No belíssimo filme Os amantes do Café Flore (2006), que conta a vida de Jean-Paul Sartre e Simone Beauvoir, tem uma cena especial que anuncia parte da ética e do “project de lavie” do referido filósofo.

Em seu primeiro dia em Sorbonne, Sartre propôs uma aula diferente: na sala composta somente de homens, ele pediu que todos os alunos tirassem as camisas e travassem com ele uma luta de boxe.

Sartre bateu um a um sem piedade e ninguém se atreveu a encostar um dedo nele. Quando questionados por que não o fizeram, os alunos responderam: não batemos porque o senhor é professor.

– Primeira aula de hoje: respeitar as instituições engessa o cérebro e impede seu desenvolvimento.

Doravante, por que, após tantos movimentos para proporcionar uma autonomia da razão e do pensamento, ainda somos tão escravos da ignorância, ainda somos compelidos a não pensar por nós mesmos?

Jostein Gaarder, em seu ingênuo O mundo de Sofia (1991), nos disse que somos como crianças que nascem na ponta dos finos pelos do grande coelho branco tirado da cartola do mágico criador do universo, e, à medida que envelhecemos, vamos nos acomodando no fundo da pelagem, deixando de nos maravilhar com a beleza da criação, e perdemos a ousadia de nos questionar a respeito de tudo.

A explicação kantiana do livro Ensaio sobre as doenças da cabeça (1764) me chama mais a atenção: para muitas pessoas, pensar é simplesmente uma impossibilidade. Kant fora elegante em sua descrição. Eu apenas chamo de burrice.

Entretanto, essa afirmação surge com uma nova pergunta: todos nós somos burros ou todos nós escolhemos ser escravos da burrice?

Étienne de La Boétie, em seu Discurso da servidão voluntária (1576), nos sugere que existe uma patologia no ser humano que o movimenta no sentido da sujeição e da submissão.

Acredito que esses três fatores estão de alguma maneira interligados. Por um lado, existe sim uma acomodação do espírito ao longo da vida prática que nos rouba a intrepidez e nos presenteia com o fleuma.

Outrossim, existe um impedimento para muitos de exercer as funções mínimas que garantam ao cérebro o direito de ser chamado de órgão do entendimento. Muitos são apenas imbecis que se satisfazem com a coluna vertebral.

Contudo, La Boétie, no auge dos seus 18 anos, quando escreveu a sua obra capital, nos deu a chave de compressão que move (ou deixa de mover) a humanidade no sentido da subserviência. As pessoas escolhem voluntariamente a escravidão.

Finalizo com um diálogo esperançoso que tive com uma criança de 2 anos e 5 meses, que parece pensar muito mais do que nós.

Ela: Eu quero biscoito.
Eu: Não.
Ela: Por quê?
Eu: Porque não, está quase na hora do jantar, você precisa comer comida de verdade, não biscoito.
Ela: Por quê?
Eu: Porque biscoito é lixo, as pessoas precisam comer coisas saudáveis.
Ela: Por quê?
Eu: Por quê? Porque sim, depois da janta eu te dou biscoito.
Ela: Por quê?
Eu: Ok. Você pode comer biscoito.
Ela: Eu não quero, não gosto mais de biscoito.