Já são evidentes as manobras de alguns setores empresariais, em especial o financeiro (que apoia explicitamente o ministro Henrique Meirelles), para salvar os dedos – no caso, o plano econômico ultraliberal – já que os anéis se foram – no caso, o desastre inimaginável do governo Temer e sua imagem.

A última tentativa foi a publicização de um vídeo com apresentação do presidente do Itaú-Unibanco em que afirma que os políticos que tramaram o golpe tinham que fazer o que fizeram. O mesmo que em agosto do ano passado afirmava que não havia motivos para afastar Dilma Rousseff. A mera mudança brusca de opinião deste que é um dos maiores líderes empresariais do país demonstra a dificuldade de pensamento estratégico da elite financeira tupiniquim.

O empresariado brasileiro é, hoje, pouco sagaz politicamente e sua imagem pública não se confunde com projetos sociais ou culturais, como o dos EUA. As declarações públicas desta elite econômica parecem acompanhar o rebaixamento cultural e de valores sociais por que passa a sociedade como um todo. A articulação golpista foi evidentemente apressada e descuidada. Sem sofisticação, agudizou a crise de representação e demoliu ainda mais a possibilidade de saída política a partir dos partidos hegemônicos do país. O nível estratosférico da sonegação de grandes empresas tupiniquins (que catapultou o Brasil para o segundo lugar no ranking de sonegações nacionais elaborado pelo Banco Mundial, só perdendo o título mundial para a Rússia, tomada pelas máfias desde o fim do mundo soviético) define o pouco apreço pela ordem pública ou espírito cívico.

A tentativa de salvar os dedos parece articulada com algumas tímidas manchetes dos maiores jornais paulistas, perfazendo o script batido da projeção da “agenda positiva” após momentos de sucessão de notícias desastrosas. Desconhecem as projeções de organismos internacionais como o FMI e o impacto da estiagem sobre a produção de vários “complexos grãos-carnes” do nosso país, com reflexo imediato sobre o custo dos alimentos. Também desdenham a evolução constante da taxa de desemprego. No discurso de um ou outro banqueiro, a inflação deve baixar, o que possibilitará a queda da taxa Selic. Enfim, um discurso sem fundamento no mundo real, mais parecendo uma dança da chuva do século XXI protagonizada por gentios vestidos com seus costumes de corte italiano. Não deixa de ser mais um traço da moral truculenta que dita o que toda uma nação deve suportar ou como deve se comportar.

A baixa qualidade da formulação de uma agenda econômica, remetendo à cantilena dos anos 1990 de diminuição do “custo Brasil”, silogismo pueril para sugerir que os interesses do alto empresariado são os do país como um todo, indica as dificuldades de elaboração das elites econômicas do país. Algo muito distante das tentativas de formulação e diálogo promovidas por José Mindlin, Paulo Francini ou até mesmo Antônio Ermírio de Moraes (mais hábil e sensível que seu irmão). Não temos nem mesmo lideranças empresariais inovadoras e ousadas, mesmo que sem perfil democrático, como foram Mauá e Assis Chateaubriand. Trata-se de uma elite decadente em termos de formulação.

Enfim, vivemos um dos períodos mais rasteiros da elaboração intelectual brasileira, o que garante o agendamento de reunião ministerial para ouvir, em horário de expediente oficial, Alexandre Frota e o MBL, dois expoentes do submundo nacional.

O baixo clero, afinal, é criação dos empresários.