É preciso que tenhamos uma conversa, entre nós, somente entre nós, machos. Que ninguém vaze, pois seríamos expostos a vergonha pública maior do que já passamos ao defendermos o patriarcado e posturas machistas. Mais do que nunca, a fraternidade nos é imprescindível, assim como um profundo exame de consciência.

Irmãos machos, reconheçamos, todos nascemos, crescemos e provavelmente morreremos em uma sociedade essencialmente patriarcal, e quase a totalidade de nós fomos criados dentro de uma cultura familiar machista. Assim, este ranço é muito presente em cada um de nós, ainda que recusemos reconhecê-lo. E é por isto que os feminismos nos incomodam tanto, pois questionam tudo aquilo que nos é naturalizado.

Mas esta conversa entre nós é necessária, digo mais, é imprescindível e inadiável. Afinal, as estatísticas apontam números estarrecedores em relação à violência contra a mulher em nosso país. Todos os dias, em média, mais de 500 mulheres são vítimas de violência, 130 são estupradas e 13 são assassinadas. Os dados de 2014, do 9º Anúario Brasileiro de Segurança Pública, levam em conta apenas os casos que foram registrados em boletins de ocorrência. E as tantas que não registram ocorrência?

Ora, irmãos machos, precisamos conversar. Há, entre nós, os machos profundamente ignorantes, que são aqueles que nivelam os feminismos com o machismo. Não compreendem que a luta das mulheres é por igualdade de direitos, inclusive o direito à vida e à integridade física e psicológica, enquanto nós machos nos agarramos aos nossos privilégios com unhas e dentes.

Estes irmãos são os profundamente misóginos, mas negam veementemente que suas mentalidades e posturas sejam machistas. Acreditam ser uma prerrogativa inalienável do homem fazer piadas sobre o sexo feminino,  ou que cantadas – sejam de que tipo for – são sempre elogio, e que têm direito de tocar o corpo da mulher sem convite prévio, seja uma “leve carícia” nos cabelos, uma passada de mão ou um agarrão mais efusivo.

Caso a mulher recuse ou reaja, agridem-nas verbalmente ou fisicamente. Para estes machos, roupa curta, sorrisinho e balada são convites explícitos para o assédio, afinal foram elas que provocaram, não é mesmo?  Quem veste uma roupa dessas está querendo homem; deu mole; o que fazia num lugar desses?

O termo estupro não faz parte do vocabulário destes irmãos, a não ser quando a vítima é sua mãe, irmã ou filha, e isto se não foi ele mesmo o autor da violência.  ”Ela provocou!” “Ela pediu!” “Ela deu mole!” “Ela queria, só estava fazendo doce!”

Estes irmãos são profundamente marcados pelo ódio e crueldade. Dizem gostar de mulher para reforçar a imagem de macho, mas as objetificam, enxergam e tratam como coisas a serem usadas e nada mais. Para eles os feminismos são coisa do mal,  pois evidenciam o que há de pior em suas personalidades. Estes machos dizem que feministas são mulheres mal comidas e mal resolvidas, que precisam da “bênção” do sacrossanto genital masculino para aplacar os males de seu corpo e alma.

São os machos desprovidos de argumentos, portanto, resta a eles desqualificar os argumentos e a lucidez alheia. Estes irmãos riem das piadas de Rafinha Bastos, Danilo Gentili, ou quando Bolsonaro diz a uma mulher que ela não merece ser estuprada, como se o estupro fosse um prêmio, exigisse merecimento, e não um dos crimes mais cruéis e bárbaros que possa existir.

No entanto, há entre nós, machos, irmãos mais sutis, mais inteligentes e articulados, que tentam desqualificar os feminismos pela exceção. Apegam-se aos discursos equivocados e à inflexibilidade de algumas poucas feministas extremistas, que pregam a morte aos homens ou o direito das mulheres ao uso de armas de fogo para se protegerem, para reprovar as lutas pelos direitos e perpetuar as mentalidades e posturas presentes em todos nós. Colocam todas as feministas num mesmo balaio de equívocos e assim as desqualificam.

Incomodar-se com termos como o neologismo “sororidade” – do latim soror, que significa “irmã”-  é ignorar que a linguagem diz muito sobre nós e nossa cultura. Ora, se fraternidade vem do latim frater, e significa “irmão” – no masculino – por que tentar negar o uso de uma palavra que se adapte ao feminino? Por que despender energia e tempo em tentar refutar argumentos e ideias feministas em vez de juntar-se a elas na luta justíssima pelo direito de igualdade e respeito? Por que não se concentrar no imprescindível e inadiável combate à violência contra a mulher? Não seria muito mais produtivo, irmãos?

Outro termo que tem inquietado estes irmãos machos é o da “cultura do estupro”.  Chegam a admitir o patriarcado e o machismo, mas a cultura do estupro jamais. Confrades, precisamos conversar!

A cultura do estupro existe por estas paragens desde que o Brasil se tornou Brasil, isto é, desde o início da colonização. O próprio termo “miscigenação”, largamente utilizado para explicar a formação social e cultural do país, revela como se deram estas relações.

O mameluco, produto da mistura do europeu e do indígena, era invariavelmente filho do homem português com a mulher índia. O convívio do colonizador com os povos originários passou por diferentes estágios: da parceria comercial para a exploração do pau-brasil à tomada das terras e escravização do indígena para o cultivo da cana-de-açúcar. As mulheres escravizadas eram submetidas sexualmente aos seus senhores.

Com a escravização do negro africano, estas relações foram mantidas e ampliadas. Negras escravizadas eram obrigadas ao sexo com o senhorio e capatazes. Era comum engravidarem de seus senhores e serem submetidas ao aborto para não gerarem crianças que pudessem nascer com a aparência física do pai.

Irmãos, um caso que ilustra bem esta história é o de Francisco Tereziano Fortes de Bustamante, proprietário da Fazenda Santa Clara, em Santa Rita de Jacutinga, Minas Gerais. A fazenda era utilizada para a reprodução de escravos;  cada escravo reprodutor tinha em torno de 9 mulheres, que  davam à luz o seu primeiro filho a redor dos 14 anos de idade. Muitas morriam antes mesmo de completar 18 anos, pois eram usadas como parideiras e, por serem muito novas, não suportavam partos sucessivos.

A esposa do senhor,  Viscondessa de Monte Verde, era estéril; portanto, não lhe deu filhos.  Era hábito de Francisco violentar suas escravizadas; e entre elas, uma era sua preferida e ele chegou a estampar sua efígie na alça do forno do fogão de ferro fundido da cozinha da casa grande.

Não nos esqueçamos das mulheres brancas, irmãos machos. Elas também eram obrigadas a se submeterem aos desejos sexuais de seus maridos. Por vontade ou contra a vontade, tinham de servi-los sexualmente quando eles desejassem. Contra a vontade é estupro, irmãos, seja com um estranho ou com o próprio marido.

Isto posto, fica fácil compreendermos que a cultura do estupro é parte da história do Brasil desde os primórdios de sua colonização. Consequentemente, os feminismos fazem uso do termo com correção. Recordemos que, em média, 130 casos de estupro são registrados todos os dias em nosso país. E todos nós machos temos parcela de culpa nisto. Sejam os irmãos ignorantes, truculentos e cruéis; sejam os que têm gastado mais energia em tentar desqualificar os feminismos por suas exceções e um ou outro equívoco, do que combatendo o patriarcado e suas injustiças, e o machismo e suas graves consequências; todos carregamos ranços machistas oriundos de nossa criação e cultura familiar.

É preciso refletirmos, irmãos.  É preciso conversarmos sobre o tema. É preciso assumirmos nossas mentalidades e posturas machistas, pois só assim as enfrentaremos. Que façamos isso em nossos clubes do Bolinha, nas reuniões para o futebol e a cerveja ou nos grupos das redes sociais. É preciso expormos posturas equivocadas de outros irmãos, ainda que isso gere conflito. E que o bom combate comece em nosso íntimo.

Só não podemos mais aceitar que mulheres sofram violência, que são evidenciadas especialmente quando acontece com alguma pessoa famosa, como Luiza Brunet, e que tenha coragem de expor o caso publicamente; ou quando uma menina sofre um estupro coletivo, que só é descoberto porque os criminosos acham o ato tão normal a ponto de expô-lo nas redes sociais; ou quando mulheres são assassinadas por ciúme, possessão, etc.

Nossos laços de fraternidade sofrem grande abalo quando um irmão se alinha às demandas feministas. Foi assim com o fotógrafo Alexandre Périgo, quando produziu um ensaio com sua esposa grávida, vestindo lingerie nas ruas de Belo Horizonte, ou quando fotografou lactantes amamentando em público -http://www.revistalinguadetrapo.com.br/ensaio-fotografico-amores-liquidos-amores-lacteos-amores-em-livre-demanda-por-alexandre-perigo/. Alexandre foi duramente criticado e ofendido por irmãos machos.

Definitivamente, é preciso que tenhamos esta conversa, entre nós, somente entre nós, machos. Por favor, que ninguém nos exponha a vergonha pública maior do que já passamos. Precisamos de senso crítico. Precisamos refletir sobre nossas mentalidades e comportamentos. Temos de reconhecer que cada ideia e postura machista que reproduzimos, repercute e estimula atos de violência contra as mulheres ou a privação de seus direitos.

Só os feminismos salvam, inclusive a nós.Captura de Tela 2016-07-03 às 21.25.46