Desta vez minha coluna semanal vem na forma de entrevista com minha dileta amiga Divina de Jesus Scarpin que, pese-se seu nome, é uma ateísta engajada. E esse engajamento rendeu um livro pra lá de interessante e provocador, cujo título “Deus não existe – e eu posso provar” fala muito sobre as convicções de sua autora.
Divina de Jesus Scarpim tem 57 anos e nasceu em Monte Aprazível, interior de São Paulo. Passou infância, adolescência e juventude no ABC paulista, estudou em escola pública, formou-se em letras na Fundação Santo André, e se tornou professora. Casou-se e mudou pro Rio de Janeiro, com “escala” de sete meses em Vigo, na Espanha e de três meses em Paris, França. No Rio de Janeiro, prestou concurso para professora do Estado e passou em primeiro lugar. Fez pós-graduação em literatura, docência do ensino superior e filosofia. Voltou a São Paulo há dois anos, prestou novo concurso e recomeçou a lecionar em escola pública do Estado. Sempre gostou de ler e escrever e descobriu-se recentemente uma aficionada por escritos que debatem temas polêmicos. Adora “discutir” usando a palavra escrita. Depois de ler a bíblia de capa a capa duas vezes, concluiu que deus não merecia seu amor e que Jesus não era assim tão perfeito. Leu livros de pensadores religiosos e de pensadores ateus e se entendeu como uma ateia cada vez mais convicta. E foi com esse arcabouço que escreveu o livro que conduz nossa entrevista

Revista LT: Divina, seu livro é sobre ateísmo. Como você definiria sua relação com as religiões ao longo da vida?
Divina: Pelo meu nome acho que dá pra perceber que foi bastante íntima, pelo menos com o cristianismo. Minha mãe dizia que tenho Jesus no nome porque ele é meu padrinho… e eu acreditava!
Revista LT: Quando e como o ateísmo tomou corpo em seu modo de enxergar o mundo?
Divina: Minha descrença começou quando li a bíblia aos 15 anos, mas o ateísmo demorou um pouco mais. Eu não conhecia nenhum ateu, demorei muito para ler a respeito. Acho que foi lá pelos anos 1990 que comecei a ficar mais crítica em meus textos (que não publicava). Depois conheci o antigo Orkut e lá encontrei outros ateus e comecei a perceber MESMO que eu era exatamente assim.
Revista LT: Quanto descobrir-se ateia impactou em sua vida cotidiana?
Divina: Sou professora e demorei alguns anos para ter coragem de me assumir ateia em sala de aula. Só fiz isso com mais segurança depois que parei de dar aulas em escolas particulares e fiquei só com escolas públicas. Nas escolas particulares há sempre o receio de perder o emprego.
Revista LT: De ateu para ateu, afirmo: o título de seu livro é provocador e ambicioso! Como provar a inexistência de deus sem empurrar o ônus da prova da existência divina aos teístas? 
Divina: Acho que usando a lógica. É claro que o “bom religioso” não vai aceitar essa lógica, mas foi o que usei. E, para instigá-los a pensar, coloquei o desafio da contracapa.
Revista LT: Quanto tempo você levou para escrever o livro? Nos conte um pouco sobre seu processo de produção literária, tão particular de cada escritor…
Divina: Primeiro fiz meu TCC com o título “O problema do mal e o paradoxo da existência de deus” para o final da minha pós-graduação em filosofia. Trabalho esse que um amigo meu transformou em e-book e que está na rede gratuitamente para quem quiser (o link está aqui). Depois de escrever o TCC, durante mais ou menos uns dois ou três anos, fiquei “ampliando” aquele texto e lendo mais até ter muitas páginas e me parecer completo. Daí comecei a tentar publicá-lo, até que encontrei um editor que mostrou um real interesse pelo meu texto. E aí está ele!
Revista LT: Divina, vivemos em um estado que de laico só possui o nome; como conduzir a luta para tornar o laicismo real no Brasil? Será que os religiosos percebem a importância de um estado laico para proteger suas próprias crenças?
Divina: Acho que a maioria, infelizmente, não percebe não. O que faço, no meu trabalho de formiguinha, é tratar o tema intolerância religiosa em minhas aulas e sempre, em qualquer lugar e com qualquer pessoa, se puder e não for escorraçada, falar não sobre o ateísmo mas sobre a necessidade do respeito ao outro, às suas crenças e descrenças. Acho que não posso fazer muito mais do que isso, mas tenho esperança de que esse livro ajude.
Revista LT: Na sua opinião é juto traçar um paralelo entre a discriminação sofrida por ateus e a discriminação da mulher?
Divina: Ah, sim. Em geral os religiosos intolerantes que demonizam os ateus e outras religiões que não a deles são também homofóbicos, machistas e misóginos. E mesmo aqueles que deixaram de ser religiosos, são preconceituosos assim por conta dos resquícios da religião que trazem e do qual não puderam, ou não quiseram, se livrar.
Revista LT: Como serão as atividades de divulgação de seu livro? Onde podemos adquiri-lo?
Divina: A divulgação está sendo feita no site da editora e eu e o editor fazemos um pouco mais pelo Facebook. Estamos tentando encontrar um lugar adequado em São Paulo para fazer um lançamento, com noite de autógrafo e tudo! mas ainda não fechamos nenhum. Ah, eis o site da editora, com o meu livro.
Revista LT: Você já tem outro livro em mente? 
Divina: Na verdade tenho dois. 
Revista LT: E a temática será a mesma?
Divina: Um é um livro infantil e, claro, não fala nada sobre ateísmo, embora, se pensar bem, tem um mundo que está em consonância com uma negação do tal “paraíso” cristão, que de paraíso não me parece ter nada. Mas o outro é um livro de contos e em vários deles o tema irreligiosidade está presente na trama. E está porque a criação dos contos muitas vezes foi resultado das minhas tentativas de imaginar um mundo que fosse tão melhor que mostraria que o Millôr Fernandes estava muito certo quando escreveu: “Se tudo isso que está aí é realmente obra de um Deus Todo-poderoso, que patife!”