Um salve à fraternidade, irmãos machos!

Escrevo mais este texto, que deve ficar circunscrito aos nossos espaços exclusivos, como os clubes do Bolinha e nossos grupos fechados nas redes sociais – lugares onde fazemos piadinhas sobre mulheres, conversamos sobre quem estamos pegando e trocamos nudes femininos.

Entre nós, irmãos, ainda há muito a ser dito e discutido, especialmente sobre o patriarcado e o machismo. Antes de tudo, é preciso que compreendamos que o patriarcado é um sistema de organização política, econômica, social e religiosa, baseado na autoridade e liderança do homem e que lhe dá o predomínio e privilégios sobre a mulher.

O machismo, irmãos, é o discurso de desigualdade que sustenta o patriarcado e justifica a discriminação pela disseminação da crença de que nós, homens, somos superiores às mulheres. Estas ideias sexistas foram a primeira forma de discriminação da história da humanidade. É isso aí, confrades!

Sabem quando reproduzimos a falácia de que as mulheres são mais “emoção”, enquanto nós, irmãos machos, somos mais “razão”? Então, é uma ideia equivocada e sexista, forjada para justificar ocuparmos os maiores e melhores  remunerados cargos executivos do mercado. Porque, para se tomar decisões importantes dentro das empresas, é essencial o uso da razão, tida como prerrogativa masculina. A emoção não é adequada ao business.  É desta forma que garantimos alguns de nossos privilégios, como melhores cargos e salários. E qual de nós nunca reproduziu falácias como esta?

É indiscutível, irmãos, que o patriarcado e o machismo são devastadores para o sexo feminino. Discriminam, oprimem, suprimem direitos, violentam, matam. No entanto, a nós, machos, não nos cabem apenas os privilégios, mas também o pesado ônus que pagamos e não nos apercebemos dele.

Precisamos conversar sobre isso, irmãos, isto é, o peso e o preço que o patriarcado e o machismo nos cobram. Sofremos enorme pressão com relação à nossa potência sexual. Não podemos falhar. Macho que é macho não brocha. A medida de nossa “macheza”, virilidade, está proporcionalmente ligada à vitalidade de nosso sacrossanto órgão sexual. Somos tão machos quanto o grau de rijeza de nosso pênis. Tornamo-nos escravos da potência sexual.

Há poucas semanas, o promotor Alexandre Couto Joppert, em banca do Ministério Público, disse aos seus interlocutores que um estuprador que “ejacula cinco vezes é um herói”.  Ora, a fala deste irmão é emblemática: revela que a quantidade de ereções e consequentes ejaculações que um macho consegue obter em sua performance sexual pode alçá-lo a um status de “herói”, ou alguém a ser invejado – ainda que seja como executor de um dos crimes mais hediondos e cruéis, o estupro.

Certamente, muitos dirão que foi apenas uma piada de mau gosto do promotor, assim como outras que desmerecem ou desqualificam a mulher, no entanto, é inegável que desvela o quanto damos importância à potência sexual masculina. Piadas e brincadeiras sempre evidenciam mentalidades.

O machismo também nos leva a comportamentos hostis, pois, além da potência sexual, outra forma de provar a masculinidade é por intermédio da “coragem” e da força física. E muitos de nós, machos, apresentamos comportamentos agressivos e violentos para nos impormos.

Com base nos dados do Datasus (Ministério da Saúde), o Instituto Avante Brasil constatou que, dos 52.260 homicídios contabilizados no país em 2010, 47.749 (ou 91,4%) eram de homens. Agredimo-nos e nos matamos porque macho não deve “levar desaforo para casa”, homem que é homem não se acovarda. Assim, irmãos, milhares de nós são enterrados com a própria macheza todos os anos.  Fruto do patriarcado – que nos impele à luta pelo poder – e do machismo.

Irmãos, o sexismo nos torna também escravos da moda. Não, não são as mulheres que a moda escraviza – esta é só mais uma de nossas falácias – e sim a nós. A mulher pode vestir um short curto, ou saia, ou calça; pode se vestir de azul, rosa ou pink; pode usar vestidos, terninhos, etc. Contudo, se nós, machos,  vestirmos um short curto, vestido ou saia, teremos nossa identidade sexual questionada. O mesmo acontecerá se usarmos cores como rosa ou pink. Portanto, nós somos escravos da moda e não as mulheres.

Somos também fortemente cobrados como provedores da família. Um homem que receba um salário menor que sua esposa ou que “troque de papéis”, se dedicando ao cuidado dos filhos e da casa enquanto a mulher sai para trabalhar, será questionado e criticado.

Estas e outras tiranias derivam do patriarcado e do machismo, irmãos. Isto posto, deveríamos todos nos unir aos feminismos no sentido de combatê-los com veemência. O patriarcado e o machismo reprimem, oprimem, violentam, afligem homens e mulheres de maneiras e graus distintos, mas ferem a todos.

Irmãos, esqueçam a discrição que pedi no início deste texto. A luta por uma sociedade mais justa passa, impreterivelmente, pelo combate ao patriarcado e ao machismo. Esta não é uma contenda das mulheres, deve ser de todos nós. É uma questão de lucidez.

Pessoas, uni-vos!