Não se fala de outra coisa. Foi apresentado projeto de lei 193/2016 contra a pregação moral e ideológica que tem algumas vezes substituído o ensino da ciência nas nossas escolas.

Deveria ser motivo de regozijo para todos. Será que a esquerda, tradicional defensora do laicismo e do ensino do conhecimento científico, livrará o ensino brasileiro da pregação fundamentalista nas escolas confessionais, da fascista nas escolas militares, da ideologia neoliberal nas faculdades de economia, do legalismo nas faculdades de direito?

Não será dessa vez. Esse projeto defende que a educação no Brasil deve garantir aos estudantes o direito à liberdade de consciência e crença (mesmo que seja a de que a Terra tem só cinco mil anos), o direito dos pais a seus filhos receberem educação religiosa de acordo com a sua, além de impedir na prática qualquer tipo de educação sexual. Ele supostamente quer garantir “neutralidade em questões religiosas e políticas”.

E o que seria neutralidade em questões religiosas? Considerar igualdade de ensino a evolucionismo e criacionismo? E em questões políticas, considerar 64 igualmente fruto de um golpe e de uma revolução? Quem decidirá o que é neutro é nosso imparcial… judiciário.

Para neutralizar nossas escolas, o projeto quer que os professores públicos, além de seviciados pelo estado com salários de fome, acossados pelo crime dentro de suas classes, massacrados por jornadas duplas e falta de condições materiais de trabalho, sejam expostos a processos judiciais recorrentes de alunos e pais que não gostarem de algo que falarem.

É isso. Não se trata de escola sem partido, mas de escola com religião e com censura. Trata-se da negação da própria ideia iluminista de educação pública. Da transformação da escola em espaço terapêutico de validação da cosmovisão de pais e alunos (obrigado, pós-modernismo!).

Mas ao ser apresentado como freio à “pregação marxista em nossas escolas”, esse projeto fundamentalista conseguiu o apoio de outra categoria binária: os fascistas.

O fascista tem tanto medo do ideário socialista, acha-o tão irresistível, que não quer deixá-lo ser exposto em nenhum âmbito da sociedade. Não basta para eles terem a televisão com partido, o judiciário com partido, a igreja com partido, as empresas com partido e a polícia com partido: eles precisam também da escola com partido. O deles.

Mas infelizmente, como observou Idelber Avelar, em vez de denunciar todo esse estado de coisas, parte da “esquerda” tratou de entregar o debate de bandeja pro inimigo. Em vez de mostrar que o projeto era “partidário”, ela o atacou na base do “tudo é ideologia”.

Foram os binários pós-modernos. Gente que acha que como nada está totalmente isento de ideologia, então tudo é só ideologia. Que como nós não podemos alcançar uma verdade absoluta, então nenhuma afirmação tem mais fundamento que outra.

Ora, se tudo é “ideologia” (no sentido que a direita dá ao termo), por que estudantes teriam que perder tempo sendo obrigados a ouvir a “ideologia” dos outros?

O fato de não podermos ter um olhar absolutamente neutro, de não podermos ter parte de nosso conhecimento isento de vieses “ideológicos”, não significa que isso seja desejável. Não é. O método científico existe exatamente para dirimir ao máximo esses vieses.

Mas para o pós-modernismo, não. Se há viés, então que transformemos a escola em espaço de doutrinação, que nos vinguemos da razão, da ciência, das evidências empíricas. Que confundamos questões de valor com questões de fato, desejos de como o mundo deveria ser com descrições de como ele é. Que tudo seja só viés, que o que é conhecimento seja decidido só por pressão política.

O Brasil está imerso nessa guerra política dos binários pela posse da escola e da universidade. Salvemos nosso país com a racionalidade. Quem sabe essa discussão não seja uma oportunidade?

Talvez alguns fundamentalistas possam aprender que a escola pública existe para transmitir a base do conhecimento científico que a humanidade acumulou, não uma religião (isso fica para a escola dominical). Que seu laicismo é parte de seu compromisso com a coisa pública. Que o nível de comprometimento ideológico do conhecimento histórico não é o mesmo que o do linguístico, que por sua vez não é o mesmo que o do biológico. Que a teoria da evolução não é uma teoria como o criacionismo. É a teoria sobre as espécies que acumula a maior quantidade de evidências empíricas favoráveis e a menor de desfavoráveis. Não gostou? Então se torne cientista e tente encontrar evidências contrárias, ou vá a uma pregação do Valdemiro Santiago e seja feliz (?).

Talvez alguns fascistas possam aprender que uma coisa é Física, outra é História. Que embora os dados não falem sozinhos em ciência alguma, na Física podemos testar nossas interpretações em experimentos, na História, não. A História, e em menor medida a Sociologia, sempre dependerá de interpretações que façam os dados fazerem sentido. A mera escolha para ensino de alguns eventos históricos e não de outros é “ideológica”. Não gostou da interpretação? Vá ser professor de História, estude, investigue, debata e convença a comunidade de acadêmicos de que existe uma melhor.

Talvez alguns pós-modernos… Não. Esses poderiam, mas não vão aprender nada, porque pra eles não há nada a aprender. Eles vão continuar igualando toda forma de “discurso” como produto exclusivo de construções sociais, espalhando absurdos sobre Biologia, Linguística, História, reduzindo tudo à mera ideologia e o critério de escolha entre teorias à mera força política. Até que finalmente fundamentalistas (mais numerosos e mais fortes) decidam pelo voto o que é conhecimento.

Eu também queria ver esses três – e muitos outros partidos irracionais, anticientíficos ou meramente perversos – expulsos da escola e da universidade brasileira.

Mas desde que eu completei dez anos de idade, entendi que o destino de coisas que desaprovamos não deve ser uma fogueira nazista de livros. Deve ser o debate amplo, consequente e cansativo. Requer inteligência, conhecimento, paciência e tolerância.

Creio sim que temos um problema grave em nossas faculdades de pedagogia, de economia, de psicologia, nas escolas militares, confessionais, públicas. Mas o que quer que ele seja, não se acabará com pastores, deputados ou juízes ignorantes decidindo como um fato histórico ou dúzias de experimentos devem ser interpretados. Não se acabará com o fim da liberdade de ensino.

Estamos deixando que esses medievais se apresentem como defensores de uma escola “neutra”, “científica” e “plural”, como opositores de quem diz que tudo é ideologia ou que doutrinar politicamente é desenvolver pensamento crítico de estudantes. Isso pode ser fatal.

Não podemos deixar essa guerra para os binários. O trabalho de esclarecimento e diferenciação é árduo, tentar trazer essas coisas para linguagem ordinária é difícil, mas temos que conseguir. Porque se falharmos, teremos sim uma escola com partido. O partido único da ignorância.