Gregório Bacic é jornalista, documentarista e escritor; um dos concebedores e diretor do programa “Provocações”, da TV Cultura de São Paulo. Criou e dirigiu também o documentário “Retrato de classe” (1977). Dirigiu ainda o Departamento de Jornalismo da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, foi Diretor Geral de Programas Educacionais da TV Cultura de São Paulo, Diretor de Tecnologia Educacional da TV Educativa do Rio de Janeiro e Diretor de Produção da TV Escola do Ministério da Educação. Participou como autor de parte da telenovela “Mandacaru”. Como docente, lecionou Direção em curso de aperfeiçoamento de diretores da Televisão Pública de Angola, em Luanda. É o criador e diretor da Mostra Paulista de Cinema Nordestino, que ocorre anualmente na periferia da capital e no interior do Estado de São Paulo. E é ele o entrevistado da semana.

Revista LT: Gostaria de, em nome da revista Língua de Trapo, agradecer a sua atenção. É uma honra ter a oportunidade de dialogar com alguém com a sua importância tanto pra arte de maneira geral, quanto para a mídia. Neste sentido, gostaria de lhe perguntar, como você vê o papel da mídia no Brasil hoje?

Gregório: A mídia, coletivo de jornais, revistas, emissoras de rádio e de televisão, é antes de tudo um conjunto de empresas privadas que como tal se comporta. Para fidelizar consumidores usuais e atrair os ainda não fidelizados, basta uma manchete, um subtítulo e a idéia intrínseca de que a ética mora aqui. Numa sociedade como a deste início de século, em que imperam a propaganda e o marketing, em que idéias são para ser vendidas e pessoas são para consumir qualquer coisa, o que esperar?

Revista LT: Algumas mídias justificam a sua postura parcial argumentando que os veículos midiáticos têm um dever além da informação propriamente dita. Dizem entre linhas, é claro, que é sua responsabilidade conduzir a população quando ela não é capaz de pensar por si própria. O que você pensa sobre isso?

Gregório: Isso me lembra o que disse um dia Miguel de Unamuno: “Escreve tua palavra e segue teu caminho, deixando que as pessoas a roam até o osso”. Tenho sérias dúvidas de que os donos desses veículos – se é que chegaram a dizer isso – prefiram um dia trocar essa responsabilidade de condução tirânica das pessoas pela educação da população. Educação que, neste caso, não deve se limitar à mera escolarização. É preciso que as pessoas interajam criticamente com o que topam pela frente. Que aprendam a fazer a análise do discurso manipulador e deixem de roê-lo até o osso.

Revista LT: A TV Escola foi um canal para parabólicas, posteriormente para cabo e assinaturas, criada para o desenvolvimento do aprendizado e para a capacitação dos professores no país. Que razões motivaram a sua criação? Quais foram as principais de dificuldades para a realização do projeto, e, na sua concepção, qual seu balanço?

Gregório: Participei dos primórdios da TV Escola, quando ainda se falava em parabólicas, videocassetes e na urgência de que chegasse aos milhares de escolas do país. Minha proposta, derrotada, era a de viabilização do alcance das TVs públicas estaduais e de sua integração numa rede nacional que transmitisse a programação. Considerou-se inviável a idéia por conta de que os Estados tinham suas particularidades político-partidárias e o governo federal tinha pressa.

Quanto ao balanço, deixo-o por conta dos professores.

Revista LT:  Goethe, em seu Fausto de 1808, inicia seu prólogo com uma crítica sobre a importância da arte e sobre sua comercialidade na idade moderna. Você acha que discutir temas importantes para a formação da sociedade, como arte, comportamento e política, imbuídos dentro da proposta de educação em canais midiáticos, não tem muito espaço? Ou na verdade nunca tiveram?

Gregório: Cultura antes de tudo. Educação logo em seguida. São coisas diferentes, mas cheias de afinidades. Não têm muito espaço na mídia porque são tidas – sobretudo a Cultura – como uma espécie de perfumaria lírica sem sustentabilidade econômica. Não me refiro, claro, a seu viés de entretenimento, cujos aportes de mercado lhe garantem vida eterna.

Revista LT: Você dirigiu em 1977 o documentário “Retrato de classe”, que identificava um perfil para a classe média brasileira. O que mudou em relação a essa faixa da população até os dias atuais?

Gregório: “Retrato de Classe” quis mostrar (e acho que conseguiu) o que as pessoas fazem e deixam fazer de suas vidas. O recorte foi de classe média, aquela em que, juntos, o fazer e o deixar fazer me pareciam mais pulsantes que no teto e no solo da sociedade em que vivíamos. Creio que hoje, mesmo contemplados alguns avanços no campo dos direitos humanos, a classe média continua mais ou menos a mesma coisa.

Revista LT: Você concorda, como disse o sociólogo Darcy Ribeiro, que a mentalidade da classe média brasileira produz um atraso para o avanço do país?

Gregório: Para os que têm pouco mais que muitos e muito menos que alguns poucos, a vida é uma árdua luta de afirmação. De imposição aos muitos e submissão aos poucos. É um traço de reação para baixo e conservadorismo para cima.

Revista LT: Você criou e dirigiu ao lado do Abujamra um dos programas mais longos e inviáveis da televisão brasileira. Em meio a essa mídia do entretenimento da que preza pela “burrificação” da sociedade, que prima pela produção e pela manutenção de “Homer Simpsons”, como você avalia o resultado de um programa como “Provocações”, que tentou elevar o nível de reflexão do público? (inverti a ordem por questão de clareza)

Gregório: “Provocações” foi, antes de tudo, um programa de idéias. Não nos interessávamos pelos títulos dos entrevistados, mas por sua forma de ver o Brasil, o mundo, as pessoas e as coisas. Não nos interessava a presença do entrevistado na mídia, mas no esquecimento. Não suas certezas, mas suas dúvidas. Não seus grandes planos, mas suas pequenas preocupações. Foi o único programa de entrevistas da televisão brasileira a receber no estúdio, num mesmo dia, empresários e moradores de rua. E o único a dar destaque à poesia, então virtualmente expulsa do meio. Um programa de pouca (mas qualificada) audiência nas escolas e nas periferias. Um programa de prestígio.

 Antonio Abujamra e Gregório Bacic, a dupla responsável pelo sucesso de “Provocações”

Revista LT: Qual a sua leitura para o que está acontecendo na esfera política brasileira?

Gregório: A ideia original é a de afastar do poder recém-chegados históricos antes que, por força das urnas, nele permaneçam até meados dos anos 20. A mídia cuida de destroçar popularidades, o resto fica por conta de moralistas e de estarrecidos. Mas, antes de tudo, está o combate ao aprofundamento das políticas sociais nos países do continente já não completamente alinhados com Washington. Nada de essencialmente novo na América Latina. A ópera-bufa em que, com o tempo, tudo se transformou me faz lembrar do humorista peruano Sofocleto dizendo que “golpe de estado é a arte de se levantar a tempo”. O Paraguai resolveu isso em uma hora. Aqui levará mais tempo.

Revista LT: Quais as melhores e as piores consequências de tudo isto?

Gregório: As melhores e completamente improváveis seriam reformas de base que transformassem o país, reduzindo as diferenças sociais. As piores são as que já estão aí: o preconceito e o ódio amanhecidos na alma de alguns setores da classe média. Para citar apenas um entre centenas de maus exemplos: vi outro dia na internet um vídeo em que um educador físico, marchando “pela democracia” na Avenida Paulista, dizia que pessoas com dificuldades de inserção social, os deficientes, teriam de ser eliminadas por injeções letais logo ao nascer.

Revista LT: Concluindo a nossa entrevista, artistas, professores e intelectuais dizem que não houve muitas mudanças em relação ao golpe de 64. A maior diferença é que este está sendo conduzido pela mídia e pelo judiciário em vez do exército. Você acredita que eles conseguirão?

Gregório: Dizia o Marquês de Maricá que “uma boa Constituição liberal é aquela que serve para oprimir os bons e absolver os maus”. A velha UDN sabe disso. Conseguirá? Parece que sim.