida e dominada pela toga, por rabulices rasteiras, foi televisionada de forma sensacionalista e apimentada por um violento surto de histeria coletiva. Diretórios do PT estão sendo incendiados, invadidos, vandalizados. Pessoas que usam a cor vermelha estão sendo hostilizadas nas ruas. Professores em colégios particulares de Belo Horizonte, segundo me contaram, estão sendo chamados à coordenação por terem posicionamento favorável à manutenção do governo. O clima é claustrofóbico, tenso. A crise parece ter atingido seu ponto culminante, a ponto de travar as possibilidades de análise racional e de dar vazão para a desinformação, para a boataria, para o maniqueísmo, para o medo, para a barbárie, para o que há de pior, enfim, em todos nós.

 Fico a me perguntar, então, que tipo de boa notícia eu poderia dar para ela e para aqueles que, como a minha companheira e muitos de meus melhores amigos, depositaram parcela significativa de suas esperanças em um governo que, hoje, parece moribundo.

A verdade é que, caso o governo caia pelo impeachment, o futuro imediato parece bem pouco auspicioso. A cadeia sucessória da presidência da república é formada por, respectivamente, Temer, Eduardo Cunha, Renan e o único, até agora, livre de processos, citações e suspeitas, o Ministro Ricardo Lewandowski. Qualquer deles que assuma o governo irá levar às últimas consequências a política de arrocho e de cortes de direitos que Dilma, sem sucesso, tentou levar adiante. Qualquer um deles assumirá o governo amparado por um “acordão”, forjado pelas castas políticas tradicionais. Qualquer um deles irá rifar, sem resistência significativa no legislativo, os direitos tão duramente conquistados dos mais pobres. Perto, aliás, do que significam Temer, Cunha e Renan, Dilma, de fato, parece ser a opção menos tétrica, embora, no atual cenário, sua permanência no Planalto seja bastante improvável.

Se, como eu disse alhures, o governo tem sido incapaz de produzir boas notícias para a porção progressista e identificada com a esquerda da população brasileira, é mister que esses setores se organizem para produzi-las em um futuro próximo.

A saída é sim a luta pela democracia, mas não por uma democracia de papel como a inaugurada pela Nova República, que já se mostrou capaz de ceder e esfacelar-se diante do primeiro temporal mais persistente; essa democracia que não alberga nem contempla os setores mais pobres. Essa é a esfarrapada, gasta democracia que nos será oferecida por Temer, caso Dilma venha a cair, e virá embrulhada em um papel de presente tingido da mais escorreita legalidade. Essa democracia não nos serve, ou não nos deveria servir. Devemos, na crise, lutar para aprofundar a democracia, para reconstruí-la sobre bases mais sólidas e não para restaurá-la e preservá-la em seus antigos moldes, com agora, novos e frágeis remendos.

A saída é também é a luta contra a corrupção, mas não contra a corrupção de um partido apenas. A luta deve ser contra o sistema que se alimenta de corrupção, que enseja mais corrupção, que tem a corrupção como condição de existência. A saída é a luta por direitos, mas não para preservar alguns deles diante do ataque incansável da rapina do capital, mas para aprofundá-los, estendê-los.

As esquerdas devem aproveitar de todo o conhecimento sobre o atual funcionamento do estado que nos proporcionou a crise para sair da defensiva, para lutar pelo aprimoramento das instituições, para que se forje um judiciário que não esteja fundado sobre o signo do privilégio e do arbítrio, uma polícia que não seja forjada na criminalização da pobreza, um legislativo que não reduza o Congresso a um mercado persa, um executivo que não seja apenas um síndico do capital e um sistema, enfim, que não possa ser abalado, por exemplo, pela atuação individual de um juiz de primeira instância.

Com a frágil ilusão que tínhamos de legalidade e bom funcionamento das instituições esfacelada, torna-se necessário lutar por pautas, direitos, apresentar propostas, partir para o ataque contra a acomodação conservadora que nos será oferecida como “a saída da crise”.  Não podemos ser viúvos e viúvas enlutados e desiludidos, temos que continuar lutando.

Para tanto, não podemos nos deixar abater pelas sombrias perspectivas de curto prazo. Precisamos, como ensinava Gramsci, unir o pessimismo da razão ao otimismo da vontade. Tentemos sair do pântano. As esquerdas podem estar acuadas, mas não mortas. Continuarão vivas, ainda que o governo caia. Talvez essa seja, na verdade, a boa notícia para o momento: não nos podem e não nos poderão matar.