Eis a íntegra, amigos, da minha última entrevista de emprego. Como vocês podem ver, a psicóloga tentou me pegar de todo jeito, mas acho que me saí bem. Tô esperançoso de ser chamado.

ELA: Rodrigo, não é?

EU: César Dias.

ELA: Então, Rodrigo, analisando aqui o seu currículo, tô vendo que você trabalhou em muitos lugares. Diz aqui, por exemplo, que você começou trabalhando num bar coletando tampinhas. Me fale um pouco mais desse trabalho.

EU: Não era nada de mais. Eu recolhia as tampinhas das garrafas de refrigerante que ficavam no chão.

ELA: Pra quê?

EU: Não sei. O Nereu me pagava pra fazer isso, mas nunca me explicou por que precisava das tampinhas.

ELA: Algum palpite?

EU: Não sei… Vejamos… Ah sim… Na época, as garrafas de refrigerante não eram de plástico como hoje. Eram de vidro e as tampinhas eram cheias de dentes. Os pais, quando queriam castigar os filhos, punham os pestinhas de joelho em cima delas. O Nereu era severo com os filhos. Punia-os sem dó. Então pode ser isso.

ELA: Entendo… E tá escrito aqui no seu currículo que, depois do bar do Nereu, você também trabalhou no Bordel da Francisquinha, onde era espectador e usuário. Como assim, Rodrigo? Me explica isso direito.

EU: Bem, como espectador, eu tentava aprender como os homens faziam pra paquerar as mulheres. Como usuário, aprendia a ser homem.

ELA: E aprendeu?

EU: Segundo a opinião das minhas ex-namoradas, parece que sim.

ELA: De todas?

EU: Você sabe… Nunca há unaminidade. Nem todo mundo fica satisfeito com o que a gente faz.

ELA: E quem ficou insatisfeita?

EU: A minha última namorada, por exemplo, não gostava muito do meu desempenho.

ELA: Ela chegou a te falar isso?

EU: Não precisava. Dava pra ver pela cara que ela fazia depois do sexo.

ELA: Que cara?

EU: De cu.

ENTREVISTADOR: Isso te chateava?

EU: Até que não. Ela também não me satisfazia na cama. Então dava empate.

ELA: E por que ela não te satisfazia?

EU: Ela era muito pudica. Não gostava de nada além do papai-e-mamãe.

ELA: Sei… Aqui também diz que você trabalhou num escritório de advocacia, como datilógrafo. Confere?

EU: Confere.

ELA: Devo então supor que você digita rápido…

EU: Na verdade, eu já fui rápido, mas aí perdi a prática.

ELA: Você então é daquele tipo que cata as palavras?

EU: Exato.

ELA: Depois do escritório de advocacia, você foi trabalhar numa cervejaria, onde foi provador de cerveja. É isso mesmo?

EU: Ã-ham.

ELA: E de que horas a que horas você trabalhava?

EU: Das oito da manhã às seis da tarde.

ELA: E quantos copos de cerveja você tomava num dia?

EU: Cerca de 450.

ELA: 450?

EU: Pelas minhas estimativas é.

ELA: E você trabalhou lá de 1992 a 2012. 20 anos, portanto…

EU: Foi o que deu pra agüentar, né. Mais que isso era impossível.

ELA: Evidente… Herdou algum problema de saúde por causa desse trabalho?

EU: Sim, pancreatite, cirrose hepática e pneumopatia aguda.

ELA: Meu Deus! Como você ainda tá vivo?

EU: Não faço ideia.

ELA: E quanto tempo você acha que vai continuar assim?

EU: Vivo?

ELA: É.

EU: Não sei. Pode ser que eu sofra um colapso daqui a pouco. Ou pode ser que não.

ELA: Entendo… Também tô vendo aqui que você fez vários cursos. Desentupidor de pias, medicina por correspondência, limpador de trilhos… Como você acha que isso pode ajudar no seu trabalho aqui na empresa?

EU: Não pode.

ELA: Claro, claro… Você sabe operar um computador?

EU: Não, senhora.

ELA: Então você não fez a transição da máquina de escrever pro computador?

EU: Não.

ELA: E você tem carteira de motorista?

EU: Também não.

ELA: “Também” por quê?

EU: Porque eu não tenho muitas outras coisas.

ELA: Tô vendo… RG roubado, CPF não recadastrado, título de eleitor perdido, sem certificado de reservista… Escuta, Rodrigo, por que você quer trabalhar na nossa empresa?

EU: Porque nenhuma outra abriu vaga.

ELA: E se outra tivesse aberto vagas, você teria escolhido a nossa empresa?

EU: Não sei. Isso dependeria do salário que eles iriam me oferecer.

ELA: Foi bom você tocar neste assunto. Aqui no seu currículo, na pretensão salarial, você diz que gostaria de ganhar 12 mil reais por mês, confere?

EU: Não só isso.

ELA: Claro… Além dos 12 mil reais, você também quer receber vale-transporte, auxílio-moradia, auxílio-doença, auxílio-psicológico, auxílio-odontológico, auxílio-gás e cesta básica…

EU: Pelo menos isso, né, pra ir começando. Não se pode exigir muito no início. O resto vem com o tempo.

ELA: Que resto?

EU: Você sabe: 14º, 15º e férias três vezes ao ano, de 90 dias cada.

ELA: Sei… Me diga uma qualidade sua, Rodrigo.

EU: Tenho muitas: sou objetivo, pontual, assíduo, asseado, responsável, prudente, inteligente, bem-humorado, sociável, competente, perspicaz, dinâmico e espontâneo.

ELA: Agora um defeito.

EU: Defeito? Hum… deixa eu ver… É… é… hum…

ELA: Você não tem defeitos, Rodrigo?

EU: Bem, eu tenho um pinto pequeno.

ELA: E por que isso seria um defeito?

EU: Vocês mulheres não levam isso em conta?

ELA: Claro que não! Isso é irrelevante pra nós. E por que você acha que isso poderia atrapalhá-lo aqui?

EU: Deixa pra lá. Bobagem minha.

ELA: Tá, mas você tem outros defeitos, né?

EU: Outros defeitos?

ELA: Quem sabe a imodéstia…

EU: Não, não, eu me considero bastante modesto.

ELA: Tem certeza?

EU: Tenho sim. É difícil encontrar alguém que, com todas as minhas qualidades, seja tão modesto quanto eu.

ELA: Sei.

EU: Bom, se eu tenho outro defeito, talvez seja a minha irascibilidade.

ELA: Hum, você fica com raiva à toa?

EU: À toa não. Eu sempre tenho um bom motivo.

ELA: E o que deixa você com raiva?

EU: Gente que fica me perguntando as coisas. Isso me aborrece pacas.

ELA: Entendo… Você não gosta de gente que pergunta demais?

EU: Nada, nada…

ELA: E como você faz para conviver com as mulheres?

EU: Bom, com as minhas ex-namoradas, eu tentava falar o mínimo possível, que era pra dar o exemplo.

ELA: E elas entendiam?

EU: Não. Elas aproveitavam o meu silêncio para falar ainda mais.

ELA: E como você fazia para suportar a ladainha?

EU: Eu botava um pequeno tampão no ouvido, sem que elas vissem.

ELA: E alguma delas chegou a descobrir?

EU: Que eu saiba não.

ELA: Tem certeza?

EU: Não.

ELA: Bem, Rodrigo, então é isso. Eu vou analisar o seu currículo, a sua entrevista, e qualquer coisa entro em contato.

EU: Demora muito?

ELA: Não, é rápido. Até o mês que vem eu telefono pra avisar.

EU: E se surgir uma oportunidade de emprego nesse período? Devo assumir ou devo ficar esperando?

ELA: Quanto a isso, não posso opinar. A decisão é sua.

EU: Nesse caso, vou tentar fazer a melhor escolha.

ELA: Muito obrigada, Rodrigo. Boa sorte.

EU: Obrigado, até mais.