“O brasileiro tem que ser estudado.” Sem dúvida, uma das frases mais lidas nas redes sociais, nos últimos tempos. Aí, quando se faz isso – em História e Sociologia –, chamam de comunismo e dizem que não vale.

Bem, não importa. Continuaremos tentando.

Muito se tem filosofado sobre o prefeito paulistano João Doria, especialmente para posicioná-lo como uma figura excêntrica que estaria levando certas formas de atuação na administração pública a novos patamares. No entanto, ele nos é, na verdade, muito tipicamente familiar, não só por resgatar o teatro para o fazer político e por reeditar em si mesmo alguns clássicos personagens políticos locais do século passado, mas por encarnar inclusive as últimas atualizações do ser brasileiro.

Não por acaso, a mesma cidade que produziu o prefeito playboy que finge que é gari já havia dado ao mundo um bar playboy chamado Senzala. Não por acaso, fica no mesmo país onde, em pleno 2017, há uma fazenda turística em que os visitantes podem brincar de escravocratas. Ora, é a contrapartida do índio vestido de senador do Império, do Manifesto Antropofágico de Oswald de Andrade. É o outro lado de uma moeda que tem a cara do Neymar com o cabelo pintado de loiro para facilitar sua consagração na categoria de estrela global e poder ser uma espécie de Justin Bieber do futebol. Não é uma maravilha ser de uma terra onde todos podem ser o que bem entendem? Passar-se pelo outro, convenhamos, é um artifício sofisticado, para uma sociedade. O problema é o que isso nos traz. Falando pragmaticamente, o dilema começa com o jogo dos poderosos diante da ascensão dos pobres a uma escala de classe média. A ouriçada resposta dos que não toleram perder suas ancestrais exclusividades. O Brasil, hoje, vive uma reação promovida por suas elites como poucas vezes experimentou – e infelizmente o fenômeno é bastante categórico. Suas cores e clichês berrantes escondem pobreza de espírito, mediocridade cultural e, claro, as suas reais intenções. Escarnecem, espezinham, enganam, e ainda saem dizendo que não. O verdadeiro populismo, esse que usa o povo e então, literalmente, o joga no lixo, é só uma escolha estética para um modo de fazer política fundado no conservadorismo estrutural, na exclusão social e no neoliberalismo mais impiedoso.

Por que justamente a figura do gari, e não outra função própria das camadas subalternas? Talvez porque, no subtexto de tal ato teatral, o higienismo deva operar como uma lição. Contextualizando a cena espetaculosa do prefeito paulistano em sua própria gestão, programa político e – por que não – no projeto de nação de seu partido, até aqui, o que está sendo varrido? O que, exatamente, é o lixo? Gente miserável é a sujeira pesada das ruas em uma cidade de aparências e paranoica por padrões de beleza europeus – sejam eles humanos, arquitetônicos ou da natureza que forem. Quais possibilidades estarão abertas, daqui em diante? As do “índio fingindo de Pitt”, como queria Oswald de Andrade, com suas chapinhas, roupas de marca, produtos de beleza, e todo o arsenal de itens de consumo que serviria para os marginalizados se sentirem menos marginalizados está com os dias contados, basicamente graças às decorrências do golpe de Estado que levou Temer ao poder central do país. Se o sinal está aberto para a casa-grande colocar o povo em seu devido lugar, ao lembrar o que se espera dessa gente sem direitos reais, haverá o tempo em que os varredores de rua possam ocupar a mesa da sala do prefeito no Edifício Matarazzo, em Piratininga?

Gari or not gari, that is the question…