Mãe cuidadosa, tia preocupada. Entraram desconfiadas. Éramos a única possibilidade de solução e ajuda. Eram pobres e sem a menor condição de pagar uma consulta particular.

“Estou desesperada. Ele mamava bem, com força, estava crescendo, se desenvolvendo. Já tem uns 20 dias que ele tá assim. Sonolento, não suga o meu peito com força, chora muito, fica menos de um minuto no peito e já solta. Volta leite pela boca na maioria das vezes… Já levei na upa 3 vezes e falaram que era cólica e refluxo. Deixaram remédio de dor e febre de 6 em 6 horas e de refluxo de 12 em 12 horas. Também estou dando remédio pra gases e pra cólica. Mesmo assim ele não melhora.”

“Você disse que há 20 dias ele estava bem. O que mudou na rotina dele?”

“Bom, ele tava mamando só no peito mas, mesmo esvaziando as duas mamas, depois de uma hora já estava com fome de novo. Percebi que era o meu leite que estava fraco e resolvi dar o N*** fases. Foi aí que tudo começou.”

“E ela tá fumando, viu, doutora.”

“Mas eu não fumo perto dele.”

“Mas passa pelo leite, né, doutora?”

“Você tem vontade de parar?”

“Tenho, doutora, mas essa situação tem me deixado mais ansiosa e a vontade de fumar fica ainda maior.”

“Você poderia colocá-lo no peito? Quero ver como ele está mamando.”

Foram segundos. Uma pega fraca, bebê sonolento, mesmo quando estimulado. Mamou um pouco e logo começou a chorar e se agitar.

“Isso porque ele tá com fome. Não comeu nada hoje.”

Examinei a criança. Do fio do cabelo até a ponta do pé. Nada! Ganhando peso normalmente, sem febre. Sem nenhum sinal de doença grave. Pedi pra que a mãe o acalmasse até que ele dormisse para observarmos o sono que, segundo ela, estava agitado e interrompido inúmeras vezes, porque a criança se assustava.

Era angustiante. A cada minuto, a criança se assustava, esticava os bracinhos, chorava, resmungava e voltava a dormir.

“É o tempo todo assim, doutora!”

Eu queria ter filmado a minha cara de assustada. Aqueles abalos me preocuparam porque, se estivessem se sustentando por muito tempo sem um motivo aparente (“susto” por um barulho, “soluços”), poderiam equivaler a convulsões…

“A médica da upa disse que ele precisa fazer um exame da cabeça para ver o que tá acontecendo.”

Enquanto isso, eu pensava: “ele acabou de mamar e chorar, deve estar soluçando… mas será convulsão? Mas convulsão só quando dorme? Só quando chora…? Já pensou ter que sedar esse pedacinho de gente pra fazer um exame por causa dessa dúvida? Mas, e se eu não pedir o exame e forem convulsões, realmente?! Mas ele tá bem… Mas nessa idade, os sinais são poucos, mesmo… Se eu deixar passar, pode ser tarde… Vou pedir. A mãe não vai confiar em mim se eu contrariar a pediatra. Socooooooorrro!!! Resolvi ser franca e expor todas essas incertezas e riscos para a mãe e para a tia.

“Eu sei que é angustiante e posso imaginar a preocupação de vocês. Se analisarmos friamente, toda essa confusão começou quando começamos a dar outro leite pra ele. Além disso, ele está tomando 3 remédios todos os dias, um de 6 em 6 horas. Esses remédios podem, raramente, causar sonolência. Eu gostaria que a gente tirasse todos esses remédios e o leite. Podemos deixar só o seu leite, que é o mais adequado pra ele. E observarmos como ele fica até sexta-feira.”

“Mas e o exame?”

“Podemos decidir na sexta?”

“Tá bom…” Respondeu desconfiada.

“Depois das mamadas, deixe ele ‘empezinho’ no colo, sem sacudir muito, pelo menos 20 minutinhos. Coloca um tijolinho ou umas revistas velhas nos pés da cabeceira do berço pra ele ficar com a cabeça um pouco mais alta enquanto dorme.”

E assim, pactuamos um novo encontro em 3 dias.

Sexta-feira. Voltam a mãe, a tia e 3 crianças. Todas dentro do consultório, comemoravam a melhora do pequeno. Ele no peito da mãe, mamava feito um bezerrinho.

“Doutora, ele tá ótimo. Voltou a ser o que era. Tá dormindo tranquilo. O tijolinho no pé do berço, acho que ajudou. Só estou dando o remédio de cólica, de vez em quando, quando ele chora aquele choro espremido à noite, sabe?!”

“Sei.”

“E ela parou de fumar, viu, doutora. Tô vigiando.”

“Parei! Mas aí eu aproveitei que o meu pequenininho tá ótimo e não vai precisar da consulta de hoje e trouxe meus outros 2 pra senhora olhar.”

“Senhora, não. Você.”

“Você… minha anja!”