A ideia central do projeto fotográfico “amores líquidos, amores lácteos, amores em livre demanda” é expor a descabida sexualização e os tabus que rondam a amamentação em locais públicos como parte da busca pela desconstrução do machismo através da mudança de pequenos hábitos – por estarem intimamente relacionados com as raízes da opressão da mulher.

Não é coincidência que exatamente as mesmas pessoas que condenam a amamentação em público preguem que a mulher deve “se comportar como uma princesa”, ou que “nunca deve transar no primeiro encontro”, ou ainda que se foi estuprada “pediu que isso acontecesse por se vestir com trajes mínimos e não se dar o respeito”; todas estas posturas são consequência direta da forma de nossa sociedade pensar e agir, reprimindo mulheres até o ridículo ponto de refutar nossa própria natureza mamífera.

Para a realização do ensaio fotográfico foram cooptadas oito mamães lactantes, que amamentaram seus rebentos em uma praça e em um bar do bairro de Lourdes em Belo Horizonte, tradicional reduto conservador da alta sociedade da capital mineira.

Muitas das fotos aqui apresentadas são referências imagéticas a dois ensaios anteriores, realizados no mesmo local e que provocaram equivalente indignação de membros da tradicional família mineira – estes envolvendo gestantes em trajes sumários a desfilar pelas ruas, cujo objetivo foi mostrar que o lugar da mulher é onde ela quiser – e com a roupa que lhe convier.

Tal qual esperado, as reações foram as mais variadas: olhares de curiosidade, reprovação e apoio foram flagrados durante todo o trabalho; muitos seguramente disfarçaram seu preconceito, quiçá em função das equipes de TV e de jornais que acompanharam o trajeto fotográfico; assim a postura de muitos homens – valentes na propagação do discurso opressor, mas covardes frente a câmeras e flashes – foi de forçada discrição.

E em absoluto contraste ao caos político e ao absurdo clima de ódio generalizado que permeia o país, o ensaio buscou transmitir amor, muito amor; amor líquido, diga-se – e com sabor de aconchego e de leite materno.

Porque a amamentação em público é mais que um direito materno; é uma necessidade primária dos bebês.

Sexualizar, condenar ou torcer o nariz para esse gesto tão natural, singelo e nobre é, a um só tempo, escancarado sintoma de burrice e cólera.

E atitudes irascíveis é o que menos o mundo – precisamente o mundo que muito em breve será destes pequenos que hoje inocentemente se refestelam em lácteos banquetes – precisa.

Porque “paninho” para amamentar em público, só se for para esconder o preconceito dessa gente hipócrita que, entre odiar e amar, opta espumando pela primeira opção.

 

Ficha técnica:

Idealização, direção e fotografia: Alexandre Périgo.

Making of: Isac Kosminsky .

Direção de figurinos e maquiagem: Paola Lopes.

Mamães participantes: Paola, Thay, Cecília, Tarciane, Natália, Nadia, Jessica e Andreza,