“O impeachment foi pelos acertos, viram que éramos solução”

A cor da pele agrava a exclusão. Se a saúde fracassa no país, a primeira vítima é a família negra pobre.



O ex-presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, o petista Nilmário Miranda, deputado federal e estadual por três mandatos, tinha aceitado o convite para trabalhar no Mercosul quando o governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel, o convidou para assumir a Secretaria de Estado de Direitos Humanos, Participação Social e Cidadania.
É um trabalho que visa à preservação da inclusão social, em âmbito estadual, contrastando com os direitos reduzidos pelo governo Michel Temer, como a extinção do Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e outras conquistas. Vai ao encontro de uma filosofia mundial que dá visibilidade ao “feminismo popular”, afrodescendentes, LBGT, índios, sem-terra e outros grupos.
Atualmente, nos fins de semana, Nilmário tem viajado pelo estado mineiro para apoiar campanhas municipais de candidatos petistas a prefeito e vereador. Em uma das visitas ao Sul de Minas, Nilmário falou sobre o atual panorama político nacional.

Saída de Dilma e eleições. Na avaliação do secretário estadual, o impeachment da presidente Dilma foi muito mais pelos acertos do que por erros cometidos. “Viram que a gente não era um problema, era a solução. Diferente de outros golpes militares, ela não foi cassada por crime, e sim por ideologia”, afirmou Nilmário.
O presidente Temer não divulgou o seu plano de governo aos aliados que o ajudaram chegar ao poder. Como consequência, há um clima geral de descontentamento que favorece o PT, desde que o partido esteja reformulado. As mudanças internas já começaram. Otimista, Nilmário acredita que diversos candidatos petistas de capitais de estados, grandes, médias e pequenas cidades, poderão chegar ao segundo turno. A conclusão é que poderá haver muita surpresa se o PT souber resistir e defender o seu legado social.

Novos candidatos. Há uma tendência recente de empresários bem-sucedidos se candidatarem a cargos públicos. É uma vertente do neoliberalismo. Tem até slogan: “Eu quero ser prefeito, mas não sou politico”.  João Dória, em São Paulo, tem este perfil. No entanto, já ficou confirmado que são administrações distintas. O sucesso empresarial não se aplicou  ainda na administração pública.

Autocrítica petista. O PT não vai voltar a ser o que era. Mudou muito e cresceu. No entanto, continua como o maior partido de esquerda do país e só sobreviverá com o diferencial de defender movimentos sociais. Um dos erros do partido foram as alianças necessárias para ganhar eleições anteriores e governar após uma vitória eleitoral. Lula agradecia por ter tido um vice como José de Alencar. Dilma não teve a mesma sorte, precisou de coligações, mas não foi diplomática o quanto deveria, revelando aversão a politiqueiros. E assim, foi fácil isolá-la.

Nilmário também ouviu críticas para reformular o partido. “A cúpula do PT precisa ouvir as bases do PT”, “O partido precisa governar no momento, durante quatro anos, sem pensar na próxima eleição.” Mais do que aliança com partidos políticos, a grande aliança deve ser com o povo.
Foi citado que o partido precisa ter, direta ou indiretamente, a sua própria imprensa, a exemplo dos adversários políticos. Já o conceito “Eles tentaram nos enterrar, mas não sabiam que éramos sementes” pode gerar muitos frutos para o país, por meio de um programa idealizado em 2011, a Frente Ampla, que dá voz a diferentes grupos sociais que são excluídos. Este bloco poderá reconstruir o partido.
Poder das minorias. O governo Temer assumiu o comando do país sem ter contar com mulheres e afrodescendentes. Ambos representam a maioria populacional no país. É um partido de homens brancos e ricos que não dialogam com a população. Como exemplo, tempos atrás, feminismo era uma ideologia de classe média. Hoje, se tornou “feminismo popular”.

A violência contra a mulher, e a discriminação racial e de gêneros ganharam visibilidade social. Está socialmente comprovado que a cor da pele agrava a exclusão. Se a saúde e a educação fracassam, a primeira vítima é a família negra e pobre. Nilmário acrescentou que os jovens de hoje são bem politizados e anti-homofóbicos. O PT sabe dialogar com esses grupos e tem uma identidade revolucionária. Foi ressaltado que revolução é estar descontente com uma situação e buscar mudanças. Até o papa Francisco, na visita ao Rio, em 2013, aconselhou aos jovens: sejam revolucionários. “

Lula– Se houvesse eleição direta para presidente em 2016, Lula venceria, disse o secretário estadual. Por isso mesmo, estão tendo caçá-lo. Porém, em um único dia em que o ex-presidente passou na delegacia houve manifestação em 1.108 cidades. Passeatas na Av. Paulista, com mais de 100 mil participantes, é outro termômetro dessa popularidade. Se o ex-presidente petista for preso, por motivos forjados, não é possível prever a reação popular.  Por essas e outras, estão avaliando se compensa a estratégia de excluí-lo.

Agressão policial. Sobre as agressões policiais em manifestações – São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba e outras – houve uma determinação do governador Pimentel, que não quer ser lembrado com essa imagem. A ordem é “escolher a dedo” os policiais que vão atuar em manifestações. O fato é que até agora a capital mineira não entrou na listagem das agressões a manifestantes, mesmo havendo infiltrados com o objetivo de dar motivo para a polícia agir à base da força e gerar notícia no jornalismo “publicitário”.