Em 2012, fui convidado pela TVT para fazer uma série de documentários sobre cooperativas que funcionavam em sistema de autogestão no Brasil. Empresas que faliram, e cujos funcionários assumiram o controle. Em geral, empresas familiares, retrógradas e dependentes do Estado, com dívidas monumentais acobertadas por acordos políticos. Metalúrgicas, agrícolas, têxteis, eletroeletrônicas, alimentícias e extrativas.

A mais emblemática era a Usina Catende, em Pernambuco, fundada em 1890, que sob o controle dos trabalhadores desde 1995 se tornou o maior projeto de autogestão do país, sustentando quatro mil famílias. Infelizmente, está desativada desde 2013, com bens sob penhora na Justiça.

Mas como destacar esta sem falar da luta dos carvoeiros de Criciúma, que contou com episódios heroicos, como a do líder grevista que amarrou bananas de dinamite na cintura e enfrentou a PM com um isqueiro na mão? (E fez a polícia recuar, claro). Ou do trabalho árduo dos lavradores de algodão orgânico do sul do Ceará, que é processado no interior de SP e vira peça de roupa em Santa Catarina, formando a cadeia produtiva Justa Trama? E os apicultores da caatinga, no Piauí, que percorrem centenas de quilômetros carregando suas caixas de abelhas para fugir da seca? Ou as cooperativas de crédito rural, espalhadas pelo Brasil? Ou os assentamentos do MST, que produzem alimentos orgânicos que abastecem as creches de municípios como Muqui (ES)?

Tudo é história, e cada qual merece um relato especial. Neste despretensioso ensaio, feito com uma câmera compacta, procurei registrar alguns momentos desses brasileiros que transformaram o próprio trabalho em ato de resistência e motivo de orgulho.

 

 

DANIEL BRAZIL é roteirista e diretor de TV, autor do romance Terno de Reis (ed. Penalux).