Escrever é um pouco como dormir. É um semi abandono do corpo para que algo do desconhecido o habite. É uma fina conexão, quase suave, quase inexistente, quase-quase, que comanda o movimento da mão. Escrever é como sonhar. É algo que se faz não sendo muito si mesmo e por isso mesmo sendo muito si mesmo. Escrever é se despir e desfilar num varal habitado por pombos caolhos. É não precisar se responsabilizar pelo sem sentido que puxa a vida pela mão. É ter que se haver com o caos que mora no peito e que fazemos morrer todos os dias quando nos colocamos a trabalhar, a amar e a dar sentido para as coisas. Escrever é um absurdo, mas é um absurdo menor do que o absurdo que é viver.