Pensar em feminismo hoje significa colocar na ponta do lápis as inúmeras lutas e conquistas que as mulheres, ao se organizar em movimentos sociais, transformaram em direitos.

Torna-se impossível ignorar a relevância de conferências – como as do Cairo, Bandung e Belém do Pará- de cunho internacional e regional que reuniram pessoas dispostas a discutir assuntos pertinentes às mulheres e também pressionar dirigentes e pessoas ligadas aos meios públicos para que implementassem medidas transformadoras para todo o mundo.

A elaboração de leis, o debate público, as manifestações de rua – atualmente, também de meios digitais -, a publicação de periódicos e o desenvolvimento de pesquisas acadêmicas sobre temas concernentes às desigualdades de gênero suscitam importantes mudanças no tecido social.

Apesar de ser fácil reconhecer resistências na mentalidade de pessoas que interpretam tais avanços como desrespeito às normas e tradições, é inegável que atualmente há mais expressividade feminina. Mesmo considerando diferentes vertentes no seio do próprio movimento feminista, algumas demandas fazem parte do que poderia ser visto como uma agenda geral.

Neste sentido, nos referimos a diferentes etapas ou fases do feminismo em que houve atenção específica para determinadas questões: inicialmente, a busca por direito à educação e participação política, marcada pelo sufragismo, encabeçou as estratégias de luta especialmente nos séculos XVIII e XIX; em segundo momento, questões relativas ao trabalho, à sexualidade e à violência ganharam espaço, coincidindo com o ápice do movimento que marcou as décadas de 1960 e 1970.

Máximas daqueles tempos foram e continuam sendo incorporadas por militantes e ativistas, tais como: “O pessoal é político!”, “Meu corpo, minhas regras!”. A centralidade do corpo feminino e o desesperado apelo por respeito diante da manutenção das violações dos direitos humanos das mulheres merecem especial atenção. Sobretudo porque apresenta, mesmo sem esta intenção, desdobramentos complexos e, muitas vezes, contraditórios.

Tomemos como exemplo os bizarros casos de estupro coletivo. Situação presente nos mais diversos lugares do mundo, apresentam distintas interpretações dependendo do componente simbólico e cultural que envolve comunidades com históricos que muitas vezes desconhecemos.

É certo que tais casos precisam ser combatidos e eliminados com força legal e respaldo social, afinal ninguém pode ser exposto a tal tipo de imposição e violação, sendo inegável o papel militante de mulheres e grupos organizados que reforçam a importância do respeito à vontade da mulher perante o ato sexual. A partir disso, cai por terra a ideia de sexo enquanto dever matrimonial, ampliando a noção de estupro para situações antes vistas como compromisso feminino em relações mais ou menos estáveis.

O medo e a incontestável necessidade de lutar por direitos em relação ao corpo perpassam outros contextos, tais como os das conhecidas “cantadas”.  O incômodo e a insegurança de mulheres objetificadas por condições deste tipo apontam para a necessidade de igualdade, a qual causa espanto a tantos quantos veem nisto expressão de simples elogios. Muito bom que os homens saibam identificar os limites e que as mulheres se sintam respaldadas por atitudes que questionam tais lugares-comuns.

A preocupação que nos impele a escrever este texto, no entanto, faz uma viragem no tema que centraliza o corpo e a sexualidade. Diante de tantos e necessários questionamentos, importa refletir sobre como ficam as mulheres que prezam pela exacerbação do uso de seus corpos? Trocando em miúdos, como aceitar que uma mulher queira ser objeto sexual? Que deseje fazer sexo com vários homens e/ou mulheres ao mesmo tempo? Qual o espaço para as “perversões”? Como explicar o consumo de material pornográfico por mulheres? Como compreender, enfim, a prostituição? Seria esta uma violação, um prazer, uma necessidade?

Vemo-nos diante de uma contradição que não pode ser ignorada. Ao mesmo tempo em que se defende a autonomia sexual das mulheres, pouco se discute sobre suas incríveis possibilidades. E ao defendermos com tanto ímpeto este direito, é preciso considerar sua multiplicidade.

Mesmo diante de leituras que se colocam como transgressoras e que emitem intensamente a importância de libertar as mulheres das amarras que as constrangem, há sempre uma abordagem que separa “Evas” e “Marias”. A mulher para “casar” e para “se divertir”. A “mãe” e a “libertina”. Afinal, não são todas mulheres?

O que importa, enfim, é o que de fato desejam as mulheres! Ser Eva ou Maria? Seja qual for a escolha, esta deve ser igualmente respeitada! Até porque entre estes dois modelos de conduta há muitas mulheres de carne e osso que exigem respeito, igualdade e humanidade perante suas escolhas e destinos!